Luís Rodrigues: Pobreza envergonhada é outra forma de termos farricocos

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José Paulo Silva

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P - Estamos a falar na Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma no mundo católico. Podemos começar por explicar o significado desta data?
R - Chama-se de Cinzas por um gesto litúrgico que é a imposição das cinzas na cabeça das pessoas como sinal de penitência. Entende-se penitência não tanto como um castigo, uma pena ou um sacrifício. Em sentido mais profundo a penitência é um conjunto de exercícios que fazemos para refazer a saúde espiritual. A Quaresma tem três exercícios: a oração, o jejum e a penitência.

P - Um grupo de católicos terá decidido como forma de penitência neste período da Quaresma abster-se de aceder às redes sociais na internet. Isto pode ser aceitável para a Igreja Católica?
R - Eu e a redes sociais temos uma relação muito próxima. Hoje sabemos que há muita gente com dependência das redes sociais. Se tenho uma relação obsessiva com uma rede social, isto está mal. Se arranjo uma forma, ainda que seja a pretexto da Quaresma, para me libertar dessa escravidão, concordo. Agora, fazer isso como resposta a uma idiossincrasia em que as redes sociais são uma encarnação do demónio, já não concordo. A conversão religiosa tem de ser uma humanização de maior qualidade. Tudo o que eu faço em termos de conversão religiosa, ou me dá mais qualidade de vida ou então é outra coisa qualquer.

P - O início da Quaresma é, em Braga, o início de uma celebração muito própria: o Lausperene Quaresmal. A Comissão das Solenidades da Semana Santa tem vindo a valorizar este elemento de devoção?
R - Sim. Na cidade de Braga temos uma devoção muito interessante: durante o tempo da Quaresma, as igrejas e algumas capelas têm a exposição do Santíssimo Sacramento. Num tempo em que a Igreja Católica convida ao recolhimento e se retiram as flores, esses templos ficam riquissimamente ornamentados com flores. Num tempo em que se convida ao jejum, temos as rebuçadeiras às portas das igrejas (risos). É uma tradição que tem um significado muito interessante. Quando estamos em Quaresma não estamos a sofrer um castigo por alguém que morreu, estamos a fazer um exercício para viver mais e melhor a vida que Cristo ressuscitado nos dá. Quando estamos a adorar a hóstia, estamos a adorar o Cristo ressuscitado. Aqui em Braga temos um equilíbrio muito interessante: ao mesmo tempo que recordamos em cores mais roxas e músicas mais melancólicas aquilo que em tempos da Igreja foi considerado como doloroso, temperamos isso com a ideia de que Cristo está ressuscitado no nosso meio.

P - O Lausperene Quaresmal já existe em Braga desde o século XVIII. Essa temperança é assumida mais agora do que no passado?
R - Embora tenha uma mensagem que é eterna, a Igreja está no mesmo tempo e no mesmo território que os outros seres humanos. Em cada época da História valorizou-se mais um aspecto ou outro. Nunca como hoje se cultivou tanto o bem estar, o lazer e a qualidade de vida. É natural que bebamos da mesma água e sejamos guiados pelos mesmos ventos. Isto sem adulterar aquilo que é essencial da mensagem evangélica.

P - Mas a Quaresma tem tido sempre um significado pesado e de luto.
R - Deveria ter mais um sentido de introspecção. A ideia do semblante carregado em tempo de Quaresma deve ser a da concentração no que é essencial. Claro que nós, aqui em Braga, com os farricocos, não podemos esquecer a ordem dos penitentes, que eram aqueles que eram conhecidos publicamente pelo pecado grave que tinham feito. Hoje, nós temos a prática da confissão individual, há alguns séculos atrás tinham de fazer a penitência pública.

