Fatores de diferenciação no ensino
Após breve incursão no mundo empresarial, iniciei o desafio de dar aulas na EPB há uma década atrás. Os contornos do ensino profissional eram, para mim, desconhecidos mas a maior surpresa, ou melhor, revelação, assentou na qualidade pedagógica da EPB. Pela limitação de espaço, não é viável abordar todas as variáveis que conduzem ao sucesso do seu ensino, limito-me assim a versar a minha crónica sobre a dimensão humana e a importância do estágio curricular que, pelas suas características, constituem dois dos fatores de diferenciação da EPB.
De entre os valores que devem transparecer no ato docente, considero que a relação de empatia estabelecida com os alunos é um dos essenciais. Não me refiro ao facto de “gostar dos alunos”, mas sim de acreditar nas suas capacidades e de tentar criar as condições de aprendizagem e de motivação adequadas, visando desenvolver o espírito empreendedor, o trabalho de cooperação e equipa, o sentido ético e a realização de tarefas de forma autónoma e responsável.
A empatia acontece porque ensinar é, antes de mais, uma relação. É óbvio que não será apenas isso mas, se não estabelecermos o contacto, não poderá haver transmissão de conhecimentos de forma eficaz. Existe então uma relação afetiva e interpessoal essencial no ato de ensinar, uma relação que não é sinónima de sucesso garantido mas que se assume como um sinal de que podemos começar a trabalhar.
É essa empatia, que os alunos identificam nos professores da EPB, que favorece o envolvimento de todos, criando um clima de interação democrática e igualitária.
Poderá haver quem não concorde com a criação de empatia, por ter receio de que seja confundida com excesso de confiança. Infelizmente, em alternativa, cria-se uma distância que não é propícia à aprendizagem. Apresentarmos abertura aos alunos será sinónimo de falta de autoridade? Não poderemos ser coerentes e firmes nas nossas atitudes e usarmos de autoridade sem penalizar?
É muito importante conhecer o que se ensina e possuir um repertório considerável de conhecimentos de como ensinar mas é fundamental conhecer e perceber como aprende quem se está a ensinar. Este deverá ser o critério principal na escolha do modelo, abordagem, estratégia ou ferramenta ideal para cada situação de aprendizagem.
Além da ação com os alunos, é necessário trabalharmos de forma colaborativa entre pares, coordenando as nossas práticas e promovendo projetos interdisciplinares. Para além das reuniões periódicas, fomentam-se conversas informais, nos corredores ou à volta de um café no “bar da Fátima”, discutem-se novas ideias para o projeto de turma/curso, partilham-se anseios e fornecem-se “dicas” para ultrapassar dificuldades. É na reflexão coletiva, na coerência da equipa que nos tornamos me-lhores professores e cada vez mais aptos para respondermos aos desafios da sempre inacabada mas estimulante arte de ensinar a aprender.
A relação com os encarregado
s de educação vai ao encontro das perspetivas atuais que defendem a influência positiva desta relação no sucesso educativo dos nossos alunos. É imperativo que haja uma efetiva comunicação e uma relação articulada entre a EPB e a família, com base no diálogo e na partilha de responsabilidades, sem que uma tire o lugar à outra.
Os estágios, que ocorrem no final do segundo e do terceiro ano do curso, com a duração total de cerca de três meses, promovem a aplicação prática da teoria, fomentando uma maior assimilação das matérias curriculares e visam antecipar o desenvolvimento de atitudes e posturas profissionais, estimulando o senso crítico, a criatividade e o desenvolvimento de hábitos de trabalho e sentido de responsabilidade.
O contacto com tecnologias e técnicas que se encontram para além das situações simuladas durante a formação e o conhecimento da organização empresarial e das relações humanas no trabalho são aspetos bem patentes no estágio e que constituem outra das suas mais-valias. A concretização do estágio ocorre através da definição do plano de estágio e do apoio prestado pelos professores acompanhantes, que supervisionam o progresso dos alunos face aos objetivos definidos.
Assim, o estágio funciona ainda como um canal de intercâmbio entre a escola e o tecido empresarial, permitindo a adapta- ção dos currículos às necessidades do mercado de trabalho. Com isso, a escola melhora as oportunidades de colocação profissional e divulga a sua imagem em função da qualidade da prestação do aluno no estágio, que, note-se, tem sido extremamente positiva. Mas o estágio também interessa à empresa.
É um eficaz sistema de recrutamento e seleção de novos profissionais, favorece o espírito de oxigenação e permite ao empresário cumprir o seu papel social, contribuindo para formar as novas gerações de profissionais. Em suma, a principal vantagem em realizar um estágio é a de permitir um investimento pessoal. Por um lado, permite contrariar a falta de experiência profissional que caracteriza todo o recém-diplomado e, por outro, um estágio pode converter-se em emprego porque permitiu ao aluno mostrar as suas capacidades.
Consciente da importância da qualidade do nosso trabalho e das nossas atitudes, tanto na formação dos jovens como técnicos, bem como no seu desenvolvimento pessoal integral, redobramos esforços para, no final do seu percurso escolar, podermos testemunhar o seu “voo” com alguma segurança e motivação. Temos vindo a incutir-lhes alguns princípios e valores que consideramos pertinentes para o seu ingresso no mundo do trabalho de forma saudável.
Prova disso, é o relacionamento que mantemos com ex-alunos que não hesitam em procurar-nos quando estão perante alguma dificuldade ou, simplesmente, para partilharem os seus sucessos, tanto a nível profissional como pessoal. Este acompanhamento é, para nós, extremamente gratificante porque corrobora que desempenhámos um papel importante na vida daqueles jovens.