O legado de Raúl Brandão nas palavras de Francisco José Viegas

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Com moderação de Tito Couto, a conversa intitulada “Quando regresso do mar” encontra-se integrada no Húmus - Festival Literário de Guimarães, que evoca os 150 anos do nascimento do escritor Raúl Brandão.

Pedro Casanova, presidente dos Leões da Lapa, fez as honras da sua “humilde casa” para receber os convidados e a plateia, aproveitando para agradecer o convite feito pela autarquia da Póvoa de Varzim e pela Câmara Municipal de Guimarães, que em parceria permitiram esta “pequena convivência e partilha de experiências”.

De seguida, Tito Couto passou a explicar que Raúl Brandão foi alguém “fundamental na literatura portuguesa, que abriu portas para uma nova forma de escrever romances, sempre muito visual e agarrada ao acontecimento”. Por isso, “lançámos o desafio desta criação de diálogo sobre este grande escritor, um filho e neto de pescadores, muito ligado a Guimarães e que tinha a preocupação de escrever sobre a pesca, de Caminha ao Algarve.”

“Os seus livros eram um misto de história de vida daqueles homens das comunidades piscatórias do seu tempo e de memórias do seu avô, do seu pai e da vida de pesca de sua família”, acrescentou o moderador que lançou uma questão a Francisco José Viegas: “Tendo em conta que hoje em dia os grandes escritores vivem todos no Porto e em Lisboa, podemos dizer que grande parte do país já não entra na literatura?”

Antes de responder à questão propriamente dita, Francisco José Viegas contou que a sua infância foi fortemente marcada pela Póvoa de Varzim: “Vínhamos de Chaves e ficávamos 15 dias em terras poveiras. Era uma aventura e foi uma imagem que me ficou para sempre. Enrijeci como pessoa no mar da Póvoa, a enfrentar diariamente a água fria. Aproveito para agradecer esse mar.”

Em resposta à pergunta de Tito Couto, o escritor acredita que a falta de escritores fora dos grandes centros urbanos é um problema: “atualmente ninguém sabe descrever o País de hoje, o que é um sinal da pobreza sociológica dos próprios escritores portugueses. E pior, será uma perda para quem for ler sobre Portugal daqui a 20 ou 30 anos.”

Raúl Brandão por seu lado era o oposto, segundo Francisco José Viegas. Nascido na Foz, “num tempo em que era uma zona de gente humilde”, foi graças a essa infância que Raúl Brandão “descobriu que do lado dos mais pobres estava uma imagem de Portugal que era muito importante contar”. Isso fez dele um escritor diferenciado e que “dava voz às pessoas”.

O renomado autor era “muito adiantado ao seu tempo. Falou de coisas avançadas, foi aos sítios, dialogou com as pessoas, era um retratista que andava de terra em terra a reproduzir a realidade, algo que hoje não é feito”, lamentou Francisco José Viegas, que acrescentou que o escritor era tão avançado para a sua época que a sua forma de escrever “tornou-se dominante na Europa, décadas mais tarde”.

“Os seus livros foram do que melhor se escreveu em Portugal na primeira metade do século XX. Explica-nos a realidade dum país por dentro, anotada dia-a-dia, sempre suportada com fotos cruas e reais sobre os eventos mais marcantes. O regicídio, a implantação da Republica e a ditadura que se seguiu, os atentados à bomba, a instabilidade politica e social que se vivia, os dos problemas do quotidiano dos mais humildes, estava tudo misturado na obra de Raúl Brandão”, sublinhou.

Francisco José Viegas deixou ainda um lamento relativamente ao tratamento a que foi votado Raúl Brandão pela comunidade literária do País: “150 anos depois é reconhecido como alguém singular, mas não é lido, não faz parte do currículo escolar nem entra nos festivais literários. Se não fosse este festival, Raúl Brandão simplesmente não seria falado.”

*** Nota elaborada pelo gabinete de comunicação da C. M. da Póvoa de Varzim ***

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