Lídia Dias: “São necessários outros equipamentos culturais em Braga”

Entrevistas

autor

José Paulo Silva

contactar num. de artigos 2143

Lídia Dias, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Braga, considera que a Feira do Livro de Braga está a criar bases para a internacionalização e que deve migrar para o centro histórico.
Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, a autarca reafirma a necessidade de criar novos espaços culturais na cidade, nomeadamente uma galeria de artes plásticas.

P - O que é que o público pode esperar de novo na 26ª edição da Feira do Livro de Braga?
R - Estamos a sair daquelas que foram as monumentais Festas de S. João e a nossa Avenida Central acolhe já a Feira do Livro de Braga, uma parceria que o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Braga tem com a InvestBraga. Creio que estamos a viver, mais do que uma Feira do Livro, um momento cultural. Nos próximos dias não se falará apenas da literatura e do livro. São 17 dias de muita coisa em termos culturais.

P - Há poucos anos, questionava-se a viabilidade da Feira do Livro de Braga. A presença do ministro da Cultura na inauguração teve algum significado no sentido do reconhecimento do certame?
R - Tudo aquilo que façamos no sentido de uma programação cultural diversificada para o concelho de Braga deve ser avaliado mas é feito em prol da comunidade. Necessitamos sempre de ter uma programação cultural eclética que chegue a todos, momentos que ajudem a criar um público mais crítico, mais atento e mais sensível aquilo que acontece no mundo.

P - A Feira do Livro de Braga está consolidada?
R - A visão que eu tenho é que a Feira do Livro de Braga viveu tempos áureos quando conseguiu trazer nomes maiores da literatura como José Saramago e outros, que têm de ser visto no contexto. Entretanto o mercado do livro mudou. A Feira do Livro não pode hoje estar remetida ao stand estático de venda do livro, tem de ter associados outro tipo de atractivos.

P - O programa deste ano é mais diversificado?
R - Fomos afinando ao longo destes quatro últimos anos. Para além da presença dos nossos livreiros, alguns de Braga que desenvolvem um trabalho meritório durante todo o ano, temos de ter um programa cultural que cative, temos de ter capacidade de abertura para captar diferentes públicos.

P - Há a pretensão de internacionalizar a Feira do Livro de Braga. Há condições para termos nomes da literatura mundial em Braga, em 2018?
R - Temos de estabilizar o modelo da Feira do Livro de Braga. Este ano, o objectivo da programação foi encontrar um conjunto de actividades que fossem de encontro a diferentes estratos da comunidade, que conseguisse vincular as pessoas. Muitas vezes, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva temos casa cheia com os escritores da nossa terra, que têm uma capacidade de mobilização muito grande, e outras vezes temos nomes conhecidos, nacional e internacionalmente, e as pessoas não aparecem. Este é um trabalho de enamoramento constante. É preciso este trabalho de sapa. A programação da Feira do Livro de Braga deste ano dá margem para crescimento e para conseguirmos trazer outras figuras do panorama nacional e internacional. Sobretudo o que queremos é que este crescimento seja sustentado.

P - Caso seja vereadora da Cultura em 2018, não arriscará dar esse passo da internacionalização?
P - Procurarei sempre encontrar uma programação mais arrojada, o que implica ter orçamentos maiores.

P - Mas se Braga quer ser Capital Europeia da Cultura em 2027 vai ter de investir?
R - Obviamente. Nós já investimos. No meu entender, e num entendimento generalizado - pese embora as críticas que podem ser mais ou menos reactivas - a programação da Feira do Livro de Braga e de outros eventos tem a preocupação de formar as pessoas.

P - Esta semana lançaram o debate sobre uma possível mudança de local da Feira do Livro de Braga?
R - O nosso centro histórico terá condições para acolher a nossa Feira do Livro e todas as actividades que são feitas em paralelo.

P - A Avenida Central coloca algum problema de comodidade para expositores e público?
R - Sobretudo o calor de que alguns expositores se queixam. Por isso fizemos algumas alterações de horário. Não vou desistir da ideia de sair um pouco da Avenida Central. A mudança do Parque de Exposições de Braga para a Avenida Central teve a concordância de todas as forças políticas. Já se avançou com a ideia do Parque da Ponte, mas penso que ainda não chegámos a esse patamar.

