Estudo da UM: Discurso parlamentar está mais agressivo
Aldina Marques, professora do ILCH-UMinho, analisa os debates da Assembleia da República há vinte anos
Os debates da Assembleia da República (AR) são alvo de uma espiral de agressividade verbal, quer no tipo quer na frequência, o que é transversal a todas as bancadas. O alerta é de Aldina Marques, professora do Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade do Minho, que analisa os discursos no Palácio de São Bento há duas décadas.
Alguns deputados chegam a cultivar essa agressividade com insultos ad hominem, acusando o adversário de 'mentiroso', por exemplo. Assunção Esteves, tal como os seus antecessores na presidência da AR, “permite bastante tolerância” aos deputados para construírem o discurso. “As consequências são intervenções mais agressivas, embora não transgressoras dos códigos parlamentares'. O Regimento prevê a defesa da honra, que é usada raramente nestes casos.
Aldina Marques considera que alguns líderes da oposição têm adotado esta prática mais “musculada”, de confrontar o adversário, a que não será alheia a tensão política criada pelo contexto de crise. 'É também por aqui que se constrói a anti-imagem dos políticos, a descredibilização da classe política tem origem, também (mas não só), nos discursos que eles próprios constroem', refere a docente da UMinho.
Do tom emocional de Sócrates à calma de Passos Coelho
O tom agressivo é particularmente visível nos apartes, em que há mais liberdade de linguagem e não são considerados interrupções, elucida Aldina Marques. De forma sistemática surgem aí a ironia, o sarcasmo, as provocações, para além dos típicos coros de suporte ao orador - “muito bem, apoiado” - de colegas de bancada. “Falar é poder, é um exercício de influência”, anui a linguista, “daí que os deputados parlamentares e os membros do Governo tentem subterfúgios para prolongar por mais uns segundos que seja o uso da palavra'.
Para a também investigadora do Centro de Estudos Humanísticos da UMinho, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, e o Governo de um modo geral, tem construído uma imagem “claramente antagónica” à do antecessor José Sócrates, que era “um mestre das emoções”. “No atual Governo sobressai uma imagem de contenção emocional, construída em particular pelas vertentes não-verbais e paraverbais dos discursos”, frisa.
A disponibilização recente dos debates da AR em suporte audiovisual permite-lhe avaliar agora parâmetros como gestualidade, mímica ou a expressão do olhar, para encontrar sentidos implícitos e explícitos. “Claramente, o discurso parlamentar é um género específico, muito diferente, por exemplo, dos que têm lugar nos congressos partidários ou em contexto eleitoral”, diz Aldina Marques, que dedicou a tese de doutoramento ao tema “Funcionamento do Discurso Político Parlamentar - organização enunciativa no Debate da Interpelação ao Governo” (2000).
O humor e os jogos da política-espetáculo
A aproximação afetiva ao povo, típica dos períodos eleitorais, leva a que os políticos apareçam em programas onde a sua presença seria altamente improvável há alguns anos. É o caso de “O Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios”, “Isto Só Visto!” e “Conversas Improváveis”. “Há uma crescente espetacularização do político, como se fosse vedeta do cinema ou da canção; é preciso não perder espaços de visibilidade, ser visto primeiro para depois ser ouvido”, resume Aldina Marques. “O político tem também que assegurar que se riem com ele e que não se riem dele”, sublinha. Nos mass media, a linguista aponta ainda o dedo ao número excessivo de programas diários com comentadores políticos que comentam outros comentadores: “Dir-se-ia que estamos perante uma nova classe ‘política’”.
*** Nota do Gabinete de Comunicação, Informação e Imagem da Universidade do Minho ***
Os debates da Assembleia da República (AR) são alvo de uma espiral de agressividade verbal, quer no tipo quer na frequência, o que é transversal a todas as bancadas. O alerta é de Aldina Marques, professora do Departamento de Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade do Minho, que analisa os discursos no Palácio de São Bento há duas décadas.
Alguns deputados chegam a cultivar essa agressividade com insultos ad hominem, acusando o adversário de 'mentiroso', por exemplo. Assunção Esteves, tal como os seus antecessores na presidência da AR, “permite bastante tolerância” aos deputados para construírem o discurso. “As consequências são intervenções mais agressivas, embora não transgressoras dos códigos parlamentares'. O Regimento prevê a defesa da honra, que é usada raramente nestes casos.
Aldina Marques considera que alguns líderes da oposição têm adotado esta prática mais “musculada”, de confrontar o adversário, a que não será alheia a tensão política criada pelo contexto de crise. 'É também por aqui que se constrói a anti-imagem dos políticos, a descredibilização da classe política tem origem, também (mas não só), nos discursos que eles próprios constroem', refere a docente da UMinho.
Do tom emocional de Sócrates à calma de Passos Coelho
O tom agressivo é particularmente visível nos apartes, em que há mais liberdade de linguagem e não são considerados interrupções, elucida Aldina Marques. De forma sistemática surgem aí a ironia, o sarcasmo, as provocações, para além dos típicos coros de suporte ao orador - “muito bem, apoiado” - de colegas de bancada. “Falar é poder, é um exercício de influência”, anui a linguista, “daí que os deputados parlamentares e os membros do Governo tentem subterfúgios para prolongar por mais uns segundos que seja o uso da palavra'.
Para a também investigadora do Centro de Estudos Humanísticos da UMinho, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, e o Governo de um modo geral, tem construído uma imagem “claramente antagónica” à do antecessor José Sócrates, que era “um mestre das emoções”. “No atual Governo sobressai uma imagem de contenção emocional, construída em particular pelas vertentes não-verbais e paraverbais dos discursos”, frisa.
A disponibilização recente dos debates da AR em suporte audiovisual permite-lhe avaliar agora parâmetros como gestualidade, mímica ou a expressão do olhar, para encontrar sentidos implícitos e explícitos. “Claramente, o discurso parlamentar é um género específico, muito diferente, por exemplo, dos que têm lugar nos congressos partidários ou em contexto eleitoral”, diz Aldina Marques, que dedicou a tese de doutoramento ao tema “Funcionamento do Discurso Político Parlamentar - organização enunciativa no Debate da Interpelação ao Governo” (2000).
O humor e os jogos da política-espetáculo
A aproximação afetiva ao povo, típica dos períodos eleitorais, leva a que os políticos apareçam em programas onde a sua presença seria altamente improvável há alguns anos. É o caso de “O Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios”, “Isto Só Visto!” e “Conversas Improváveis”. “Há uma crescente espetacularização do político, como se fosse vedeta do cinema ou da canção; é preciso não perder espaços de visibilidade, ser visto primeiro para depois ser ouvido”, resume Aldina Marques. “O político tem também que assegurar que se riem com ele e que não se riem dele”, sublinha. Nos mass media, a linguista aponta ainda o dedo ao número excessivo de programas diários com comentadores políticos que comentam outros comentadores: “Dir-se-ia que estamos perante uma nova classe ‘política’”.
*** Nota do Gabinete de Comunicação, Informação e Imagem da Universidade do Minho ***