Uma história de vida: “a tua história...”

Escreve quem sabe

autor

Cristina Palhares

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“Tenho 13 anos, estou a terminar o 9º ano e a vida sorri. Mas nem sempre foi assim. Não o foi de todo! Foi tudo tão rápido... coitada da minha mãe. Mas, nasci com 33 semanas, 3,300 Kg e 53 cm. Passei três meses a dormir e a comer. Deve ter sido fantástico! E uma das primeiras coisas que aprendi foi a olhar para a minha mão. Passava horas a olhá-la, primeiro sem saber que era minha, e depois, percebendo que a minha vontade a fazia mexer, esticar, encolher, sem saber que seria ela causa de tantos dissabores nos primeiros anos de escolaridade. Desde as horas que passava a olhar para a minha mão até às primeiras palavras foi um pulo... Não dei conta do tempo passar.

Até que, depois de muito balbuciar, e muita preguiça para me sentar, comecei a dizer as minhas primeiras palavras. Como eu palrava muito e não dizia nada de jeito, estas primeiras palavras foram um verdadeiro milagre. Até já tinham dito aos meus pais que eu devia ser um bocado atrasada! Coitados! Foi a maior das surpresas. Ao fim de 30 dias já formava pequenas frases e foi assim que de atrasada passaram a dizer aos meus pais que algo devia estar a acontecer comigo... Vai lá alguém entendê-los!... E pior que isso... tropeçava, caía, preferia arrastar-me do que andar a pé, e correr não era comigo. Passava os dias a falar sozinha, e, por isso é que eu vos dizia o quão importante tinha sido, é, e será, a minha mão: sarrabiscava em tudo o que era folhas, livros, para desespero da minha mãe. Lembras-te que já tinha 4 anos? Pois era. Lembras-te de que eu já pegava muito bem nos lápis e adorava escrever as letras iguais às do meu puzzle? Não? Ainda não tinha dito? Pronto, disse agora. Estava ansiosa por poder passar o dia numa secretária (muito mais pequena que a minha) cheia de livros e cadernos novos. O meu primeiro dia de aulas na primária foi o máximo. Adorei poder mostrar os meus livros e cadernos novos, a minha pasta nova e, principalmente o meu estojo. Eu mostrei tudo com muito orgulho, mas queria era começar a usar. E sabes? Afinal neste meu 1º ano pouco aprendi. Foi uma seca... Tive que voltar a aprender, como se já não soubesse nada. Mas ia sempre para a escola na esperança de um dia aprender coisas novas. Em casa comecei a dar algumas preocupações aos meus pais: dores de barriga, enxaquecas que eu sabia dizer tão bem, insónias, e daí a fazer um exame geral médico foi um passo. Mas eu devia ter alguma coisa... Não descobriram pela certa! Entretanto chegou o final do 1º ano, e no início do 2º, a diretora e a minha professora resolveram chamar os meus pais à escola. Propuseram que eu passasse para o 3º pois começava a portar-me muito mal. Só queria fazer contas difíceis, lia com muita velocidade, afinal já estava ao nível dos meninos que estavam no 3º ano. Pois, pudera. Quando eu me raspava para a sala deles, o que a professora estava a fazer no quadro era facílimo para mim. Eu respondia e fugia... E foi aqui que comecei a conhecer os psicólogos. Aqueles gabinetes eram mesmo bonitos! E passei a ir aos sábados ter com novos amigos, que eram todos um bocadinho mal comportados, irrequietos, faladores, como eu. Também havia meninos que quase não falavam, mas eu falava com eles na mesma! O 3º e 4º ano foram muito difíceis. Estava sempre de castigo, nem sei bem porquê. Até vinha com a minha secretária e cadeira para o corredor! A sério! Só ao sábado é que me portava bem, ou por outra, podia falar que ninguém me punha de castigo. Mas durante este tempo, voltei a fazer novos exames médicos. Eu devia ter qualquer coisa mas ninguém descobria nada... Que incultos! Então como é que me doía tanto a cabeça ou a barriga? As minhas notas foram sempre muito boas, mas lá vinha na ficha de avaliação sempre, sempre o mesmo: irrequieta, mal comportada, nunca esperava pela minha vez para nada, respondia pelos outros, e, o que me acompanhou durante muitos anos, “tem capacidade para ser melhor mas não estuda o suficiente”. 5ºano. Tantos professores... Como foi difícil aturá-los! Continuei a vir para a rua, principalmente com o meu diretor de turma, que teimava em não me deixar falar! As minhas notas baixaram, passei a aluna média. Ah, mas também fiz alguns amigos importantes: a senhora do telefone, o porteiro, a auxiliar do ginásio! Foram anos em que chorei muito. De raiva, primeiro! Depois, de incompreensão. Bom, tenho que me despachar! A partir do 7º ano a minha diretora de turma foi excelente. Ela valorizava tanto tudo o que eu fazia! Passei a ter disciplinas diferentes. Teatro, e oportunidade em contactar com alunos mais velhos, em filosofia. As minhas intervenções este ano, no 9º ano, foram de mestre! Lembram-se da minha mão? Aquela que eu tanto mirei em pequena, que cedo começou a escrever e que durante uns tempos parou para fazer apenas aquilo que queria, pois agora tornou-se outra vez o meu centro. Eu era a redatora da escola. O mérito foi todo da minha diretora de turma, que apostou em mim! Hoje, tenho 13 anos, estou a terminar o 9º ano e a vida sorri. Ups…Que engraçado! Num palco, representando... com um microfone... falando a uma multidão... ainda... na redação de um jornal... noutra... de caneta azul na mão. A minha caneta azul! Lembras-te dela? E agora, que velhota! Estou numa missão qualquer, internacional, pois está tudo com auscultadores de tradução simultânea... E ainda, ouvindo, num pequeno gabinete, crianças, pais, professores, rabiscando algumas notas. Talvez passando o meu testemunho, ajudando aqueles que, como eu, também choraram na escola, também tiveram notas menos boas, também encontraram professores menos bons, mas, ajudando aqueles que, como eu, também sorriram na escola, também tiveram boas notas, também encontraram professores bons, e, como eu, se tornaram maiores que a própria vida.”

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