P -  Este ano há uma maior associação da Feira do Livro de Braga ao Mimarte - Festival de Teatro de Braga. Não há com isso um apagamento do Mimarte na programação mais alargada da Feira do Livro de Braga?
R - Não. Trata-se só de uma questão de comunicação. Quisemos apenas aproveitar o traço inconfundível que o ilustrador Pedro Vieira, da revista Ler, que capta a atenção das pessoas. Creio que é um casamento natural. Não subtrai, soma. O Mimarte é, essencialmente, feito em espaço público. Este ano temos duas peças no Theatro Circo. Penso que é pelas intervenções que fazemos em espaço público que chegamos ao cidadão comum, aquele que não entra no Theatro Circo, que não passa a porta do GNRation, que não vai ao auditório Vita ou à Casa do Professor. Ainda temos um trabalho vasto por fazer.

P - O início deste mandato autárquico foi bastante atribulado em termos da gestão financeira do Theatro Circo. A sala e a programação conseguiram captar um número crescente de expectadores em várias expressões artísticas. Este foi um projecto que se consolidou neste mandato?
R - O Theatro Circo é um motivo muito grande de orgulho para nós.

P - Mas, como diz, ainda há muitos bracarenses que têm medo de lá entrar...
R - Braga sente hoje uma pujança cultural e associativa muito grande. A cidade quer afirmar-se como cidade criativa em media arts, quer as solenidades da Semana Santa reconhecidas como património imaterial, quer valorizar os órgãos históricos... Temos um manancial de tanto e somos uma cidade carregada de história mas sob um manto que foi destapado há quatro anos. Daí que tenham surgido novos movimentos das universidades, do movimento associativo, da própria Câmara Municipal, da Arquidiocese, da Santa Casa da Misericórdia de Braga com o projecto do Palácio do Raio de resultados surpreendentes.

P - Como lê as críticas de que a Câmara Municipal de Braga não investe na Cultura? De facto, nas estatísticas Braga surge como uma das autarquias que menos investe nesta área?
R - Isso lê-se sob várias perspectivas. De 2016 estamos a falar de quase quatro milhões de euros dedicados à Cultura, contando com a Fundação Bracara Augusta, o GNRation, o Theatro Circo... O que não está plasmado é investimento em infra-estruturas.

P - Não faz ainda falta investimento físico na área da Cultura?
R - Sempre disse que eram necessários outros equipamentos culturais. Lembro- -me de usar a expressão: ‘Nem tudo cabe no Theatro Circo’.

P - Têm razão aqueles que dizem que nestes quatro anos pouco se acrescentou em termos materiais à Cultura?
R - Há uma rede grande de auditórios na cidade. Podem é não ter as condições do Theatro Circo.

P - Pode-se resolver esse problema com o ‘novo’ Parque de Exposições de Braga’?
R - O ‘novo’ Parque de Exposições será um novo atractivo para a cidade de Braga. Tanto o auditório como a grande nave terão condições para acolher um conjunto de novos espectáculos. E terá mais um espaço de galeria de que a cidade de Braga necessita.

P - Essa foi uma das lacunas que identificou logo no início deste mandato autárquico. Faz mesmo falta? Guimarães teve algumas dificuldades em gerir um espaço idêntico, criado no âmbito da Capital Europeia da Cultura.
R -É importante para dar continuidade a uma parceria que temos com a Fundação de Serralves. Nas reflexões que começámos a fazer no âmbito da candidatura a Capital Europeia da Cultura várias hipóteses têm sido colocadas em cima da mesa. Nós somos muito solicitados para acolher exposições e a parceria com a Fundação de Serralves tem de se tornar algo visível para o cidadão comum. Temos que jogar com a sustentabilidade dos novos equipamentos, que poderá passar não tanto pela construção de edifícios de raiz mas pela reconversão de outros.

P - Nos últimos anos não se perdeu a oportunidade de investir no Museu da Imagem? Há notícias de degradação do edifício.
R - O tempo das vacas gordas não foi em 2013. Os problemas infraestruturais do Museu da Imagem estão para trás. Dos problemas herdados, o Museu da Imagem é um deles. Aquela torre medieval não é o melhor espaço para acolher e dar condições de tratamento a um vasto espólio fotográfico que temos. Daí a nossa intenção de fazer uma intervenção na torre que já está a ser programada.
Dou também o caso do Arquivo Municipal que, quando cá cheguei, já tinha dificuldade em acolher as remessas que a Câmara produz. A solução tem de passar por um edifício que esteja em conformidade.

