Luto

Escreve quem sabe

autor

Ana Paula Silva

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O luto é necessário e fundamental para preencher o vazio deixado por uma perda significativa. Este artigo vai-se focar na morte de alguém significativo.
O luto é um processo que se inicia com a morte e desenrola-se até à sua superação efetiva, requerendo tempo que deve ser respeitado. Apesar de sermos diferentes, a forma como vivenciamos o luto é muito semelhante, no entanto pode-se afirmar que a maioria das pessoas leva à volta de dois anos para completar o processo.

Existem várias teorias sobre as fases do luto que ajudam a entender o que a pessoa poderá estar a sentir. A teoria mais conhecida é de Elizabeth Kubler Ross, que indicou cinco fases na evolução da maturidade de lidar com a morte. Estas fases não são iguais para todos, não ocorrem de modo linear, não têm um tempo predefinido e dependem da perda e da pessoa.

1ª Negação e Choque - Não acreditar na ocorrência da perda (a dor seria tão grande, que a perda não pode ser real). Este período protege de emoções que se surgissem em simultâneo seriam avassaladoras. Negar é usar recursos para afastar a dor diante da perda (ex: verbalizar que “estou bem”, contar e recontar o que aconteceu, agir como se nada tivesse acontecido e agarrar-se ao trabalho). Em geral, esta fase não persiste por muito tempo.

2ª Raiva - Surge o pensamento de “Porquê a mim?” e sentimentos de inveja, revolta e ressentimento. As palavras de conforto soam a falso. É comum procurar um responsável pela dor (o próprio, os outros e a pessoa que morreu), ocorrendo a oscilação entre sentimentos de raiva e culpa por não aceitar a impotência diante da morte. Nesta fase pode ser um alívio admitir a raiva.

3ª Negociação - Quando se começa a pôr a hipótese da perda e perante isso, negoceia-se a maioria das vezes com Deus, para que esta não seja verdade. A negociação é outra forma de negação e continua-se a não abrir mão do controlo, tal como nas fases anteriores.

4ª Depressão - Tomada de consciência que a perda é inevitável e imutável. Experiencia-se muita tristeza ou uma dormência emocional, podendo ocorrer apatia e isolamento social, que são reações naturais à perda.

5ª Aceitação - Mudança de perspetiva e preenchimento do vazio. Ainda ocorre tristeza ou saudades, mas volta-se a pensar no futuro. A consciencialização da perda e da necessidade de reestruturar a vida, corresponde à superação da ausência. Superar não é esquecer, mas aceitar e continuar a viver.

O período mais longo ocorre na fase da depressão. Quando há uma fixação numa das fases, pode desenvolver-se o luto patológico. A pessoa vive com maior intensidade os sintomas do luto, prolongando-os no tempo e existindo complicações efetivas na vida. Nestes casos, deve-se recorrer à psicoterapia para expressar emoções e verbalizar pensamentos, elaborando estratégias e mecanismos internos que permitam a evolução.

Antes dos três/quatro anos as crianças não compreendem o significado da morte, mas podem sentir a perda da mesma forma que os adultos, porém as fases podem passar mais rapidamente. Em idade escolar podem experienciar o sentimento da culpa mais intensamente e sentirem-se responsáveis pela morte. O luto inibido pode acontecer com as crianças que não conseguem colocar em palavras os seus sentimentos, sendo ignorada a sua dor pelos adultos por acharem que elas não entendem. Os jovens podem não expressar a sua dor, com medo de preocupar e aumentar a dor dos adultos.

Muitas vezes a impaciência e pressão da sociedade resulta numa vivência solitária e em silêncio do luto, à repressão emocional ou ao abandono do processo. O perigo é a permanência prolongada num estado de depressão não consciente. A dor é para ser vivida e superada, nunca ignorada ou negligenciada.

Ao longo do processo de luto devemos partilhar sentimentos e pensamentos, apesar do isolamento ser necessário, pois é uma forma da pessoa entrar em contato consigo própria. O apoio familiar e social é importante (não tanto pelas palavras de conforto, que por vezes criam irritabilidade na pessoa que sofre). Pode-se oferecer ajuda na manutenção da rotina doméstica, estar em silêncio e mostrar compreensão.

Os rituais coletivos da morte são importantes para a elaboração do luto. Alguns rituais individuais para aliviar a dor poderão ser escrever uma carta de despedida; quando estiver a sentir-se mal lembrar-se de uma característica positiva da pessoa que morreu; oferecer alguma coisa, feita pelo próprio.

No que diz respeito aos objetos pessoais entenda-se que são uma forma de manter a memória da pessoa viva até aceitar que já não se precisa deles para a substituir. É importante ter uma espécie de ritual para tirar de casa esses objetos (ficar com algo pode ser importante). Um quarto inteiro sem ser “arrumado” depois de um tempo não é saudável. A superação do luto inicia-se quando surge a internalização do vínculo com a pessoa que morreu.

Para processar o luto deve-se aceitar e compreender que ele é um processo natural que leva o seu tempo, não resistir à mudança, expressar emoções e sentimentos, estar rodeado de pessoas e reconstruir novos sentidos.

A dor, o sofrimento e os transtornos que acompanham o luto não são “anormais”, mas existem certos sintomas em que a sua continuidade por tempo prolongado deve ser motivo de preocupação e poderá indiciar a necessidade de consultar um profissional. O fator tempo é um aliado no processo de luto, mas é necessário realizar uma série de tarefas para ultrapassar a dor.

“Apenas as pessoas capazes de amar intensamente podem sofrer uma grande dor, mas esta mesma necessidade de amar serve para combater seus lutos e as curas.”
Leo Tolstói

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