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José Manuel Cruz

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Os últimos dias ficaram marcados por uma licitação negreira de força de trabalho e do que mais possa dar nas ganas de quem arremata uma criatura na plenitude das suas forças e atractivos. A transacção teria como cenário uma terra sem rei nem lei, salvo a do mais forte, a daquele que dispara primeiro e com a arma de superior letalidade. O acto de compra e venda tem actores evidentes e claro contexto. Outros tem, também, ocultos, adiantando inquirir, em consequência, quem destruiu a Líbia e a quem aproveita o actual estado de coisas?
Inclinado a pensar a 180º, dou de barato que o primeiro dos destruidores da Líbia teria sido o próprio Gaddafi, mas não é ao falecido que hoje podemos assacar o que de então para cá se passou. Admito que o vulgar cidadão europeu não propenda para a indagação do «quem é quem» no cartel que decidiu arrumar com o senhor absoluto da Líbia, e, mesmo que pretendesse fazê-lo, acabaria por não conseguir levar a empreitada até final. Outro empenho, porém, seria de esperar de organizações internacionais e supranacionais.
Muitas contas temos nós a pedir à Democracia, à santíssima forma de pensar e de fazer à moda do ocidente culto. Diante de brilhantíssimo e ofuscante espelho, escudados nas nossas bondosas mentiras, encontramos lata para intervir no Iraque, para levar uma mensagem de paz e progresso ao Afeganistão, mais recentemente à Síria. Permito-me recuperar a visão panorâmica, em grande cinemascope, para afirmar que, em qualquer um destes cantinhos, haveria sujeira a necessitar de barrela, mas não consta que as casas estejam hoje melhor arrumadas. E assim nos perguntamos: estarão já consolados, aqueles que geraram a confusão perdurante? Não terão outras missões civilizacionais em calha? Não há uma Europa que se vai ferindo de morte, a par e passo, em fundo de aleluias jubilosos a um liberalismo canibal?
Permitam-me que salte do drama pungente para a farsa. Estes mesmos dias, a Société Générale, entidade financeira multinacional, fechou sem mais nem menos as contas do Front National. Já nestas páginas tenho falado deste partido político francês, dito fascista, por conveniências de etiqueta demoníaca. Por peneiras ou não, por populismo ou não, o Front National é abertamente antimonopolista, seriamente anti Bruxelas e anti Estrasburgo, anti CETA, anti TTIP; no presente antiglifosatos, e prepara um projecto de lei, que não passará, no sentido de que o gigante Monsanto seja declarado «empresa criminosa». Definir uma força política pela negativa é pouco. Não me sobra espaço para o exercício contrário. Limito-me a recordar que a líder desta força política recolheu mais de dez milhões de votos na recente eleição presidencial.
Que eu saiba, os assuntos não estão ligados, isto é, o neoesclavagismo, e o posso, quero e mando do capital estratosférico, mas nunca se sabe quem joga golfe com quem, quem troca sorrisos com quem em Davos e nos pequenos-almoços do G7. Não serão aves da mesma pena, uns e outros. Vale dizer, um negreiro do presente poderá não saber quem é que acaba por favorecer em última instância, porém, o que podemos dar por esclarecido, é que a mão-de-obra de desconto, a valores de black friday, só dá jeito a quem se está a borrifar para todos aqueles com quem jamais se cruza de olhar aberto. E se tiver de haver guerras, que as haja, que mais fácil se torna obter acesso a espólio de museus, a património que depois se perde por séculos em palacetes de várias centenas de hectares de bosques em redor.
O povo cru poderá não querer saber quem esfrega as mãos perante as tragédias, mas os grandes árbitros da humanidade não se podem permitir a esse virar a cara. Seria assim tão mais caro, tão mais arriscado, intervir no entorno do Lago Chade? Seria assim tão mais desprovido de sentido, fazer tudo e um pouco além, para proporcionar condições de segurança e prosperidade a milhões e milhões de pessoas que demandam a Europa em busca de um futuro - de um presente (!) - que não têm onde nasceram?
Custa-me ver o Guterres, que tão unanimemente foi eleito, enredado neste imbróglio. Faltar-lhe-á a língua para chamar os bois pelos nomes? Diz-se que a diplomacia é a arte do possível, do compromisso, no entanto, quando o encontro de partes se afigura de todo uma miragem, o melhor mesmo é mudar de paradigma e sair em grande, de preferência com estrondo.
Pode dar-se o caso de ser a única forma de sacudir o torpor, de abanar consciências, de fazer nascer uma nova mentalidade. Como está, como vai, é uma maria-vai-com-as-outras de discurso papal.

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