A borboleta branca
António Cunha
Tudo começou nas tardes quentes de Verão. Como era costume com a fadiga do trabalho nos campos, fazia-se uma soneca depois do almoço, para fugir às horas mais calorosas do dia.
Dois jovens procuraram estas horas para encontros proibidos.
Eles jogaram umas horas na areia do campo, a brincadeira era tão inocente que nem o tempo viram passar.
Algum tempo depois, a menina que ainda não tinha feito seus 15 aninhos começou a sentir mudanças no corpo, e sentia que a sua barriguinha estava estranha.
A surpresa dos jovens foi grande, já que nada conheciam da natureza nem do corpo humano, e não faziam ideia do que lhes irá acontecer. Mas não havia dúvidas que um futuro bebé iria nascer, fruto duma brincadeira proibida.
Para salvar a honra das famílias era preciso que o casamento fosse realizado urgentemente.
Não podia haver namoricos dessa envergadura sem casamento
.
O bebé nasceu para a felicidade dos pais e da família, porém essa felicidade foi muito pequena.
Os pais, adormecendo, esqueceram do recém-nascido que dormia com eles, e a criancinha escorregou até ao pé da cama, onde foi encontrada morta já de manhã pelos pais que não se aperceberam de nada, perdidos que eles estavam no sono ingénuo e feliz.
A trista notícia foi dada pelos pais aos enteados na forma dum poema.
“Voa, voa, borboleta branca,
Fruto do Amor proibido,
Alegria, Luz, Esperança,
Fugiram e voaram contigo.”
Enquanto o Senhor Padre celebrava a missa na igreja, uma borboleta branca esvoaçou até ao caixãozinho branco e se pousou em cima dele, talvez para com ela levar a alma inocente. E se fosse esta borboleta branca a própria alma que subiu aos céus para sempre?
Ninguém soube dizer, mas muitas lágrimas foram derramadas, e jamais esquecidas.