(Des)Norte

Ideias

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Carlos Pires

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Morreu Belmiro de Azevedo, o Sr. Sonae. Uma personalidade marcante, muitas vezes controversa. Um homem que nunca deixou de dizer o que pensava, de assumir as suas posições publicamente, sem receios. Curiosamente, na hora do adeus, é do mundo da política, da boca de muitos dos visados com as suas críticas, que chegam os principais elogios a Belmiro.
Foi/é o maior empregador (a seguir ao Estado!) em Portugal; “o maior empresário português do pós-25 de Abril”, nas palavras de Daniel Bessa. Criou um império, espalhado nacional e internacionalmente. Criou milhares de empregos. Houvesse muitos como ele e certamente a nossa economia revelar-se-ia mais pujante.

Foi “um grande homem do Norte”, nas palavras de Pinto da Costa. Em boa verdade, é no Norte que encontramos os maiores obreiros empresariais (Belmiro, Américo Amorim, etc). 'O Norte trabalha e Lisboa consome' - eis uma frase-feita sobejamente conhecida de todos (que já não é totalmente verdadeira).

Contudo, Lisboa, a capital, continua a acolher investimentos e empregos altamente qualificados. Exemplos recentes, como a Web Summit ou a instalação em Lisboa do centro mundial de competências digitais da Mercedes, são bons exemplos do sucesso de Lisboa nesse capítulo. O Estado sempre privilegiou a capital, no que concerne à instalação de entidades do domínio público, capazes de criar emprego. Desconcentração ou descentralização de serviços foi algo que nunca existiu.

Recentemente, a propósito da mudança do Infarmed para o Porto, anunciada pelo ministro da Saúde há quinze dias, tivemos prova dessa cultura de concentração instalada. E que contaminou tudo: políticos, mas também o jornalismo. Ou não fosse em Lisboa que está sediada a maioria dos órgãos de comunicação social.
É verdade que o anúncio da transferência da sede do Infarmed de Lisboa para o Porto foi feito um dia depois de se saber que o Porto não conseguiu vencer a candidatura para receber a sede da Agência Europeia do Medicamento, que muda de Londres para Amesterdão. No fundo, uma compensação política pela derrota da candidatura, leitura esta que tem sido contrariada pelo Governo.

É ainda verdade que a quase totalidade dos funcionários do Infarmed não quer ir para o Porto. Têm as suas vidas organizadas e de repente são informados que vão para outra cidade. Percebo a resiliência.
Contudo, não é menos verdade que a Entidade Reguladora da Saúde já está no Porto. Assim como é no Porto que está a maior marca nacional em termos de produção e desenvolvimento de fármacos (Bial). A acrescer, a Universidade do Porto, grande baluarte do conhecimento científico e tecnológico da cidade e da região.

Ou seja: o Porto já reúne outras instituições de referencia na área da saúde, pelo que nada repugna vir ora juntar-se o Infarmed.
E virá?
Já não sabemos... A decisão que estava tomada, face à repulsa manifestada pela maioria dos trabalhadores, agentes políticos, e jornalismo, transformou-se numa 'intenção política', a qual, não me admiro nada, ainda poderá ser totalmente revertida. E convenhamos, as gentes de Lisboa insurgiram-se porque no fundo, lá bem no fundo, não estão dispostos a abdicar do velho princípio de que 'Portugal é Lisboa e o resto é paisagem'.

Claro que a transferência do Infarmed acarretaria custos. Mas há que assumir a opção política de efetuar essa deslocalização tendo em conta o superior interesse da 'desconcentração', que se impõe. Dar prevalência aos 'custos' associados será sempre o argumento para evitar que qualquer outra região do país, que não seja a capital, possa beneficiar da instalação de uma entidade de referência, com a visibilidade e a criação de emprego daí resultante.

No fim, como de costume, as coisas ficarão na mesma, com o Infarmed em Lisboa, uma sucursal no Porto, para justificar toda esta celeuma. E ficam as comadres contentes. Um país tão pequeno e uma mentalidade dominante tão tacanha, que cria barreiras ao desenvolvimento e à coesão. E o desnorte continua.

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