Juan Carlos: Por que se cala?

Os franquistas anteviam um reinado breve, mas mesmo tendo abdicado ontem, Juan Carlos de Bourbón manteve-se no trono um bom par de anos mais que o Caudillo Francisco Franco.
São trinta e sete anos com um punhado de momentos delirantes e hilariantes, a começar ou a acabar no célebre “por que não te callas?” dirigido a Hugo Chavez na Cimeira americana.
Depois há aquela manobra de photoshop para excluir da família os netos filhos de Inaki Urdangarin ou o espectáculo de um pedaço de homem, totalmente nu no Iate Fortuna, que uma revista ita-liana definiu como as “mais escondidas jóias da Coroa”.

Também fica famoso pelas suas quedas, ao ponto da imprensa cor-de-rosa afirmar que o Rei tem um ponto de gravidade dema-siado alto, especulando sobre a resistência dos chassis dos Bourbons. Mas o pior momento deste monarca libidinoso aconteceu ao abater elefantes no Botswana, quando o país mergulhava na sua pior crise económica e o seu Rei se deleitava a deixar-se fotografar ao lado de um paquiderme que agonizava após os disparos de um Franco atirador.

Mas, sejamos justos. Os mais de 38 anos de serviço do Rei confundem-se com os da democracia espanhola, recuperada por ele após uma longa e negra ditadura.
Foi sua a primeira grande decisão ao renunciar aos poderes absolutos herdados por Franco, organizando a democracia, fomentando uma nova Constituição e modernizando a Monarquia castelhana. É de si que parte a determinação contra os golpistas de 23 de Fevereiro, evitando uma situação gravíssima para a jovem democracia espanhola. É sua também a decisão de abdicar e entregar a chefia do Estado a Felipe de Bourbon.

Os espanhóis não podem negar a utilidade dos seus serviços e a sua abdicação facilita a necessária credibilização de uma instituição carente de enfrentar os desafios do futuro.
Os espanhóis não podem negar ao Rei a sua neutralidade face às contendas partidárias e o respeito escrupuloso pela Constituição. Estas duas qualidades contribuíram decisivamente para a utilidade da Monarquia.

Em plena recuperação das várias cirurgias, o Rei esforçou-se por recuperar a confiança da cidadania e escolher o melhor momento para a sua substituição.
Os espanhóis pedem agora a Felipe de Bourbon que recupere a confiança deles, aprofundando as qualidades do pai e facilitando a modernização da Espanha. Herda um reino de paz, progresso e entendimento mas isso foi insuficiente para evitar uma despedida amarga do pai, quando disse aos espanhóis, na hora do adeus: “hoje, não posso sentir orgulho e gratidão de vós”.

Os espanhóis sentem hoje os efeitos da sua acção reconciliadora e aceitam a sua decisão de renunciar como um acto de enorme responsabilidade e de ímpar generosidade.


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