Sim, sou a favor do valor humano

Ponto prévio: sou pai de uma menina de três anos, sou a favor da co-adopção por casais do mesmo sexo e sou contra referendar aquilo que está consagrado na lei, ou seja, o direito à família.

Ainda há alguns dias, o Papa Francisco deu um exemplo fantástico ao baptizar um filho de uma mãe solteira e uma menina de um casal que apenas se encontra casado pelo civil, ou seja, cuja união não é religiosa. O Papa combateu mais uma vez o preconceito, colocou o dedo em mais uma ferida da Igreja Católica e assumiu uma formalidade, como deve ser entendida, isto é, como uma mera formalidade. Para Francisco o mais importante que existe no universo é o valor humano. Aliás, relativamente a estes factos, concordo na plenitude com as palavras do eurodeputado José Manuel Fernandes, quando refere que o Papa “não propõe uma revolução política - mas interpela-nos a uma revolução de comportamentos”.

A Ordem dos Psicólogos também se pronunciou e, como estava à espera, aprova a co-adopção por parte de casais do mesmo sexo. Num parecer apresentado a Ordem conclui que “os resultados das investigações psicológicas apoiam a possibilidade de co-adopção por parte de casais homossexuais, uma vez que não encontram diferenças relativamente ao impacto da orientação sexual no desenvolvimento da criança e nas competências parentais”. “Um desenvolvimento saudável não depende da orientação sexual dos pais, mas sim da qualidade da relação entre pais e filhos”, frisa a Ordem dos Psicólogos e, para mim, é nesta expressão que está o cerne de toda a questão. O mais importante é a qualidade da relação entre pais e filhos e não da orientação sexual dos pais.

Num país como Portugal é perfeitamente natural que exista discriminação com os homossexuais, bem como para os filhos dos casais do mesmo sexo. Aliás, acredito que alguém em fase de crescimento, sofra bastante repulsa por parte dos olhares da sociedade. É um ser humano que está ali, mas é recriminado. Se sofrem e já sofreram no passado os pais, também os filhos irão sofrer essa repulsa. Na escola, em casa, no café. Em toda a parte é passível de ser discriminado.

Vai ser? E depois? Tem uma família? Tem. É amado em casa? Se sim, fantástico, porque esse é que é um dos pilares dos verdadeiros valores humanos. Esse equilíbrio emocional que possa existir em casa é o primeiro passo para que fora dela seja resistente. O importante no ser humano não é a condenação, mas a acção e, obviamente, pela positiva, pela inclusão. Para além disso, as crianças para chegarem a um processo de adopção é porque algo de anormal aconteceu e muitas delas foram abandonadas por heterossexuais. Em último lugar, quero fazer uma alusão à lei. O direito à família está consagrado na lei. Ponto final. Por isso, considero que todo o tipo de justificações são tornam-se inválidas perante algo universal.

Parece até de uma enorme desonestidade intelectual rejeitar um referendo tendo por base os custos que isso representa para o país. Para isso, já chegaram as infelizes declarações da presidente da Assembleia da República sobre os custos da transladação de Eusébio para o Panteão Nacional, até porque nessa matéria, faço minhas as palavras de Vasco Pulido Valente quando referiu que Eusébio merece um Panteão só para ele. Mas adiante... Rejeito o referendo porque o direito à família é universal e está na lei. Ponto final.

Há ainda outra questão, que até agora não vi ninguém a abordar, mas que está relacionada com a responsabilização. A co-adopção significa responsabilizar dois seres humanos em torno de uma vida humana. Se duas pessoas do mesmo sexo formam um casal, por que é que apenas um é que deve ter a responsabilidade de uma criança? Se o outro já tem a responsabilidade moral, por que é que não deve assumir também a responsabilidade civil?

Por último, apenas uma nota para aqueles que se assumem como representantes do povo. De uma vez por todas estejam à altura da condição que representam. A Assembleia da República merece mais. O país, o comum dos mortais merece muita mais elevação.

P.S.: A minha filha - Maria Miguel - será para sempre a princesa da minha vida. É o seu sorriso que me faz correr o sangue nas veias, são as suas quedas que me magoam. Tem um pai e uma mãe que a adoram e que se preocupam que o seu crescimento seja feliz. Com amor, educação e com valores. Humanos. Sempre. Todas as crianças têm direito à família.


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