Carta à Leonor: de um jovem investigador para uma iniciante

Ensino

autor

Filipe Clemente

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Querida Leonor
Redijo esta carta depois de reparar na tua curiosidade persistente, na tua irredutibilidade pela procura de respostas e pela persistência em combater os “é assim porque é assim”. Parece-me que tens reunidas as condições para, nesta nova jornada pelo ensino superior, poderes trilhar o caminho da ciência.
Quero que saibas que é um caminho duro, muitas vezes só e onde vais combater contigo própria. No entanto, também é um caminho pela realização, pela partilha e pelo bem maior. Espero que, mais que procurar conhecimento, te foques em produzi-lo com pensamento crítico e orientado para a formulação e resolução de problemas.

Deixo-te aqui alguns conselhos que podes considerar:
1.º Interessa-te por quem te ensina: querida Leonor, escolhe a tu própria área de interesse e procura saber mais sobre o teu professor. Escuta as suas histórias, mas nunca confies nele. Pesquisa sobre o seu produto (artigos científicos, livros, patentes, redes) de forma independente. Se encontrares produção e corroborar as suas histórias, tens alguém que te pode guiar pela ciência.
2.º Sujeita-te ao processo antes do produto: o professor vai-te orientar por tarefas inespecíficas. Muitas delas vão ser entediantes e custosas. Sujeita-te a elas. Normalmente, as tarefas vão-te conceder o saber e o saber-fazer necessário para um dia seres autónoma. Não te esqueças que para pescares tens de saber sair de casa, chegar ao local, montar a cana, usar o anzol apropriado, aplicar a técnica, aguardar e, só depois, pescar o peixe.
3.º Motiva o teu professor: incentiva o teu guia. Mostra-lhe que estás interessada, andaste a ler, estiveste a tentar, fizeste um rascunho. Não esperes que seja ele a motivar-te. Se gostas, faz e volta a fazer por ti. Ele vai notar e direcionar-te na resolução do problema.
4.º O sucesso, por maior que seja, é passado: assim que consigas a tua primeira descoberta e feito não te esqueças: já passou! O bem-sucedido só o é porque o faz por hábito e não porque o faz esporadicamente. E o que já passou pode ser melhorado ou contrariado. Desconfia de ti e do que fizeste. Sê a tua primeira opositora e desafia-te a seres melhor!
5.º Encaixa os golpes: vai a conferências e apresenta as tuas descobertas. Independentemente do mérito vais ter quem te critique e quem te apoie. Prefere sempre os primeiros! São as críticas que te vão permitir refinar o pensamento e produzir de forma mais assertiva. O apoio não serve para seres melhor, apenas para aqueceres a alma.
6.º Sê anormal: Otimiza o tempo e direciona-o para a produção. O legado é mais importante que as frases feitas, muitas vezes desvirtuadas por fins comerciais. O “aproveita o dia” pode ser usado para “aproveita a vida a criar o legado”. O “vive agora” também pode ser “vive agora a criar algo”. O “aproveita a vida” pode ser “aproveita a vida a fazer algo de útil”. Os normais vão-te achar estranha, anormal ou inadaptada. Mas não te esqueças que não se esperam grandes feitos dos normais, apenas dos extraordinários.
7.º Quando te sentires preparada, voa sozinha: se fores produtiva vão querer manter-te na gaiola dourada. Vão-te alimentar um pouco melhor, mas não te vão deixar ser independente. Quando te sentires preparada, voa sozinha e trilha o teu próprio caminho.
Procura novos parceiros nacionais e internacionais, faz-te conhecer junto dos melhores e não tenhas medo de arriscar: se não te valorizam e se tens produto, certamente que alguém te vai dar a oportunidade.
8.º Não deixes os ovos todos na mesma cesta: quando fores autónoma não trabalhes sempre com os mesmos. Isso vai-te limitar o horizonte. Procura ter vários colaboradores e não te preocupes de os perder. É como os amigos: são contextuais e mutáveis, vamos ganhado e perdendo!
9.º Descansa, produzindo: pesquisa temas diferentes e mantém-te atenta a outras áreas. Muitas vezes a resposta não está na nossa área científica mas sim na do lado. Assim, quando estás a descansar da tua investigação, lê sobre a de outros e sobre temas diferentes.

Termino esta carta lembrando-te que por esta altura o pai ainda tem 28 anos, tu tens 7 meses, e a destinatária não serás tu em concreto.
Lembro-te que por esta altura, o pai tem 120 artigos científicos, 7 livros e 22 capítulos de livro publicados. Já foi também financiado para projetos de investigação, já trabalhou com mais de 40 investigadores diferentes e já orientou outras pequena(o)s maiores que tu. E, por enquanto, vai tentando criar “escola” na Escola Superior de Desporto e Lazer de Melgaço.

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