P - O farricoco deve ser hoje entendido como um ícone mais turístico?
R - Continuo a ver no farricoco um sinal e uma presença espiritual forte. Antigamente, os farricocos eram os penitentes que tapavam a cara para não serem conhecidos. Agora, são figurantes. No mundo de hoje temos pessoas que são excluídas e que têm vergonha de mostrar a cara. Estou a lembrar-me dos excluídos que não têm dinheiro suficiente para a habitação e a alimentação. A nossa pobreza envergonhada é outra forma de termos farricocos entre nós.

P - A suavização da imagem da Semana Santa que foi acontecendo nos últimos anos enquadra-se na mensagem que tem vindo a expressar?
R - A comunicação e a imagem da Semana Santa de Braga têm vindo a melhorar muito. Na comissão fizemos uma reflexão sobre o que significa a Quaresma para muitos que estão em Braga nesta ocasião. Eu próprio já tive aquela ideia de que a Semana Santa em Braga é turismo e que tudo o que se faz é parta turista ver e usufruir. Quando fui nomeado cónego e, na Semana Santa, passei a estar na Sé Catedral, comecei a falar com dezenas e dezenas de pessoas que vêm a Braga. Não digo que não venham com objectivos turísticos, mas havia nelas uma motivação espiritual e religiosa. Por isso, não me parece que possa ser feita uma separação muito fria entre o que é espiritual e o que é profano. Penso que na Semana Santa de Braga temos tudo isto muito bem harmonizado.

P - O que está a dizer é que muitas pessoas vêm a Braga na Semana Santa são turistas com motivações espirituais?
R - Com motivações espirituais e religiosas muito fortes. As pessoas deixam-se tocar pelo acontecimento. Penso que aí é que Braga tem uma riqueza muito grande. Temos um ambiente muito próprio.

P - É genuíno esse ambiente?
R - É. O ano passado retomámos a encenação do descimento da cruz na Sexta Feira Santa no Largo de Santa Cruz. Estava um tempo horrível e as pessoas não arredaram pé.

P - Recentemente, José Tolentino de Mendonça escrevia que a Quaresma é um tempo litúrgico que se tornou quase clandestino. Também vê isso?
R - Não li a crónica onde o padre Tolentino fala disso. Reconheço que na liturgia e na espiritualidade cristãs não valorizamos o que é essencial da Quaresma. A Quaresma nasceu como tempo em que os cristãos acompanham os novos que vão ser baptizados, recordando o seu próprio baptismo. A Quaresma tornou-se muito de dor e de sacrifício. Mas porquê? Cristo não nos pede para andarmos tristes e amargurados. A Quaresma tem de ser um tempo litúrgico e de espiritualidade para relembrarmos a alegria de sermos filhos de Deus.

P - A Comissão das Solenidades da Semana Santa conta com um novo elemento, a Associação Industrial do Minho. Isso vem responder a uma apreensão sua de que o meio empresarial não contribui como deveria para as Solenidades?
R - Se a memória não me atraiçoa, referia-me ao mundo da restauração que a Associação Industrial do Minho não representa. Nós temos como promotores as irmandades da Misericórdia e de Santa Cruz, que agregam muitas sinergias e pessoas. Foram introduzidas outras instituições profanas como a Câmara, Turismo Porto e Norte, Associação Comercial de Braga...

P - A Associação Industrial do Minho foi convidada?
R - Foi e muito amavelmente aceitou. O que presidiu a esta decisão é que este ambiente seja promovido junto daqueles que, de alguma forma, tecem o tecido social onde nos inserimos. O nosso objectivo não é económico. Quando vamos pedir junto dos comerciantes, industriais e particulares não nos interessa só uma estratégia que apenas angarie fundos económicos, interessa-nos o capital humano, Interessa-nos mais uma pessoa que dê um euro e participe numa procissão do que outra que dê dez euros e nesse dia não esteja sequer em Braga.

