As mulheres não mandam na Junta

Braga

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José Paulo Silva

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Em onze eleições autárquicas realizadas após a revolução de 25 de Abril de 1974, apenas quatro mulheres foram eleitas presidentes de Junta de Freguesia no concelho de Braga: Rosa Faria, Emília Barbosa, Palmira Maciel e Goreti Machado. No actual mandato, das 39 uniões e juntas de freguesia, apenas a União de Freguesia de Nogueira, Fraião e Lamaçães é governada por uma mulher: Goreti Machado, recentemente anunciada recandidata nas próximas eleições de 1 de Outubro.

A escassa presença feminina nas presidências das juntas de freguesia é uma realidade de norte a sul do país, mas a raridade com que, em Braga, as mulheres ascendem a estes cargos pode surpreender, se considerarmos que no concelho de Guimarães 10 das 48 uniões e juntas de freguesias têm liderança feminina ou que, em Barcelos, o município com maior número de autarquias de base (61), há seis ‘presidentas’ de juntas e uniões de freguesia. O concelho de Fafe tem cinco mulheres à frente de juntas ou uniões de freguesia num total de 25 destas autarquias, mais do que Vila Nova de Famalicão, onde apenas três mulheres foram eleitas em 2013 para este cargo, sendo que este concelho tem 34 uniões e juntas de freguesia.

Os concelhos de Celorico de Basto, Esposende e Vieira do Minho não têm mulheres presidentes nas freguesias e, tal como em Braga, nos concelhos de Cabeceiras de Basto, Vila Verde e Vizela, há apenas uma mulher a liderar uma autarquia de base.
Em 1976 realizaram-se as primeiras eleições autárquicas livres e democráticas, na sequência da revolução do 25 de Abril de 1974. Na pequena localidade de Penso S.Vicente, os eleitores elegeram em plenário Rosa Faria, a professora primária da terra, para a presidência da nova Junta de Freguesia.

“Uma senhora de Braga chegou a dizer que esta era uma freguesia tão atrasada que até tinha uma mulher como presidente de Junta”, afirma agora, com alguma boa disposição, a ex-autarca que liderou a pequena autarquia da Veiga de Penso durante mais de uma década, sempre como independente, embora os convites para concorrer sob sigla partidária se tivessem sucedido de vários partidos, do PCP ao CDS, passando pelo PSD e PS.

“Naquela altura uma mulher não era bem aceite”, reconhece Rosa Faria, que atribui à vitória em várias eleições autárquicas ao reconhecimento como professora numa zona rural do concelho de Braga onde, nos meados da década de 70 do século XX, faltava praticamente tudo.
“O automóvel só chegava até à minha porta mas não deixei nenhum caminho por pavimentar”, assume Rosa Faria, apontando a inexistência de iluminação pública como uma das carências a que teve de fazer face no início do seu primeiro mandato autárquico.

Em tempos em que os orçamentos das autarquias locais davam para quase nada, Rosa Faria promoveu uma colecta entre a população de Penso S. Vicente que rendeu 41 950 escudos para levar à luz pública aos caminhos da freguesia.
“Na junta era presidente, secretária e tesoureira”, admite a primeira presidente de Junta do concelho de Braga, que se orgulha de ter sido Penso S.Vicente a primeira freguesia da Veiga de Penso a ter jardim de infância e de ter conseguido instalar na sua terra uma Extensão de Saúde.
“Agora acabaram com a escola e o posto médico. Vejo isso com muita tristeza. Fizemos tudo isso para quê?”, lamenta Rosa Faria, que entende que “os presidentes de Junta devem ser do lugar para conhecerem as pessoas e os seus problemas”.
Pela experiência vivida em mais de uma década como presidente da Junta de Freguesia, Rosa Faria aconselha as mulheres “a enveredar pela vida política”, mais não seja para contrariar a ideia de que “as mulheres não fazem este trabalho tão bem como os homens”.

