Vale a pena viver em Arcos de Valdevez

Alto Minho, Entrevistas

autor

José Paulo Silva

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João Esteves, reeleito presidente da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez, defende o reforço de fundos para os concelhos de baixa densidade, com a anunciada reprogramação do quadro comunitário Portugal 2020. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, o autarca destaca as políticas municipais de atracção de empresas e pessoas a este concelho do Alto Minho. Projectos como a Oficina de Criatividade e Inovação Padre Himalaia e o Centro Interpretativo do Barroco avançam neste mandato autárquico.

P - Como foram os primeiros quatro anos como presidente da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez?
R - Gostei da experiência. Acho que criámos uma boa relação com a população. As pessoas deram-nos, novamente, o seu voto de confiança.

P - Esteve, anteriormente, 16 anos como vereador. Isso deu-lhe segurança para o exercício da presidência?
R - Sim. Permitiu-me ter uma abordagem muito mais clara daquilo que é uma Câmara, permitiu-me ter determinada desenvoltura relativamente a certos assuntos. Não fui o verdadeiro caloiro.

P - Confrontou-se com muitas dificuldades nesses quatro anos?
R - Algumas. Aquilo que mais impede um autarca de fazer coisas são as disponibilidades financeiras. Por outro lado, as autarquias são grandes produtoras de burocracia, mas também são vítimas dessa mesma burocracia na relação com a administração central. No último mandato, relativamente ao quadro comunitário de apoio, passámos muito tempo sem aproveitamento das verbas.

P - E agora, já conseguem esse aproveitamento?
R - Diria que estamos agora na fase de arranque do quadro comunitário. O Governo está a estudar a reformulação e nós queremos dizer que o que se passou até agora não é normal. A regeneração urbana não correu da melhor forma, é preciso reforçar o financiamento. Nós temos um encargo brutal com as redes de água, saneamento e vias de comunicação. É necessário também olhar para os equipamentos sociais.

P - A fase obreirista dos fundos comunitários não passou já?
R - Há sempre coisas por fazer. Não podemos é querer inventar uma terceira estrada quando já temos duas. Aconteceram algumas coisas dessas por parte da administração central. Por parte das câmaras há uma preocupação central pela manutenção daquilo que temos. Isso exige um investimento fortíssimo. Havia expectativa de financiamento à reabilitação dos pequenos centros urbanos. As verbas ficaram muito aquém do que era expectável.

P - Ainda vamos a tempo de reverter esse quadro?
R - Vamos muito a tempo. Estivemos três anos quase a zero. Criou-se a determinada altura a ideia de que está tudo feito, e não está.
P - Está confiante que Lisboa não vá continuar a absorver a fatia maior dos fundos comunitários?
R - Temos de atender a uma coisa: os fundos comunitários não vêm para Portugal por causa de Lisboa. Se só contasse Lisboa, não tínhamos fundos comunitários.

P - Na prática…
R - O que acontece é que há expedientes que levam a que se faça esse investimento em Lisboa. Espera-se que o Governo crie a coesão social do território. Se não fizer isso, estará a falhar. Aquilo que se diz é que verbas que estavam afectas a algumas zonas do país vão ser investidas em Lisboa. Ficaria surpreendido se, por exemplo, os autarcas do Partido Socialista também embalassem nesse filme. Temos na região o único Parque Nacional. Se o queremos manter, temos de fazer investimento.

P - Há quatro anos manifestava-se muito crítico em relação à forma como é gerido o Parque Nacional da Peneda-Gerês.
R - O grande salto de investimento que se deu foi por causa de um grande incêndio. Hoje já estamos a caminhar noutro sentido, mas temos de continuar. Repare-se que temos na área do Parque Nacional 18% da energia hídrica produzida em Portugal. Qual é o resultado disso para o território? A pegada ecológica do país reduz porque nós temos 75 mil hectares do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Há necessidade de fazer correcções, olhar para o território e fazer investimentos nas pessoas. Os municípios têm investido, o Governo tem também de investir.

P - Embora o Parque Nacional da Peneda-Gerês não tenha director, e numa altura em que o Governo decidiu deslocar a sede do Infarmed de Lisboa para o Porto, a sede do Parque poderia sair de Braga e ir para o seu território?
R - Do ponto de vista simbólico poderia ser interessante, desde que não nos obrigassem a ir a outro sítio para resolver os problemas. O que me move principalmente é que a gestão seja de maior proximidade, não só proximidade física mas também de partilha de problemas e soluções. Para as pessoas que vivem no Parque não chegam os selos de qualidade ambiental. Este território ambiental só existe porque há pessoas. Se não apoiamos as pessoas para que elas se fixem ou regressem a este território, qualquer dia um dos elementos do equilíbrio sustentável, o homem, desaparece.

P - Arcos de Valdevez é uma das portas do Parque. Tem-se alavancado muito o turismo à custa do Parque?
R - Sem dúvida.

P - E agora têm a aldeia de Sistelo.
R - Sim, e a ecovia do Vez. A classificação de Sistelo com uma das sete aldeias maravilhas de Portugal tem atraído muitas pessoas.

P - Vão ter um olhar especial sobre Sistelo?
R - Sobre Sistelo, sobre o Parque Nacional da Peneda-Gerês, sobre a sede do concelho, sobre a nossa programação cultural, sobre a ecovia que percorre todo o rio Vez. Temos mais de 300 quilómetros de trilhos, estamos a promover a recuperação de património como o Paço de Giela.

P - Este era um dos seus objectivos no início do anterior mandato.
R - O objectivo era inaugurá-lo em 2015, porque o Município comemorava os 500 anos do foral.

