Carlos Ribas: “A estratégia da Bosch em Braga e para Portugal é Investigação e Desenvolvimento”

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autor

Rui Alberto Sequeira

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Carlos Ribas, Administrador da Bosch em Portugal e da fábrica de Braga em entrevista à rádio Antena Minho e ao Correio do Minho, aponta as prioridades para a aposta na inovação e no crescimento. As parcerias com as universidades e em especial com a do Minho contribuem para afirmação do grupo no desenvolvimento e na investigação tecnológica.

P - A Bosch está em franca expansão em Portugal e em especial em Braga, com investimentos feitos e outros anunciados de muitos milhões de euros. A que se deve este reforço da presença no nosso país?
R - Efectivamente estamos a atravessar um momento de forte expansão não apenas em Braga, mas também em Ovar, em Lisboa e em certa medida em Aveiro. Em Braga estamos a fazer uma forte aposta na área do desenvolvimento juntamente com as parcerias que temos com entidades na área do conhecimento, como a Universidade do Minho (UMinho), com quem desenvolvemos muitos projetos. São projectos desde a inovação, o desenvolvimento de produtos, passando pela área do desenvolvimento de fornecedores, por um Laboratório de Manufactura Aditiva - que temos a funcionar dentro da UMinho. Tudo isto é sem dúvida muito importante, mas a única razão que leva a Bosch a apostar em Portugal é porque acredita cada vez mais na capacidade e na competência dos portugueses, no empenho, na dedicação. Portugal é hoje para a Bosch um parceiro estratégico para o crescimento no futuro.

P - Recentemente a Bosch fez um ‘roadshow’ junto das universidades no sentido de captar mão-de-obra altamente qualificada. Essa procura é acompanhada pela identificação de quadros intermédios qualificados?
R - A Bosch na sua totalidade, recrutou cerca de mil colaboradores no ano passado. Desses, 700 foram para fábrica de Braga e destes pouco mais de duas centenas eram licenciados (essencialmente engenheiros). A estratégia que nós estamos a apontar para Braga e para o país é apostar fortemente na Investigação e Desenvolvimento (I&D). Tendo nós projectos na área do conhecimento vai ser necessário produzir e por aí passa a estratégia para fazer crescer a nossa organização em Portugal. Ter desenvolvimento, ter desenvolvimento do produto e depois produzir em Portugal. É isso que nos tem feito crescer nos últimos anos.

P - Definiu como ambição ter no Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Bosch em Braga, 1000 colaboradores. É uma meta alcançável?
R - Gostaria imenso de ter 1000 colaboradores em Braga, no Centro de Desenvolvimento, mas não foram exatamente nesse sentido as minhas afirmações. Disse que gostaria de ter 1000 colaboradores a fazer desenvolvimento em Portugal. Se fossem mil em Braga e muitos mais nas restantes unidades da Bosch no país, era ótimo.

P - As expectativas e as projecções que a própria Bosch vai fazendo para a sua afirmação em Portugal, parecem ser previsões conservadoras, uma vez que na prática vão sendo ultrapassadas.
R - Eu penso que temos todas as condições, temos todo o potencial para fazer desenvolvimento em grande escala. Está provado que os nossos licenciados, os nossos colaboradores não são menos capazes, menos competentes, nem menos empenhados comparativamente com aquilo que se observa no resto do mundo. Digo isto em diversos fóruns. Vivi muitos anos fora de Portugal, trabalhei e geri fábricas fora do país e conheço bem a realidade em diferentes partes do mundo. Há conhecimento suficiente para que a Bosch continue a apostar em Portugal. Não tenho duvida alguma e felizmente é isso que tem vindo a acontecer.

P - O investimento da Bosch em Portugal passa pelo crivo da Casa-Mãe na Alemanha.
R - Todos os investimentos feitos em Portugal são validados pela Sede.

P- Pressupõem uma negociação e uma apresentação de argumentos da parte da Bosch Portugal.
R - Estamos inseridos num mercado extremamente competitivo. Nós temos tido algumas vantagens, temos conseguido mostrar competências e algumas valências a preços competitivos relativamente ás restantes localidades. Neste momento estamos em áreas de desenvolvimento que são quase únicas; e é também uma vantagem para nós, que as divisões que connosco trabalham, apostarem na nossa fábrica de Braga e nas parcerias que temos com as universidades, para fazerem os projectos em Portugal. Isto não acontece por acaso. No passado recente com os produtos que nós desenvolvemos em Braga e em outras unidades como Aveiro, que também tem um centro de desenvolvimento muito forte, ficaram convencidos que são os locais certos para fazer desenvolvimento. No ano passado Aveiro teve o prémio do melhor esquentador do mundo. Como representante da Bosch em Portugal queria dizer que Aveiro é o centro mundial de soluções inteligentes de água quente para o mundo, mas apenas 40% do desenvolvimento que se faz em Aveiro é para ser produzido em Portugal. Os outros 60% são produzidos na China, no México, em Espanha.