Foi o que fez Palmira Maciel, actual deputada do Partido Socialista, há cerca de duas décadas. Depois de um primeiro mandato como secretária da Assembleia de Freguesia de Lamaçães, cumpriu três outros como secretária da Junta de Freguesia, antes de ser eleita presidente em 1997. Voltaria a ganhar as eleições autárquicas de Dezembro de 2001, mas já não assumiu o cargo, optando pela função de vereadora na Câmara Municipal de Braga.
“Dou sempre força às mulheres para se candidatarem a cargos políticos. Parte muitas vezes de nós não desistir”, diz a deputada, sugerindo que, na política como no assumir de responsabilidades noutras áreas, “as mulheres não podem estar à espera de serem convidadas”.
A rectaguarda familiar e a experiência que acumulou em estruturas cívicas e associativas ajudaram Palmira Maciel, professora de profissão, a cumprir uma já longa carreira na política.
Tentando contrariar a escassa presença de mulheres na liderança nas juntas de freguesia, Palmira Maciel confessa ter apontado o nome de outras companheiras de partido como cabeças de lista à Junta de Freguesia de Lamacães. Sem grandes resultados.
Com a sua saída para a vereação bracarense, a Junta de Freguesia de Lamaçães voltou a ter liderança masculina até 2013, ano em que a autarquia é integrada na União de Freguesias de Nogueira, Fraião e Lamaçães.

Esta autarquia é a única no concelho de Braga presidida por uma mulher, Goreti Machado, que leva já um percurso de duas décadas como autarca, num primeiro mandato como secretária da Junta de Freguesia de Fraião, a que se seguiram mais três mandatos consecutivos como presidente, o último dos quais interrompido para exercer funções de deputada. Seguiu-se ainda um mandato como presidente da Assembleia de Freguesia, antes de vencer, em 2013, as eleições para a então criada União de Freguesias de Nogueira, Fraião e Lamaçães.

“Por mais que o digam, a igualdade de género não existe”, afirma com convicção esta autarca e militante do PSD, declarando que uma mulher só vinga na vida política “se tiver uma grande capacidade de trabalho e de liderança”.
“A política continua a ser feita para o homem”, adianta Goreti Machado, explicando que o facto de tudo o que é reunião ser agendado para a noite e de muitas das decisões e escolhas partidárias decisivas serem tomadas de madrugada não são fruto do acaso, antes uma prática que dificulta a vida de quem quer exercer cargos públicos continuando a ser mãe, esposa, filha ou irmã.
“Não me agrada ser a única mulher presidente de Junta de Freguesia no concelho de Braga”, declara Goreti Machado, segura de que a acção autárquica seria mais eficaz com mais protagonistas do sexo feminino.
“Em igualdade de circunstâncias a mulher consegue ultrapassar o homem”, afirma sem rodeios a mulher que fundou a Associação de Solidariedade Social de Fraião e que tem vindo a ocupar cargos dirigentes noutras instituições de cariz solidário.

Maria Emília Barbosa foi presidente de Junta de Freguesia por “impulso”. Em 1989, preparavam os militantes e simpatizantes do Partido Socialista de Escudeiros uma candidatura à autarquia local quando a jovem engenheira civil, então com 28 anos de idade, decide ultrapassar o impasse criado com o facto de surgirem vários candidatos a cabeça de lista. “Como toda a gente queria ser presidente de Junta, disse que ficava eu”. Os homens “ficaram calados”, aceitando assim o nome de Emília Barbosa.
A candidatura socialista ganhou essas eleições autárquicas por escassos votos, com a jovem presidente de Junta de Freguesia a repartir com eleitos do PSD e do CDU o executivo.
“Foi uma experiência muito interessante”, avalia esta engenheira da Câmara Municipal de Braga, adiantando que o impulso que tomou há quase 20 anos foi justificado em nome de uma terra em que “não havia absolutamente nada”.
A “lufada de ar fresco” que constitui a eleição de Maria Emília Barbosa num concelho que até então só tinha conhecido uma presidente de Junta, na vizinha freguesia de Penso S.Vicente, motivou-a a continuar e a cumprir sucessivos mandatos com maioria absoluta até 2009. Sai então por opção própria, depois de ter conseguido ultrapassar umas eleições intercalares, em 2002, altura em que passa de uma maioria absoluta de 4-3 na Assembleia de Freguesia para uma “absolutíssima” de 7-1.

Sobre as razões que afastam as mulheres de cargos políticos executivos, Emília Barbosa diz não ter uma explicação convincente. Se “as questões familiares pesam”, a ex-autarca não sabe dizer, tanto mais que, quando se candidatou pela primeira vez era solteira.
Do que a mulher que cumpriu cinco mandatos consecutivos como presidente da Junta de Freguesia está convicta é que “as mulheres são diferentes no exercício das causas públicas”, porque são “mais sensíveis e emotivas”.
Do tempo em que foi presidente da Junta de Freguesia de Escudeiros, a “engenheira Emília” releva muitos caminhos pavimentados e outras obras físicas, mas também iniciativas pioneiras como passeios de reformados e festas de Natal.

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