Bons resultados causam desconforto

J. A. Pinto de Matos ·

Estudos internacionais (TIMSS e PIRLS) revelam que Portugal, entre 50 países, foi o país que mais progrediu em matemática (15.º lugar) e o segundo que mais avançou no ensino das ciências (19.º lugar), ao nível do 4.º ano. O facto é notório, se atentarmos que em 1995 estava entre os cinco últimos colocados e que, no universo dos países da UE, Portugal é o 7.º melhor classificado, à frente da Alemanha e da Suécia, países de referência habitual do Ministério da Educação e Ciência (MEC).

A comunicação social quase ignorou a real importância destes resultados, ficou-se por telegráficas notícias, pouco mais que fugazes notas de rodapé. Perderam os portugueses a possibilidade de ouvirem uma boa-nova (e bem precisados estão disso), numa área onde, habitualmente, se empolam as más notícias e sobretudo abundam, como ervas daninhas, as opiniões portadoras ou prenunciadoras duma ação incompetente ou/e inconsequente. Não sendo nós defensores da sobrevalorização deste tipo de resultados, surpreende-nos (ou talvez não!) o quase silêncio de quem habitualmente neles se suporta.

Quem tem feito o seu currículo fustigando o nosso sistema de ensino e os professores, com assento reservado na comunicação social, deve ter ficado engasgado, porque, passado quase um mês da divulgação dos resultados, ainda não conseguiu falar sobre o assunto. Desapareceram os ‘opinion makers’… É-lhes difícil, compreendemos, fazer algum elogio e reconhecer que afinal as coisas não iam tão mal na educação, que o trabalho desenvolvido com persistência nas escolas, em sintonia e assente no conhecimento das comunidades, ia no bom caminho (pedia-se-lhes o ótimo…), em contraponto com o que tão assertiva e convictamente apregoavam.

O MEC, na nota divulgada, também se mostrou incapaz de reconhecer e elogiar esta notável evolução, no espaço de 15 anos (outros ministros, outras políticas...). O MEC procurou mesmo desvalorizar os resultados e, numa justificação mal ajaezada para a óbvia evolução (realmente não era possível ocultá-la, senão…), ousou ignorar (desrespeitar!) a ação de alunos e professores nesse feito.

Para o MEC, os bons resultados devem-se à “pressão por uma maior exigência, por parte da sociedade civil, à introdução de uma avaliação continuada, através de provas de aferição no 1.º Ciclo e a um maior controlo sobre os manuais escolares”. Apenas! Para o MEC, os atores do processo educativo não fizeram nada para esta melhoria. Quando os resultados são bons, os professores não são importantes para o sucesso educativo! Mas garantimos que seria por culpa deles, se os resultados fossem maus. E não faltaria gente a levantar o dedo acusador.

Sem as recentes reformas, que nos apresentavam como indispensáveis para “salvar” a educação, Portugal demonstrou níveis evolutivos nunca vistos - está melhor em matemática (é o 7.º classificado entre os países da UE), disciplina de referência e considerada o “patinho feio” dos portugueses (há quem tenha ido mais longe, quase sugerindo uma incapacidade inata dos portugueses para a matemática!); e Portugal ficou à frente da Alemanha (sim, da Alemanha! - apontada fastidiosamente, dia após dia, como o modelo da sapiência e da competência), da Irlanda, da Suécia... Efeitos das políticas do apodado ‘eduquês’, obviamente, porque as consequências das novas ver-se-ão muito mais tarde. Tememos que não venham a ser tão bons, com a ‘mega indiferença’ às posições das comunidades contra os ‘giga-agrupamentos’ de escolas, com as ‘mega-turmas’, com as crescentes e incomportáveis exigências aos professores… medidas que deslocaram a sua razão de ser pelo seu valor intrínseco para a melhoria do ensino/aprendizagem, e assentaram raízes apenas nas metas ‘troikadas’ do Ministério da Finanças.
Enfim, percebe-se o desconforto do MEC na apresentação destes resultados.

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