P - Há claramente uma componente de exportação do desenvolvimento.
R - Um dos grandes objectivos é que a criação e o conhecimento sejam nossos. É muito importante produzir, ocupamos muitas pessoas, muita mão de obra; se desenvolvermos e produzirmos no país, óptimo. A estratégia principal, minha e da equipa é desenvolver para produzir dentro das nossas fronteiras. Aquilo que não for produzido em Portugal, não tem problema, desenvolvemos, mas o conhecimento continua a ser nosso.

P - A estratégia da produção do conhecimento e do desenvolvimento e da ligação com as universidades é o aspecto diferenciador da Bosch Portugal comparativamente com outras fábricas em outras partes do mundo?
R - A Bosch tem esta cultura de fazer parcerias com os centros de conhecimento, neste caso com as universidades, em vários países do mundo. Aqui em Braga trabalhamos com a UMinho, a nossa unidade em Aveiro - Termotecnologia com à Universidade de Aveiro e em relação á nossa fábrica em Ovar estamos agora a começar a trabalhar com a Universidade do Porto.

P - Em Braga desenvolvem principalmente competências ao nível de soluções muito avançadas ao nível da navegação automóvel.
R - Nós em Braga temos a parte dos painéis de instrumentos digitais para automóveis. É um ‘display’ que dá toda a informação que o condutor necessita. Podemos também converter em ‘display’ para ver filmes quando não se está a conduzir (riso), para sistema de navegação. Pode servir de telefone e estarmos a ver a pessoa que está do outro lado. É o que nós chamamos de painel de instrumentos livremente programável. Direi que é uma tecnologia muito no limite do que se conhece hoje. Temos esta nossa tecnologia em marcas como a Audi, BMW, alguns modelos da Mercedes, Volvo. Temos soluções únicas no mercado como o ‘optical bonding’ que permite, independentemente das condições de muita luminosidade no interior do veiculo, temos sempre a informação no painel de instrumentos. É uma solução que só existe em Braga e que está a ser um sucesso muito grande.

P - A parceria com a UMinho está já a ter resultados e terá outros no futuro, é para durar por muito tempo?
R - Espero bem que sim. Tanto a UMinho como a Bosch têm a ganhar com essa parceria. Aquilo que nós fazemos hoje é trazer a universidade para dentro da fábrica e vice-versa. Temos o nosso Laboratório de Manufatura Aditiva dentro da UMinho, em Guimarães, que eu espero que esteja a ser bem aproveitado pelos os alunos da universidade. O laboratório permite-nos reduzir de forma significativa o tempo de execução de protótipos que em condições normais teriam de ser feitos através de moldes. Há uma outra situação bastante interessante que é ter doutoramentos da UMinho a serem feitos dentro da nossa fábrica. Temos cerca de 14 pessoas nessas circunstâncias a trabalhar em problemas do dia a dia das nossas fabricas. O maior problema em fábricas de electrónica são as contaminações e temos muitos projectos nessas áreas

P - A Bosch não espera que sejam as universidades a produzir conhecimento, é a própria empresa que aposta nessa área através dos seus centros de desenvolvimento tecnológico e com recursos humanos altamente qualificados?
R - No passado o que sucedia é que as universidades faziam os licenciados e lançavam-nos no mercado de trabalho. Hoje o que procuramos é que os licenciados antes de concluírem os cursos ou os doutoramentos venham conhecer-nos. Se se integrarem e gostarem do nosso projecto e isso tem acontecido com regularidade; obviamente que a nossa intenção é que fiquem a trabalhar connosco no futuro.

P - Mencionou nesta entrevista um conjunto de marcas automóveis que usam a tecnologia produzida na Bosch, recentemente foi anunciado um contrato com a Renault-Nissan que representa um negócio 2 000 milhões de euros.
R - O negócio na sua totalidade terá esse valor. O investimento não será só para a Bosch Braga. É uma plataforma mundial em que uma parte da produção dos equipamentos será em Braga, mas também vão ser produzidos na China e na Malásia.

