Líbia: Resolução da ONU pode salvar democratização do mundo árabe - Especialista francês

Lusa ·

Um investigador francês disse hoje à Agência Lusa que a resolução do Conselho de Segurança, aprovando uma intervenção contra Muammar Kadhafi “poderá salvar a democratização no mundo árabe”.

“Joga-se na Líbia a continuação ou a interrupção da propagação da democracia no Magrebe e no mundo árabe”, declarou o sociólogo e cientista político Saïd Haddad.

Responsável da secção Líbia nos “Anais do Magrebe”, a publicação académica de referência em França sobre a região, e professor na Academia Militar de Saint-Cyr, Saïd Hadddad considerou a resolução do Conselho de Segurança da ONU como um “golpe” no poder de Kadhafi.

“O regime líbio levou um golpe que não era esperado e as reações de Tripoli mostram que Kadhafi apostava na hesitação da comunidade internacional” para esmagar a revolta desencadeada há um mês, adiantou Saïd Haddad.

“As reticências da comunidade internacional jogaram a favor do regime de Kadhafi e do avanço das suas forças”, sublinhou o cientista político.

O debate que antecedeu a aprovação da resolução em Nova Iorque, assim como as provas de “ceticismo” de países como a Alemanha, mostraram, por outro lado, que a intervenção surge na contracorrente da “incompreensão do que se passava no mundo árabe”.

Saïd Haddad referiu, nomeadamente, que na União Europeia notou-se a persistência “de duas abordagens redutoras, uma a do perigo migratório e outra a do islamismo”.

Nesse sentido, “e sem ser ingénuo, esta resolução pode marcar um momento histórico de envolvimento ou pelo menos de apoio da comunidade internacional a um processo de mudança” em toda a região.

“É isso que representa a situação líbia”, acrescentou o investigador francês.

Professor na prestigiada escola militar especial de Saint-Cyr, Saïd Haddad afirmou também que, qualquer que venha a ser a modalidade da intervenção na Líbia, “ninguém quer pôr as botas em solo líbio”.

Isso é verdade para os países ocidentais como para os países na região, incluindo “o Egito que apesar de ter o maior e melhor exército (no Magrebe) deixou claro que não tenciona envolver-se diretamente na crise líbia”.

No terreno, Saïd Haddad constatou “uma grande assimetria entre as forças de Kadhafi e os rebeldes”, mas ao mesmo tempo considerou que, após a resolução do Conselho de Segurança, “o Conselho de Transição líbio (que combate o regime) irá de vento em popa”.

É também claro para este analista da Líbia que, entre a liderança dos rebeldes, “que inclui uma grande componente de civis representando toda a sociedade”, a ideia de uma intervenção estrangeira ganhou terreno.

“Há duas semanas, e sobretudo após a queda de Ras Lanouf (no Golfo de Sirte), os rebeldes passaram abertamente a pedir uma intervenção, pelo menos sob a forma de interdição aérea”, disse o especialista francês.

Em todo o caso, a resolução em Nova Iorque é apenas o ponto de partida para “uma missão que não é isenta de grandes riscos”, concluiu Saïd Haddad.

Depois de três dias de negociações, o Conselho de Segurança da ONU votou na quinta-feira a favor de um recurso à força contra as tropas de Kadhafi, abrindo caminho aos ataques aéreos à Líbia.

A resolução adotada pelo Conselho, com a abstenção da Rússia e da China, autoriza “todas as medidas necessárias” para proteger os civis e impor um cessar-fogo ao exército líbio.

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