Politico sem qualidades

Artur Coimbra ·

1) Há declarações que chocam, pelo menos quem ainda tem um pingo de consciência, pela desvergonha com que são proferidas. Como há limites para os desaforos de um primeiro-ministro, seja ele quem for. Neste caso, verdadeiramente, um “Politico sem Qualidades”, parafraseando um título retirado ao célebre romance de Musil…
No início da semana passada, e em ambiente de pura demagogia, ante um auditório de jotinhas do seu partido, Passos Coelho não se coibiu de afirmar que os fins que prossegue justificam os meios. Nem mais. A mesmíssima metodologia usada nas ditaduras, nos totalitarismos. Os portugueses foram meros joguetes nas mãos de um autocrata que apenas se preocupou em reduzir o défice, “custasse o que custasse”, sem o mínimo respeito pelas pessoas concretas, pelas famílias.
O homem teve a lata de afirmar que, perante a situação que encontrou em 2011, e depois de eleições que venceu com base na mentira e na aldrabice (isso não disse, porque toda a gente sabe…), tinha um remédio para “ministrar” aos portugueses, ou seja, uma agenda política, quer gostassem, quer não gostassem.
Num registo patético, referiu, não antevendo qualquer contestação: «O objectivo que temos é o de vencer a doença, não é o de perguntar se as pessoas durante esse processo têm febre ou têm dor, se gostam do sabor do xarope ou se o medicamento que tomam lhes faz um bocado mal ao estômago ou qualquer outra coisa. Quer dizer, se os efeitos secundários de todo o processo por que se passa valem ou não valem a cura».
O primeiro-ministro esteve-se marimbando, ao longo destes anos, ele o reafirmou, para os alegados “efeitos secundários”, segundo a sua pobre literatura, ou seja, para os problemas concretos dos portugueses, para os centenas de milhares que foram para o desemprego, para os centenas de milhares que foram obrigados a emigrar (chegou, entretanto, ao ridículo de criar uma brincadeira de crianças a tentar com que regresse quem ele forçou a abandonar o país…), para os milhares de portugueses que ficaram sem casa e sem carro, que passaram para a situação de insolvência, que foram obrigados a tirar os filhos dos infantários ou das universidades e os pais dos lares; para as centenas de milhares de funcionários públicos a quem cortou salários e férias, além de feriados que tinha obrigação de respeitar, se tivesse alguma cultura histórica. O mesmo se aplica aos reformados de diferentes sectores.
O homem de memória curta que se “esqueceu” de pagar os impostos que todos pagam, e que não se lembra hoje, porque não convém, o que era a Tecnoforma, quando toda a gente sabe a aldrabice que foi; o homem que não olha a meios para atingir os fins; o homem que obrigou os portugueses a pagar as vigarices do BPN e que se prepara para fazer o mesmo relativamente ao BES/Novo Banco; o homem que vendeu em saldo tudo o que havia para vender no país, e que quer à fina força alienar a TAP, nem que seja a custo zero, criminosamente, enfim, o homem que deixa o país sem anéis nem dedos e que se gabou desde o início de ir “muito além da troika”, é um político sem qualidades, sem carácter, naturalmente bem coligado com espécie idêntica e irrevogável de um partido menor.
Um homem cuja “doença incurável” é o primarismo, o arrivismo, a sede de poder, a arrogância. Um político vaidoso hoje já insuportável!...
Um homem que merece em Outubro ser recambiado definitivamente para Massamá, porque já ontem era tarde…

2) A partir de 13 de Maio, entrou em vigor outra monstruosidade, chamada “Acordo Ortográfico”, que vem dos tempos moribundos do primeiro-ministro Cavaco Silva (1990).
Mais nenhum país de expressão oficial portuguesa tem o acordo em vigor; há países que ainda nem sequer o aprovaram.
Mas, como sempre, impera a mania bem portuguesa de querer ir à frente… nem que seja para o abismo, ou a imbecilidade, como é o caso. O português é secularmente provinciano e empenha-se em fazer gala de aplicar um acordo de que mais ninguém quer saber…
Somos um país de idiotas, sem qualquer dúvida.
Como há muito se defende, e eu subscrevo, não há qualquer razão válida para este acordo que não uniformiza coisa nenhuma, pelo simples facto de que mantém a dupla grafia em diversas palavras, torna ouras ilegíveis, instaura a confusão onde deveria continuar a haver clareza.
O Acordo de 1990 que entrou em vigor 25 anos depois, representa tão só uma inqualificável capitulação do lado português perante o Brasil, alegadamente para facilitar as relações comerciais e económicas, o que nem sequer acontece por causa da língua, mas por outros factores, como a distância geográfica e a política proteccionista do lado de lá em relação aos produtos portugueses. Além de que, leu-se na comunicação social, deu-se o caso anedótico de Portugal exportar livros escritos segundo o alegado AO para o Brasil que foram mandados para a lixeira, porque não seriam legíveis para os brasileiros. Estamos a brincar ou quê? Ou a quê?
E a culpa não é dos brasileiros, obviamente, é dos políticos sem coluna vertebral, nem a mínima dignidade, que nos têm governado ao longo deste quarto de século, numa manifestação de parolismo que envergonha.
É evidente que, depois do Acordo e apesar do Acordo, Portugal e o Brasil continuam a não se entender em matéria de ortografia. Porque, sendo a língua a mesma, a grafia não o é, nem o significado das coisas.
O rato em Portugal, é mouse no Brasil; o adepto é torcedor, o guarda-redes é goleiro, o comboio é trem, o autocarro é ônibus, o fato terno, o golo gol, o ramo de flores é o buquê e o calção é short.
A casa de banho portuguesa é banheiro no Brasil, como o pequeno-almoço é o café da manhã, o telemóvel é o celular, e conduzir é dirigir.
E já nem falamos em palavras que em Portugal não se utilizam, como desgrudar, curtir, fofocar, gatona, chope, vipões, garçonete. E tantas outras…
Que acordo é que é possível num universo em absoluto desacordo?
Só se explica por uma estratégia de rendição por parte de políticos portugueses sem qualquer craveira, que querem à força obrigar todo um povo a usar a língua de um modo uniformizado, padronizado, obsessivo, irrespirável.
Chama-se a essa abjecção totalitarismo, absurdo, ainda que estejamos em democracia formal, desde há quatro décadas. São os cadáveres nos armários do cavaquismo!...
Obviamente, não me sinto obrigado, nem o farei, a escrever os meus textos, a minha liberdade livre, de acordo com aquilo de que discordo geneticamente.
Estarei em absoluto desacordo ortográfico com a idiotice dos nossos governantes e da Academia das Ciências, que deveria defender a Língua Portuguesa, a Pátria simbólica de todos nós!
Não o faz. Tem de ser cada um de nós a fazê-lo individualmente! É o que continuarei a fazer, neste e em outros areópagos!...

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