Directora do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga defende que “a função desta escola não é só formar instrumentistas”

Paula Maia ·

O Conservatório de Música Calouste Gulbenkian funciona em regime integrado, oferecendo nos ensino básico e secundário, além da formação geral, o ensino especializado da música com planos curriculares próprios do 1.º ao 12.º anos de escolaridade.
No arranque deste ano lectivo, o conservatório arranca com 620 alunos, divididos por duas turmas de cada ano, desde o primeiro ciclo do ensino básico até ao 12.º ano. Só no 1.º ciclo,a Calouste Gulbenkian conta este ano com 208 alunos.

Retirando alguns problemas relacionados com a colocação de professores - especialmente os que tem condições específicas - a directora do conservatório de música bracarense, Ana Maria Ferreira, garante que o lançamento do ano lectivo neste estabelecimento de ensino será “tranquilo”com a recepção aos alunos a decorrer amanhã, quarta-feira.
A recepção aos alunos do primeiro ano do 1.º ciclo do ensino básico acontecerá no mesmo dia, mas no período da tarde.

Sempre com muitos candidatos a querer entrar no conservatório, a selecção para o primeiro ano é feita mediante provas de aptidão musical. Este ano, e por imposição da lei, os alunos que completem seis anos de idade têm prioridade sobre os restantes.

Com ensino especializado na música, o Conservatório Calouste Gulbenkian é procurado sobretudo por alunos que querem seguir a via artística, mas nem todos acabam por fazê-lo. “Nem todos seguem essa via, apesar de cada vez seguirem mais”, assegura a directora da escola, afirmando que o paradigma sobre o que os pais pensam sobre o futuro associado a esta área vocacional foi mudando ao longo dos tempos.

“Hoje os pais já encaram com naturalidade que os filhos coloquem a possibilidade de seguirem para o mundo da música”, avança Ana Maria Ferreira. De acordo com a directora menos de 50 por cento dos alunos é que acabam por seguir a vocação musical.

Mesmo não seguindo a via artística, o método do ensino musical traz inúmeras vantagens para as restantes disciplinas, facto que explica os resultados académicos de excelência que tem caracterizado este estabelecimento de ensino. Além disso, a formação musical dota estes estudantes de uma sensibilidade que lhe confere uma outra aptidão muito útil nas várias áreas da sua vida.

“A função desta escola não é só formar instrumentistas e professores de música. É preciso também formar públicos que tenham uma sensibilidade especial para as várias áreas da vida. Mesmo que os alunos não sigam a área musical, nunca é um investimento perdido”, avança Ana Maria Ferreira.

Conservatório iniciou no ano passado o ensino articulado da música

O ensino articulado é actualmente uma das grandes apostas do Conservatório Calouste Gulbenkian. O projecto teve início no ano passado, em parceria com o Agrupamento de Escolas de Maximinos, arrancando com uma turma do quinto ano com 18 alunos.
Este ano foi formada uma nova turma do quinto ano, sendo que o projecto “será para continuar”.

Os alunos que entraram o ano passado frequentaram o curso de instrumentos de cordas, como violino, violas de arco, contrabaixo e violoncelo. A turma constituiu também uma orquestra de cordas. “A turma do quinto ano, que arranca este ano, já abriu para os sopros”, adianta Ana Maria Ferreira.
Este projecto tem ainda uma outra particularidade: a integração de alunos com Necessidades Educativas Especiais, nomeadamente alunos invisuais e de baixa visão que estão integrados no agrupamento de referência nesta área.
Uma oportunidade para constituir uma verdadeira Escola Inclusiva.

“Vivemos em pânico todos os dias com a falta de recursos humanos”

É um problema que se vem arrastando nos últimos anos e que afecta de forma muito vincada o funcionamento do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian. A falta de auxiliares de Acção Educativa é hoje um dos principais entraves com que a direcção deste estabelecimento de ensino se confronta e que tem procurado resolver, sem sucesso.

“O ano passado fizemos muito barulho porque estávamos em pânico no início das aulas”, afirma a directora do Conservatório de Braga, Ana Maria Ferreira, realçando que o problema torna-se ainda mais grave já que este é o único estabelecimento do concelho que não depende da autarquia nesta matéria. “Isso causa-nos alguns constrangimentos. Era bom que estivéssemos ligados porque a autarquia está muito mais atenta a estas questões.

E exemplifica: “Se um assistente operacional mete um atestado de um mês a autarquia substitui, mas o ministério não”, diz Ana Maria Ferreira, acrescentando que actualmente o conservatório tem quatro funcionários que estão de baixa médica “há anos”, mas que continuam a contar para o rácio da escola. “Na realidade são quatro pessoas que nos fazem muita falta. Deveriam ser substituídas”, prossegue a directora.

Se o ano passado a reivindicação acabou por resultar na colocação de dois funcionários, este ano a situação volta a repetir-se, agravada com a questão do horário para as 35 horas. “Se um fica doente ficámos logo em pânico. Se há um aluno que necessita de ir ao hospital já fica um sector sem ninguém. Ficamos logo desprevenidos.Vivemos em pânico todos os dias porque não temos dúvidas de que os assistentes operacionais são o conforto e a segurança no terreno de que as coisas vão funcionando”, remata.

Escola reclama alargamento da bolsa de horas

O Conservatório de Música Calouste Gulbenkian uniu-se aos conservatórios públicos do país para reclamar junto do governo a criação de uma bolsa de horas para o apoio a alunos com dificuldades e para o desenvolvimento de projectos.

“Há escolas que têm tantas horas de crédito que se dão ao luxo de contratar professores ao abrigo desse crédito! Os conservatórios, as escolas do ensino artístico especializadas são remetidas na portaria da tutela para uma disposição transitória. Já assim era e este governo manteve, colocando os conservatórios neste regime transitório que, depois de feitas as contas, nos dá zero horas de crédito. Não temos nada!”, revela a directora do conservatório de Braga, adiantando que também as horas atribuídas aos directores de turma “saem do crédito”.
Actualmente, ao conservatório de música bracarense foi atribuído uma bolsa de hora que contempla apenas horas para os directores de turma do 5.º ao 12.º ano.

“Precisámos de renovar a questão de segurança do Conservatório”

É uma das preocupações da direcção do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian. Uma preocupação que não é nova, mas que está a inquietar os responsáveis, mesmo após a resolução de questões pontuais nesta área. “Precisamos de renovar a questão de segurança do conservatório, no sentido de uma auto-protecção de quem frequenta a escola”, diz a directora do conservatório, apontando como exemplo a sinalética, as portas de corta fogo ou a colocação de extintores.

“Há alguns anos foi feito o essencial mas, entretanto, a lei também mudou. Neste momento a escola precisa de continuar um trabalho que ficou limitado. Mas isso custa muito dinheiro. Temos de dar o passo seguinte”, aponta Ana Maria Ferreira. Esse passo, prossegue a directora, passa, entre outros pontos, por colocar uma mangueira no auditório ou mesmo resolver o acesso dos carros dos bombeiros à escola, uma questão muito pertinente que a direcção quer resolver.

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