Causalidades e coincidências

Ideias

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Jorge Cruz

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Um dos candidatos à liderança do PSD, Rui Rio, afirmou que a eleição de Mário Centeno para líder do Eurogrupo, a verificar-se, será uma 'excelente notícia', mas que o mérito terá de ser repartido entre o anterior e o atual governo.
“O mérito tem de ser repartido pelos dois governos. Tem de ser repartido pelo governo anterior, por tudo aquilo que fez, e tem de ser repartido pelo governo actual por tudo aquilo que também fez', disse Rui Rio aos jornalistas, à margem de uma sessão com militantes do PSD, sábado, em Fátima.

É por demais evidente que os méritos deste governo se devem, em grande parte, “àquilo que fez” o anterior, da mesma maneira que o “25 de Abril” se fica a dever ao regime ditatorial que o generoso Movimento dos Capitães derrubou em 1974. Vislumbra-se, nestes como em tantos outros exemplos que poderiam ser apresentados, uma certa e inegável relação de causa-efeito.
No caso em apreço, a causalidade é facilmente reconhecível em diversas áreas da governação, conforme aliás tem sido amplamente assegurado quer a nível interno quer no plano externo.

Talvez as corroborações mais inequívocas tenham tido origem, curiosamente, nas pessoas e instituições que haviam elegido a austeridade a todo o custo como sua principal bandeira. Foram essas que mais rapidamente se renderam à evidência, demonstrada pelo actual governo, da existência de outras vias para a descida do défice e para o crescimento.
Em relação a Rui Rio, confesso que não estava à espera que, nesta altura, uma pessoa com as suas responsabilidades políticas fizesse uma declaração crítica tão assertiva relativamente às políticas executadas pelo governo de Passos Coelho. Mas a verdade é que o antigo presidente da Câmara do Porto teve a coragem de dizer, com toda a clareza, que na eleição de Centeno o mérito também tem de ser repartido pelo governo anterior, “por tudo aquilo que fez”.

Desse ponto de vista, tenho de tirar o chapéu ao agora candidato à liderança do PSD porque veio reconhecer publicamente que os despautérios do anterior executivo, que inclusivamente se gabou de implementar medidas que ultrapassavam as exigências da troica, ajudaram ao sucesso do governo de António Costa. E é sempre agradável e salutar para a democracia ver um político falar verdade. Principalmente numa época em que a sociedade é cada vez mais dominada pela pós-verdade, neologismo com que se pretende mascarar a mentira pura e dura.

A propósito, outro Rio, o Ricardo, colocou-se há dias no centro de uma polémica desnecessária ao determinar a transferência de um funcionário do departamento de recursos humanos para o arquivo da autarquia. O funcionário em questão, também presidente da União de Freguesias de Ferreiros e Gondizalves, eleito pelo PS, não esteve com meias medidas e acusou o presidente da Câmara de “vingança política” decorrente de um incidente durante a campanha eleitoral.
O edil contestou a acusação afirmando que a sua gestão “não discrimina funcionários por razões políticas”, ao mesmo tempo que justificou a transferência do funcionário em questão com a necessidade de reforço do pessoal afecto ao referido arquivo. Sobre o tal incidente, Rio nada disse.

Haverá, certamente, falta de pessoal no serviço em questão mas convenhamos que causa alguma estranheza o facto de ter sido escolhido para operar um equipamento de grande complexidade um funcionário que se encontra a escassos meses de se aposentar, após mais de 40 anos de serviço camarário, dos quais os últimos 30 como assistente técnico do Departamento de Recursos Humanos. E não me parece haver coincidências, tanto mais que o nome foi escolhido pela Chefe de Gabinete da Presidência e não pela Directora do Departamento de Recursos Humanos, como seria normal.

Acresce, curiosamente, que o equipamento da polémica - uma solução de digitalização - foi adquirido por ajuste directo no início de Junho pelo valor de 247.500 euros (mais IVA) mas até agora a gestão municipal não se preocupou com a sua rentabilização. Pelos vistos, e não obstante ter sido acordado com a empresa fornecedora prestar o apoio ao arranque até final do mês de Setembro, só no final de Novembro é que a Câmara sentiu a necessidade de colocar o equipamento em funcionamento.

O funcionário transferido, João Costa, iniciará agora o processo, mais ou menos complexo, de formação para operar com o equipamento. Quando estiver completamente apto, reformar-se-á e certamente será dado início a nova acção de formação.
Afastada a hipótese de se tratar de coincidência, aliás seria um conjunto demasiado vasto, também aqui temos que sustentar a decisão na tal causalidade. A mesma, aliás, que poderá explicar outros casos, de que são exemplos o da antiga dirigente da Divisão Financeira, que foi transferida para o estaleiro da Divisão de Equipamentos Municipais, ou de um antigo Director Municipal, que foi colocado na fiscalização de obras. Mas, lá está, nesta época de pós-verdade não me surpreende que digam tratar-se de coincidências…

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