Muro/20 Anos: Ex-chefe comunista Egon Krenz diz que queda do Muro de Berlim era 'inevitável'

Lusa ·

O derradeiro chefe do partido comunista da Alemanha de Leste (SED), Egon Krenz, considerou a queda do Muro de Berlim, há 20 anos, “inevitável', e congratulou-se por não ter havido derramamento de sangue.

“O dia 09 de Novembro de 1989 foi muito importante para mim, embora só estivesse previsto abrir o Muro a 10 de Novembro”, disse Krenz em Berlim à agência Lusa.

A 09 de Novembro, o conselho de ministros da RDA aprovou um despacho “para acelerar o processo de abertura das fronteiras, 'que inicialmente estava previsto para antes do Natal, mas que foi antecipado”, contou o ex-dirigente comunista, 72 anos.

“Li então o despacho no mesmo dia na reunião do Comité Central no mesmo dia, assim como o comunicado de imprensa que devia ter sido divulgado apenas na madrugada do dia 10 de Novembro”, recorda Krenz.

O líder do SED deu depois o referido comunicado ao porta-voz do SED, Guenter Schabowski, antes de este ir para uma conferência de imprensa ao fim da tarde do dia nove, em Berlim.

“Schabowski só falou do despacho no fim da conferência, e quando lhe perguntaram quando entrava em vigor, respondeu que era imediatamente, que era o que dizia de facto no comunicado, mas se referia ao dia 10 de Novembro”, garante Egon Krenz.

O chefe comunista, que tinha ficado na reunião do Comité Central, só se apercebeu do que se estava a passar quando Erich Mielke, chefe da polícia política da da RDA, a STASI, lhe telefonou a dizer que as pessoas estavam a dirigir-se para os postos fronteiriços em Berlim.

“Esse foi o momento mais perigoso, porque os guardas da fronteira ainda não tinham recebido instruções, e foi graças a eles que não houve derramamento de sangue”, conta Krenz.

Krenz revelou ainda que no dia seguinte falou ao telefone com o embaixador da URSS em Berlim-Leste, que se mostrou surpreendido com a queda do Muro de Berlim e lhe disse que a direcção soviética, liderada por Mikhail Gorbatchov, só tinha concordado em abrir a fronteira entre a RDA e a RFA.

Krenz pediu então ao diplomata que enviasse um telegrama a Gorbatchov a explicar a nova situação, e só então o líder soviético respondeu, dando-lhe os parabéns pela decisão de abrir o Muro.

No mesmo dia, Moscovo mandou uma mensagem ao chanceler alemão federal Helmut Kohl, através do embaixador da URSS em Bona, 'a advertir contra o o aproveitamento da situação para desestabilizar a RDA”, afirma Krenz.

Expulso do Partido do Socialismo Democrático (PDS), sucedâneo do SED, em 1990, Egon Krenz foi posteriormente condenado na Alemanha reunificada a seis anos e meio de prisão, pelas mortes de fugitivos no Muro.

O ex-líder comunista nunca aceitou a sentença, continua a falar de uma “justiça dos vencedores” e diz que “a História acabará por repor a verdade dos factos”.

Para Krenz, “a desgraça dos alemães não foi a RDA, foi a existência de forças que conduziram o país a duas guerras mundiais no Século XX”.

Sem a tomada do poder por Hitler e pelo partido nazi, em 1933, “não teria havido nenhum 1945, nem divisão da Alemanha, nem Muro de Berlim”, refere.

Quanto ao facto de terem morrido cerca de 140 alemães de leste ao tentarem passar o Muro, Krenz diz que “cada morto foi um morto a mais”.

No entanto, invoca que os dirigentes comunistas da RDA “não tinham condições” para mudar o sistema, porque a fronteira não era só fronteira inter-alemã, era fronteira entre dois blocos antagónicos, entre dois sistemas mundiais”.

O destino da RDA 'estava intimamente ligado ao da União Soviética, e quando a RDA acabou, a União Soviética já estava no leito de morte', afirma Krenz.

Krenz admite abertamente que o seu ideal ruiu, mas acha que o capitalismo 'não será a última palavra' da história.

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