Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora-a-Branca

Joaquim Gomes ·

Os dois primeiros feriados que se assinalam neste mês de Dezembro, em Portugal, estão inteiramente ligados entre si - o primeiro feriado, no dia 1 de Dezembro, correspondente à ‘Res-tauração da Independência’, e o dia 8 de Dezembro, correspondente a ‘Nossa Senhora da Ima-culada Conceição’.
Se o primeiro feriado passa, na actualidade, quase despercebido aos portugueses, já o segundo, o da ‘Nossa Senhora da Concei-ção’, o país embeleza-se para o acolher.

Vejamos que o primeiro dia de Dezembro, corresponde à Restauração da Independência, em 1640, deu origem a uma nova dinastia, a Dinastia de Bragança, cujo primeiro rei foi D. João IV. Mas, atendendo à situação que o país atravessava na época, resultante de 60 anos de domínio espanhol, o rei D. João IV teve que enfrentar vários desafios, quer políticos, quer económicos, quer sociais.

Ora, perante uma situação tão difícil e complicada que se vivia no nosso país, o rei D. João IV teve um gesto que marcaria a história de Portugal, até aos nossos dias: acabou por abdicar do símbolo máximo da Monarquia, a Coroa, a favor de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

A partir de 1646, o dia 8 de Dezembro passou a ser celebrado em Portugal como o dia de ‘Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal’, através de deliberação datada de 25 de Março desse ano. Dessa deliberação, ficou escrito que nenhum habitante de Portugal poderia contrariar esta promessa, sob pena de ser expulso do país. Do mesmo modo, todo o monarca, que se seguiu a D. João IV, tinha a obrigação de prestar juramento a Nossa Senhora da Conceição, sob pena de lhe ser lançada uma “maldição”.

Para certificar esta decisão, foram entregues cópias desta deliberação na Santa Sé, em Roma, no Cartório da Casa de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, e ainda na Torre do Tombo.
A partir de D. João IV, todos os monarcas portugueses deixaram de usar a coroa do reino de Portugal. Na própria cerimónia de aclamação, a que os diferentes reis estavam sujeitos, a coroa monárquica não era colocada na cabeça do rei, mas sim a seu lado, como sinal de respeito e gratidão que o país e o próprio monarca deviam a Nossa Senhora da Conceição.

Uma vez que o tema de hoje o proporciona, e já que várias pessoas me colocaram a questão acerca do significado de ‘Nossa Senhora-a-Branca’, cujo largo que lhe dá o nome é muito conhecido em Braga, aproveito este momento para, na medida do possível, esclarecer esse significado.

Não se sabe ao certo o ano em que a igreja, situada no ‘Largo Senhora-a-Branca’, foi construída. Sabe-se, no entanto, que a invocação original foi a de ‘Nossa Senhora das Neves’.
No início do século XIV (1306), o arcebispo de Braga D. João de Brito, resolveu fazer um legado a ‘Nossa Senhora das Neves’, cuja importância em Braga era unanimemente reconhecida por todos. Segundo Azevedo Coutinho, em ‘Guia do Viajante de Braga’ (1905), “Era antigamente feriado n’esta cidade o dia de Nossa Senhora das Neves, e na Sé Primaz fazia-se-lhe uma solemne festividade”.
Já nos inícios do século XVI, o arcebispo D. Diogo de Sousa ordenou um conjunto de obras de melhoramento e alargamento da antiga capela em honra de ‘Nossa Senhora das Neves’. As obras ordenadas por esse arcebispo resultaram num edifício muito próximo daquele que é hoje a igreja de ‘Nossa Senhora-a-Branca’.
Nas ‘Memórias Paroquiais de 1758’, (Prof. José Viriato Cape-la), refere-se que existe em S. Victor a “capella da Sr.ª Branca com igreja grande e torre muito levantada, em a qual está situada a venerável irmandade dos clérigos desta cidade…”.
Como é natural, nessa igreja predominava a cor branca, condizente com as vestes de Nossa Senhora das Neves, que eram predominantemente brancas. Ora, e ainda segundo Azevedo Coutinho, “a imagem da Virgem com hábitos brancos” era comentada pela população braca-rense, ao ponto de ficar enraizada nos hábitos dos bracarenses como a igreja de ‘Nossa Senhora-a-Branca’. Associada à igreja ficou também o seu largo, co-nhecido, como se sabe, por ‘Largo Senhora-a-Branca’.

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