P - Qual é o impacto desse negócio em Braga?
R - Os 2 000 milhões de euros são para um projecto a cinco anos. Nós vamos ter uma boa parte do negócio, mas é mais um negocio para Braga. Se compararmos com o negócio Audi, com o negócio BMW, estamos perante mais um. É importante, mas não é diferente dos outros negócios.

P- Falamos de tecnologias de ponta e quando assim é não se colocam limites à capacidade de desenvolvimento de produtos. No caso concreto daquilo que são as soluções para a navegabilidade automóvel ainda há muito por inovar?
R - Em Braga está a Bosch Car Multimédia que é por essência a parte que permite comunicar com o exterior, os sistemas de navegação, o rádio, a conectividade. E a partir da conectividade tudo é possível: desde o acesso á internet, fazer chamadas telefónicas. No futuro e isso também são projectos que nós temos, estamos a trabalhar projectos de comunicação de carro para carro, carros com infraestruturas, estamos a participar também em projectos de condução autónoma, embora tudo isto esteja ainda numa fase embrionária. Apesar de se falar muito em condução autónoma esta ainda não existe a 100%.

P - A condução autónoma é um passo decisivo no futuro?
R - A condução autónoma não é um dispositivo que se instale no veículo e ele passa a ser autónomo. É uma série de sistemas que em conjunto vão permitir chegar a uma condução autónoma. Nós prevemos na Bosch que para 2025 a condução de um automóvel de forma 100% autónoma seja possível. Neste momento dentro de determinados parâmetros já o é.

P - Mas na fábrica de Braga já estão a trabalhar com esse objectivo no horizonte?
R - Sim. Em algumas áreas que nos permitirá participar na condução autónoma. Temos vários projectos nessa área.

P - Manifestou recentemente a ambição da Bosch de liderar as exportações nacionais. Um objectivo concretizável e dentro de quanto tempo?
R - Queria esclarecer essa ideia. Numa entrevista disseram que a Bosch era a maior exportadora nacional. Eu respondi que não somos, estaremos num quarto ou quinto lugar do ranking. Depois perguntaram-me o que era necessário para ser o primeiro exportador e eu respondi que para isso a Bosch teria de me deixar fazer mais uma grande fábrica em Portugal. Começou depois a circular que a Bosch iria avançar para uma nova grande unidade, ora isso não é verdade. Para poder chegar a ‘número um’ na exportação nacional obviamente teríamos de fazer uma fabrica com uma dimensão bastante considerável. Tiraram-se algumas conclusões precipitadas.

P - Uma nova fábrica da Bosch em Portugal é um investimento que o grupo equaciona?
R - É um cenário que eu equaciono. O grupo penso que não. Não se discute essa possibilidade neste momento.

P - No caso da unidade de Braga a Bosch continua em crescimento. Esse crescimento vai-se manter nós próximos anos.
R - Prevemos ampliar as nossas instalações. São mais nove a dez mil metros quadrados de área fabril até ao fim do próximo ano.

P - E há espaço físico para se fazer essa ampliação dentro daquela área que as pessoas se habituaram a conhecer como o ‘complexo Grundig’?
R - Não. O complexo vai ter de ser ‘esticado’. Estamos em negociações há muito tempo com proprietários de terrenos e se tudo correr bem ainda este ano iremos começar as obras. Este é um processo de ampliação da Bosch em Braga que implica uma conjugação de esforços e de entendimento muito grande.

P - A expansão da Bosch aqui em Braga implica mais recrutamento de colaboradores?
R - Não podemos quantificar de forma precisa. Nós hoje estamos na casa dos 3000 colaboradores, no futuro não deverá andar muito acima dos 4000, na melhor das hipóteses.

P - Recentemente colocou a tónica na necessidade que a Bosch vai ter de contratar recursos humanos muito especializados.
R - É a aposta da Bosch na industria 4.0, serviços partilhados, internet. Obviamente que engenheiros de software, electrónica, mecânica só são necessários se houver no fim a parte de montagem, a parte fabril. Essas áreas têm de existir também.

P - Essa mão de obra muito qualificada está a ser formada em número suficiente nas universidades em Portugal?
R - Em meados de 2015 cheguei a ter receio que não fosse possível recrutar a quantidade de recursos humanos especializados que iriamos necessitar durante 2016.Com alguma surpresa e com algumas dificuldades, conseguimos. Nem sempre no ‘timing’ adequado, mas acabámos por conseguir recrutar as qualificações, as competências, as pessoas que tínhamos necessidade.