P - Há alguma solução em perspectiva?
R - Estamos a estudar a Escola do Bairro Nogueira da Silva, que foi desactivada. Duas salas serão adstritas ao Museu da Imagem.

P - Esse não será um projecto para o resta do mandato?
R - O edifício está a ser avaliado em termos de carga pela Universidade do Minho. Mesmo que não haja o aval para avançarmos com a parte do Arquivo Municipal, o Museu da Imagem tem de ter melhores condições para aí se trabalhar.

P - Museu da Imagem que acaba de ver nomeado um novo director. O que é que a Câmara pretende fazer do Museu que tem instalações muito exíguas?
R - Temos acervos muito importantes de que nos orgulhamos, que são parte da História de Braga. São esses que estarão na base de um site que não queremos pôr acessível. Obviamente queremos continuar a trabalhar no campo da fotografia mais contemporânea e explorar outras dimensões. O Museu da Imagem não tem um director, tem um técnico superior, que tem feito um diagnóstico muito claro das mais valias de um espaço que não sendo privilegiado para eventos e momentos culturais de dimensão, não deixa de ser um espaço que está num local privilegiado, junto à porta de entrada na cidade (n.r. Arco da Porta Nova), que pode ser casa de exposições permanentes ou de maior duração de tempo.

P - Os Encontros da Imagem são um activo da cidade ao qual a Câmara Municipal de Braga deu sempre apoio. Recentemente, houve situações mais complicadas a nível da sua organização que chegaram a pôr em causa a sua continuidade. Como perspectiva o futuro deste evento com um história já longa?
R - Há dias reuni com os membros da actual direcção dos Encontros da Imagem. O que nós gostaríamos que nunca se perdesse é a identidade que existe entre Braga e os Encontros. Houve um conjunto de situações que colocaram alguns pontos de interrogação. A Câmara trabalhará com quem está legitimamente à frente dos Encontros da Imagem e dará todo o apoio necessário. Desde que chegámos, o apoio financeiro foi sempre crescendo. Este ano vamos atribuir 30 mil euros.

P - A organização também perdeu o apoio do Estado central...
R - Perderam todo o apoio. A Câmara não podia deixar de apoiar os Encontros da Imagem com a premissa de que a cidade de Braga compreender o evento. Os Encontros da Imagem não têm de ser um corpo quase intrusivo que chega à cidade durante mês e meio. Este meu pedido vai na linha da própria direcção da associação dos Encontros da Imagem. É este o esforço que querem fazer na galeria que têm na estação ferroviária, com um espaço mais aberto e uma programação mais activa.

P - A Câmara Municipal de Braga assumiu a intenção de candidatar a cidade a Capital Europeia da Cultura em 2027 e já tem a concorrência de outras cidades. Quais são os grandes argumentos de Braga?
R - Braga é uma cidade carregada de história que foi tratando bem algum do seu património. Temos um conjunto de movimentos associativos, universitários e científicos que dão passos diferenciadores na nossa realidade. A Universidade do Minho é uma referência, o Instituto Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) olha cada vez mais para a cidade e olha para a Cultura numa parceria com o GNRation, temos movimentos culturais muito interessantes...

P - O facto de Braga ser vizinha de Guimarães, que foi Capital Europeia da Cultura em 2012, pode funcionar a desfavor de Braga?
R - Isso pode ser levado em conta, mas temos de perceber as nossas valias e o que podemos acrescentar, porque a Capital Europeia da Cultura tem associado um envelope financeiro interessante. É fazer ver ao Governo que temos mais que motivos para sermos Capital Europeia da Cultura, que somos uma cidade que olha para a tradição e para a inovação.

P - O reconhecimento como Cidade Criativa da UNESCO pode ser um degrau para chegar a Capital Europeia da Cultura?
R - Sobre nós estão muitas expectativas. O nosso caminho é mostrar uma Capital Europeia da Cultura que nos diferencie de todas as outras.

P - Acredita que Braga tem boas hipóteses de ser declarada Cidade Criativada UNESCO?
R - Estou certa que chegaremos a esse objectivo. A nossa candidatura tem muita substância. Sairemos certamente como uma candidatura ganhadora.