P - Surpreende-o o facto de, passado pouco tempo, o Paço de Giela se ter transformado num pólo de atracção muito forte de Arcos de Valdevez?
R - O que me surpreendeu mais foi a forma como todos nós assumimos a camisola de ‘Arcos de Valdevez, onde Portugal se fez’, com base no Paço de Giela. Esta força reforçou muito a identidade local.

P - Em que fase está o Centro Interpretativo do Barroco?
R - Está em obras. Trata-se da recuperação da Igreja do Espírito Santo, onde vamos criar um espaço interpretativo do Barroco num dos mais belos monumentos da época. Com recurso às novas tecnologias, vamos permitir que as pessoas façam um trajecto sobre o Barroco.

P - O projecto da Oficina da Criatividade e Inovação Padre Himalaia tem andado em passos lentos?
R - Foi aprovada há 15 dias a candidatura. O padre Himalaia, arcuense, foi um percursor do desenvolvimento sustentável. Por isso é que o centrámos na nossa lógica de desenvolvimento sustentável, de exploração dos recursos sem hipotecar o futuro.

P - O que vão fazer com essa candidatura aprovada?
R - A antiga Escola Secundária no centro de Arcos de Valdevez, está devoluta. Vamos recuperá-la e dinamizar o centro, dando o nosso contributo à regeneração urbana. Vamos trazer pessoas a Arcos de Valdevez para conhecer a figura do padre Himalaia a um centro de promoção da Ciência, porque o padre Himalaia era um cientista. Teremos um centro dedicado às energias renováveis, fazendo a ligação ao Parque Nacional da Peneda-Gerês. Não será um museu estático. Terá jogos de ciência, uma cúpula de projecção e um holograma do padre Himalaia.

P - A obra vai avançar quando?
R - Em Dezembro de 2018 comemoram-se os 150 anos do nascimento do padre Himalaia. Queremos iniciar a obra em 2018 e concluí-la em 2019. É um investimento superior a 1,5 milhões de euros.

P - Há uma candidatura de Arcos de Valdevez a local ‘dark sky’ para a observação de estrelas.
R - Foi adjudicado o projecto. Com a luz artificial, reduziu-se a nossa capacidade de observar o firmamento. Internacionalmente, há certificações de lugares onde a luminosidade artificial é muito baixa, que permitem olhar o firmamento. Trata-se de um projecto com objectivos científicos, mas também uma oportunidade de chamar turistas a Arcos de Valdevez e ao Parque Nacional da Peneda-Gerês, oferecendo-lhes um novo produto. Estamos em fase de estudos para a certificação internacional de um sítio.

P - O concelho de Arcos de Valdevez não tem apenas no Turismo a sua âncora. A indústria diversificada também o é.
R - Não estamos reféns de um só sector. A última empresa que se instalou é da área da cutelaria. Temos mecânica de precisão, gente ligada à aeronáutica com projectos de expansão, indústria automóvel…

P - O que leva uma empresa a escolher Arcos de Valdevez?
R - Várias coisas. Nos Arcos de Valdevez, as empresas estão isentas de derrama, as que estão nos parques empresariais podem beneficiar da isenção de taxas de licenciamento, os parques empresariais têm todas as infra-estruturas, incluindo fibra óptica à entrada do lote, a Câmara Municipal dispõe de ‘via verde’ para aceleração dos projectos de investimento e estamos num sítio de fácil acesso a portos e aeroportos.

P - Continua a haver oferta de lotes industriais por parte do Município?
R - Continuamos a fazer investimentos consideráveis. Posso anunciar que, até ao final do ano, a Câmara Municipal vai apresentar uma candidatura superior a um milhão de euros para a melhoria dos seus parques empresariais. Estamos a abrir uma nova área empresarial a Norte do concelho.

P - É possível manter o equilíbrio num concelho que aposta forte na captação de indústria e que tem grande parte do seu território no Parque Nacional da Peneda-Gerês e na Reserva da Biosfera?
R - Os nossos parques empresariais estão muito contidos. As fábricas não estão disseminadas pelo território, estão em zonas empresariais. Temos empresas de grande dimensão que não perturbam esse equilíbrio.

P - Gostava de ter um pólo universitário ou de investigação que fizesse a ligação entre o conhecimento e e as empresas?
R - Nós andamos sempre a tentar reforçar a nossa ligação ao meio universitário. Seria importante, apesar de estarmos perto da Universidade do Minho e do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Temos uma incubadora de empresa, a in.Cubo, que tem feito o seu caminho e que lidera um projecto de empreendedorismo em meio rural a nível da região Norte. Seria interessante que as universidades começassem a olhar para o território de Arcos de Valdevez. Estamos a tentar instalar em Arcos de Valdevez laboratórios de investigação ligados às engenharias.

P - Aponta a programação cultural como aposta forte da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez. Está satisfeito com os resultados?
R - Estou. O João Pedro Pais está este sábado nos Arcos de Valdevez e os bilhetes esgotaram em duas horas. Num grande centro urbano não pagam 10 euros para ver este artista. A Câmara apoia a exibição de cinema nos Arcos de Valdevez. As pessoas pagam 2, 5 euros. É fácil perceber quanto é que pagam num outro meio urbano.
Tivemos cá recentemente a Maria João e os Moonspell, temos uma das maiores bienais de arte do Alto Minho, a D’Artvez. Há dinâmica cultural em Arcos de Valdevez.

P - E o râguebi continua a ser uma bandeira de Arcos de Valdevez?
R - (risos) Juntamente com Estádio Nacional, temos o melhor estádio de râguebi do país. O râguebi significa muito do espírito de Arcos de Valdevez: marcar pela diferença e pela força de ganhar.

P - Era importante o Clube de Rugby de Arcos de Valdevez ser campeão nacional?
R - Era muito relevante.

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