P - Para responder à crise dos ‘anjinhos’ e de outros figurantes?
R - Já reuni com as duas empresas que tratam desse serviço e penso que ainda vamos passar um ou dois anos com essa carência. Tínhamos uma prática em que as crianças eram mobilizadas de acordo com a sua devoção. Quando isso começou a diminuir, passou a comissão a financiar os trajes. Isto não é o essencial das procissões. As pessoas devem participar porque querem.

P - Pretendem não ter actores mas sim participantes...
R - Sim, pessoas que estão ali por devoção.

P - Essa adesão das pessoas já se nota mais?
R - Eu não tenho muito histórico na comissão. Não posso responder com muita assertividade. O que eu verifico, no quadro mais largo do Minho, é que temos menos gente nas igrejas e nas actividades, mas os que estão, estão porque querem. A Semana Santa de Braga não será excepção. Não estaremos a exagerar se dizermos que a Semana Santa tem um suporte de vida espiritual que faz com que estas coisas aconteçam.

P - Continua a ser importante o reconhecimento das Solenidades da Semana Santa de Braga como património imaterial?
R - Como Património Imaterial Nacional já submetemos a respectiva candidatura. Estamos a trabalhar também na candidatura a Património Imaterial da Humanidade. Pergunta-me se é importante. Quando uma coisa de que gostamos, é importante também queremos que os outros a reconheçam. Ter uma entidade como a UNESCO a reconhecer a Semana Santa de Braga é a melhor forma de preservar a sua integridade e especificidade. O reconhecimento é importante para valorizar o fenómeno, não tanto para nos envaidecer.

P - Perspectiva dois anos como prazo ideal para a obtenção desse reconhecimento da UNESCO?
R - Esse é o nosso prazo ideal. Temos de reconhecer que a UNESCO tem como princípio privilegiar os pobres, que é um bom princípio. Se formos ao ‘site da UNESCO e virmos onde está o património imaterial, em Portugal já temos vários fenómenos reconhecidos. As regiões onde não há nada reconhecido são privilegiadas. Em Portugal temos algumas candidaturas, daí que possamos ter algum atraso. Em 2018 estaremos em condições de entregar o dossiê. Até chegar a nossa vez demorará algum tempo.

P - A classificação como Património Imaterial Nacional será mais pacífica?
R - Sim. Tendo em conta todo o trabalho que temos feito e as reacções das várias entidades, tudo leva a crer que estamos a cumprir tudo o que a plataforma pede.

P - No que respeita ao património material da Semana Santa de Braga, que também existe, manifestou o desejo de ter um museu ou outro espaço para o mostrar...
R - No fundo, era mostrar a Semana Santa fora da Semana Santa.

P - Esse projecto está em marcha?
R - Não. Não avançou porque ainda não chegamos ao tempo favorável. As coisas estão ainda um pouco voláteis. As exposições do programa das Solenidades já são uma amostra do que poderá ser um Museu da Semana Santa.

P - Uma coisa que se notou nos últimos anos é a capacidade de projectar a Semana Santa de Braga para fora da cidade através de um reforço comunicacional...
R - Trabalhamos com uma empresa de comunicação e os diversos promotores têm a noção de que a Semana Santa ganhará muito em Braga na medida em que for valorizada fora da cidade. Um cuidado que já no tempo do dr. Jorge Coutinho ( anterior presidente da Comissão das Solenidades) havia era o de promover a Semana Santa fora de portas. Este ano está garantido que a exposição itinerante que faz a promoção da Semana Santa vai estar nas principais estações de comboio, no aeroporto Sá Carneiro, na Agro...Vamos fazer um spot televisivo.

P- As televisões têm prestado a atenção que a Semana Santa de Braga merece?
R - A questão é simples: Braga é muito longe de Lisboa. A derrocada de um muro em Lisboa tem muito tempo nas televisões. Um acidente em que morrem várias pessoas em Trás-os-Montes dá uma notícia de rodapé e pouco mais. As televisões precisam da imagem e isso custa dinheiro. Em Braga estamos em desvantagem, contudo a Semana Santa já ocupa um lugar que ultrapassou muitos desses obstáculos. Não me parece que nos possamos queixar da forma como somos tratados pela comunicação social.

P - A Igreja assume a Semana Santa de Braga como um fenómeno social e económico. Em 2015 dizia que era o “grande cartaz” da cidade. Têm a expectativa de um estudo de impacto económico das Solenidades...
R - Pedimos isso à Universidade do Minho.

P - Isso é importante para a Comissão das Solenidades?
R - É importante. Nós temos um programa que fazemos da mesma forma nos últimos anos mas eu não sei quais são as iniciativas que têm mais retorno e as que têm menos. A partir do momento em que eu souber, não a minha opinião mas uma opinião fundamentada, eu vou investir mais naquilo que trás retorno e menos naquilo que é insignificante. No que respeita ao programa cultural, como é evidente. Uma das coisas que queremos perceber é o que é que faz com que um visitante retorne a Braga depois da Semana Santa.

P - Esse estudo pode ser também uma forma de convencer mais empresários a apoiarem a Semana Santa?
R - Eu penso que, quando conseguirmos mostrar o quanto o que nós fazemos é importante, as coisas acontecem com naturalidade.

P - O orçamento que têm para este ano é idêntico aos de anos anteriores?
R - Este ano é bem superior. Por um lado temos o estudo de impacto económico, por outro temos todo o processo de candidatura a Património Imaterial. Estamos a rondar os 150 mil euros de custos à Comissão das Solenidades da Semana Santa. Eu tenho de ser justo: a comissão tem uma conta, que é gerida pelo Cabido da Sé, mas há todo o dinheiro e todos os bens dos outros promotores e que não entram nesta contabilidade. Cento e cinquenta mil euros é o valor gerido pela comissão.

P - O impacto económico das Solenidades da Semana Santa é uma evidência.
R - Mas não está medido. Eu posso ter uma percepção mas não temos dados.

P - Quando vamos ter esse estudo?
R - Vamos medir o próximo evento, estudar a medição e teremos resultados.

P - A Via Sacra de Maximinos tem tido um crescendo de participação. Ainda não faz parte do programa das Solenidades da Semana Santa...
R - Além da Semana Santa na cidade de Braga, ao redor temos muitas manifestações religiosas: procissões de Passos e tudo o mais. Eu enviei às comissões dos Passos um convite para a nossa procissão de Sexta-Feira mas pedi também os programas para os divulgarmos no nosso ‘site’. Não tenho recebido o ‘feed-back’ que seria expectável. Com a comissão da Via Sacra de Maximinos, nunca falámos sobre isso, porque são duas realidades que não se anulam, que têm a sua vida própria.

P - Há alguns anos atrás foi integrado no programa da Semana Santa a Procissão da Burrinha com alguma discussão no interior da Igreja. Há a perspectiva de alargar o programa a outros eventos?
R - Não me recordo dessa discussão. Quando se colocar a questão da Via Sacra de Maximinos teremos de a analisar.

P - Não há nenhuma solicitação nesse sentido?
R - Não. São eventos não concorrentes.

P - O programa cultural tem sido uma aposta forte da Comissão das Solenidades da Semana Santa nos últimos anos. Nesta área há um retorno, não económico mas em termos de participação?
R - Sim, os concertos têm tido muita assistência em função dos espaços disponíveis. O concerto de Terça-Feira Santa tem a catedral cheia, tal como os da Misericórdia, de Santa Cruz e da igreja de S. Victor. Tem havido uma boa receptividada da população a esta programação cultural.

P - A este nível é possível alargar a oferta?
R - As limitações são mais económicas. Parece-me que o programa fica curto. Este ano vamos ensaiar com a Sinfonietta de Braga, que nos oferece um concerto no sábado de Pascoela. Será um concerto pascal, mais festivo, não tão pesado como os da Semana Santa. Será um ensaio para dar uma certa continuação. Para que a história não acabe a meio.

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