P - Neste capítulo o mercado de recrutamento é finito?
R- Isso preocupa-me! Fomos buscar engenheiros portugueses que saíram para o estrangeiro no período difícil de Portugal. Também temos colaboradores de outros países, mas durante o ano passado conseguimos recrutar engenheiros portugueses que estavam em outros países europeus, alguns deles com competências únicas. Foi muito interessante conseguir recrutá-los e trazê-los para Braga.

P - A Bosch tem realizado os ‘roadshows’ junto das universidades para atrair novo quadros qualificados. O resultado tem sido o esperado?
R - Fizemos em Braga, Porto, Aveiro e em Lisboa. Os meus receios de há ano e meio não se concretizaram. Conseguimos recrutar os recursos que necessitávamos.

P - Estava a referir algumas dificuldades na contratação dessa mão-de obra especializada...
R - Ainda não é uma dificuldade! Eu penso que com o crescimento e com os investimentos que se estão a fazer em Portugal poderá vir a ser. Eu tenho alertado os reitores para essa situação. Se calhar é bom na área tecnológica abrir mais o “numerus clausus”, ter mais estudantes nas engenharias.

P - Sendo engenheiro e daquilo que tem conhecimento que resulta do seu contacto com as universidades, estas instituições têm capacidade de resposta. Poderá ter de haver a médio/longo prazo uma reestruturação dos cursos de engenharia?
R - Tenho discutido isso com a universidade. Nós temos passado informação sobre aquilo que são as necessidades especificas do mercado e alguns cursos estão a ser reformulados, em especial o último ano para ir mais ao encontro daquilo que o mercado de trabalho precisa. Ao contrário do que acontecia no passado é muito vantajosa esta abertura que se verifica das universidades ás empresas. As universidades com quem trabalhamos mais de perto - a do Minho e a de Aveiro - estão disponíveis para dialogar, para discutir projectos.

P - Esta relação nos dois sentidos entre as Universidades e a Bosch, facilita o diálogo e o conhecimento das necessidades da empresa e do mercado.
R - Serve também para mostrar aos alunos o que é o mercado de trabalho e a mudar mentalidades. Muitas vezes existe uma ideia errada do que é uma fábrica. A fábrica da Bosch em Braga parece um laboratório.

P - A Bosch em Portugal apresentou um valor de vendas recorde de 1,1 mil milhões de euros, em Portugal terá existido um ligeiro decréscimo com vendas de 211 milhões de euros
R - Desse primeiro valor que referiu mais de 95% foi para exportação. Entretanto no mercado nacional o ano de 2015 tinha sido bastante bom. Relativamente a 2016 deu-se uma ligeira descida do valor das vendas, mas eu diria que é mais correcto dizer que houve uma estabilização. A fábrica de Braga foi recorde de vendas, Aveiro esteve com valores idênticos ao melhor de sempre, Ovar também apresentou os melhores valores de sempre. Na parte fabril os nossos resultados foram muito positivos. Em Lisboa na parte dos serviços partilhados os resultados também foram muito positivos.

P - A incapacidade de o mercado interno não conseguir ultrapassar uma determinada fasquia, tem a ver com a dimensão do país, com a nossa situação económica?
R - Eu penso que não. O país de uma forma geral já esteve muito pior. Vê-se pela quantidade de emprego que está a ser criado. O emprego jovem era critico há uns anos e neste momento estão a empregar-se muitos jovens. A Bosch é apartidária, trabalha com pessoas e dará o seu contributo para que o país continue a recuperar. A situação geral do país está substancialmente melhor.
P - Estamos sensivelmente a meio do ano qual é a sua perspectiva?
R - Continuo a observar muito investimento em Portugal não apenas da Bosch, mas também de outras multinacionais. Vejo crescimento, procura de mão de obra especializada. Muitos países aperceberam-se que há gente muito capaz, muito competente no país.

P - Viveu e trabalhou no Japão de que forma é que essa vivência o influenciou profissionalmente?
R - Muito da minha cultural profissional vem dos 15 anos em que trabalhei com os japoneses. São muito dedicados, altruístas, empenhados, disciplinados. Passam muitas horas na fábrica, nem sempre a trabalhar, mas as oito, dez horas em que trabalham fazem-no de forma correcta e honesta.

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