P - O que está a ser feito no âmbito da candidatura a Capital Europeia da Cultura?
R - Estamos a agilizar aquele que será o nosso plano de acção. Prevemos para 2018 um conjunto de intervenções na vida pública para chamar contributos para uma candidatura que nos diferencie.

P - É um projecto consensual na sociedade bracarense?
R - É uma iniciativa que aporta mais valias ao nosso território, não são rendas que teremos de pagar a 30 anos, não é algo que vá cortar o investimento e a ter que fazer uma opção entre o que é básico. São estas boas heranças que eu não me importo de deixar enquanto responsável autárquica.

P - Mas também recebeu boas heranças?
R - O Mimarte, a Braga Romana, a Feira do Livro são boas heranças. As coisas têm de ser vistas no contexto em que foram criadas. De lá para cá teve de haver um crescimento.

P - Enquanto vereadora da Cultura na Câmara Municipal de Braga, não corre o risco de ser criticada por não ter acrescentado muito de novo nesta área?
R - Tomei a liberdade de trazer algo que foi explorado no meu gabinete: a comparação entre aquilo que encontrámos em 2013 e aquilo que encontrámos em 2016.

P - O que nos mostra de 2016 é uma página A4 mais preenchida?
R - São heranças muito importantes para o território como as submissões das Solenidades da Semana Santa e das Festas de S. João ao inventário do Património Imaterial.

P - A grande parte dos projectos da actual maioria são imateriais?
R - São também projectos imateriais. Houve necessidade de dar vida a muitas coisas. Estou a falar da ‘Braga Romana’, das ‘Noites de Verão’, da revista ‘Bracara Augusta’ que tinha um atraso enorme, o termo-nos associado a Vila Nova de Famalicão e Guimarães com o ‘Festival Voudeville’, o ‘Festival de Órgão’, o ‘Braga em Risco’, o programa ‘À Descoberta de Braga’, que é de uma grande consistência e abrangência, o ‘Braga Vai ao Museu’, o ‘Braga Barroca’, a alteração do Prémio Maria Ondina. São coisas muito concretas que têm a ver com a vida das pessoas.

P -Na linguagem da oposição isso são ‘festas e festinhas’. Como reage a essa crítica?
R - Olhe, quando lhe falo deste conjunto de actividades, falo de pessoas que têm nome e falo de instituições. Falo do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, falo da Companhia da Música, falo da Santa Casa da Misericórdia de Braga, falo da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, falo da Casa do Professor...

P - Está a dizer que essas instituições não se revêem nesse tipo de crítica?
R - Isso foi algo que foi erradamente colado, porque eu vejo essas pessoas nas ‘festas e festinhas’. Se são assim de tão fraca qualidade, tenho pena mas não é esse o retorno de quem está e de quem participa.

P - A três meses das próximas eleições autárquicas, o que é que não conseguiu concretizar na área da Cultura?
R - Para este ano queríamos que tivesse sido dado uma nota de maior ênfase ao jazz. Não o vamos fazer nos moldes que queríamos, mas teremos programação desta área na Feira do Livro de Braga com excelentes intérpretes.

P - E falta a tal galeria de arte.
R -Falta, falta. O nosso caminho não está feito.

P - Quando é que poderemos ter uma decisão quanto à candidatura a Capital Europeia da Cultura?
R - Obviamente que vamos esperar que o panorama autárquico estabilize, embora estejamos já a fazer contactos com pessoas que queremos a trabalhar connosco. Em Janeiro de 2018 arrancaremos em força, já com um plano muito estruturado. Quanto à candidatura a Cidade Criativa Media Arts, esperemos que, até ao final de 2017, tenhamos uma decisão por parte da UNESCO.

P - Não sabemos se será vereadora da Cultura no próximo mandato autárquico, mas da maneira como fala será candidata a tal?
R - Isso, obviamente, não está nas minhas mãos. É uma decisão da vontade política dos partidos que fazem parte do executivo municipal e do seu desenho final. O que estarei, como sempre estive, é com o mesmo espírito de missão, tendo a Câmara Municipal de Braga como um lugar onde sirvo com a certeza de que tento fazer o meu melhor todos os dias.

vote este artigo


 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos das categorias relacionadas

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia