A Tropa para controlar as Mulheres da Póvoa de Lanhoso

Ideias

autor

Joaquim Gomes

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É habitual ouvirmos falar da valentia das mulheres da Póvoa de Lanhoso. Este epíteto advém das revoltas, que ali ocorrerem, a propósito da proibição de sepultar os defuntos no interior das igrejas, em consequência do decreto de 21 de setembro de 1835.
Esta deliberação regulava a construção de cemitérios públicos, construídos em terrenos exteriores à igreja paroquial, e obrigava a que o delegado de saúde certificasse o óbito. Os populares teriam que custear as despesas do funeral e no decreto previa-se, ainda, pesadas penas aos párocos que prevaricassem esta decisão.
Foram vários os protestos que tinham por finalidade a anulação dessa deliberação, sendo que um desses episódios ocorreu na nossa região, a 21 de março de 1846, a propósito do falecimento de Custódia Teresa, de Fontarcada (concelho da Póvoa de Lanhoso). Os populares então não autorizaram o comissário de saúde a comprovar o óbito da idosa e, sem complexos, espancaram-no!
Desde então, um pouco por todo o Minho, ocorreram manifestações populares contra os enterros no exterior das igrejas. Na Póvoa de Lanhoso, em particular, esta forma fervorosa de manter as tradições religiosas manteve-se durante as décadas seguintes, ocorrendo com frequência protestos por parte dos populares.
Uma dessas ocorrências, bem tumultuosa, aconteceu em 1891, mais de meio século após os decretos de 1835, da autoria de Rodrigo da Fonseca Magalhães, e no ano seguinte às instruções de 1890, que determinavam que os cemitérios fossem protegidos por um muro de, pelo menos, 2,20 metros de altura!
Na dianteira destas insurreições estavam sempre as mulheres desta terra, por se entender que estas eram social e fisicamente mais vulneráveis que os homens e, por essa razão, as autoridades policiais teriam mais contenção no momento em que decidissem usar a força.
Assim, em maio de 1891, a indignação tomou conta da população quando, após o falecimento de uma criança, surgiram boatos de que iria ser sepultada no cemitério. Estas suspeições chegaram ao conhecimento das autoridades administrativas que, precavendo-se, requisitaram a presença dos soldados. Neste contexto, seguiram para a Póvoa de Lanhoso 46 praças, liderados pelo capitão Marques, que se encontravam no quartel de Infantaria 8, em Braga!
A revolta popular era de tal ordem que, sempre que ocorria um óbito, a confusão instalava-se em Fontarcada. Segundo o jornal “Commercio do Minho”, de 2 de junho de 1891, na tarde do dia 28 de maio o “povo sepultou tumultuariamente (…) o cadáver d’uma mulher no adro da egreja de Font’Arcada”. De seguida, a autoridade administrativa ordenou que “o cadáver fosse exhumado, a fim de ser enterrado no cemitério publico”. Depois de efetuada a respetiva exumação da mulher que havia sido sepultada no adro da igreja, o cadáver foi “levado para o cemitério, acompanhado da tropa. Junto da “egreja de Font’Acada houve gritos e algumas pedradas…”.
O receio de revoltas populares levou a que a força militar do quartel de Infantaria 8 permanecesse durante cerca de duas semanas, junto ao cemitério, dissuadindo, desta forma, os populares de voltarem a mover o cadáver, já sepultado no cemitério público.
Por outro lado, os habitantes de Fontarcada exigiam a construção de um cemitério mais próximo da igreja local, uma vez que o existente estava situado a cerca de seis quilómetros, o que implicava um longo percurso fúnebre, que tinha de percorrer estradas em terra, com muita poeira durante o tempo quente e muita lama durante o frio e a chuva. Além disso, muitas famílias não tinham forma de efetuar o pagamento das despesas do funeral.
Neste período, porém, a presença dos militares causava uma constante revolta popular, tal como comprova o episódio que ocorreu no dia 11 de junho desse ano, quando um popular insurgiu-se e agrediu um soldado presente em Fontarcada, rasgando-lhe a farda que trazia vestida!
As manifestações populares, lideradas pelas mulheres, eram constantes nesta localidade. A persistência e tenacidade com que se manifestavam chegaram mesmo a provocar a substituição do administrador do concelho da Póvoa de Lanhoso, celebrada numa festa rija, a 14 de julho de 1891. A festa popular incluiu música e foguetório, tudo em honra de João José Simões Veloso de Almeida, o administrador interino desta vila, que não obrigou a que as pessoas falecidas, nesta freguesia, fossem sepultadas no cemitério público!
A célebre Marilyn Monroe disse, em meados do século XX, que as “mulheres comportadas, raramente fazem história”. O mesmo pode dizer-se das mulheres da Póvoa de Lanhoso pelo papel que desempenharam, no século XIX, e que as eternizou na história do nosso país!

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