Patrono da Biblioteca

Voz às Bibliotecas

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Aida Alves

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Um patrono era entendido na antiga Roma, como sendo um cidadão nobre, rico e poderoso, ligado a outras pessoas, de condição inferior, que protegia e ajudava, em troca de alguns serviços. Tal designação, com algumas óbvias modificações, pode ser estendida aos dias de hoje e tais figuras continuam a existir, ainda que sobre designações diferentes. Hoje, na nossa crónica quero refletir e partilhar convosco o conceito de patrono reflectido nas bibliotecas.

Preservar a história e homenagear aqueles que contribuíram de forma positiva para a educação, a cultura, ação social, a ciência, ou qualquer outra área do conhecimento, com grandes exemplos de participação e envolvimento com a sociedade, exaltando as identidades locais, em dinâmicas de interação com o mundo, é também uma responsabilidade e missão das bibliotecas.

É igualmente uma responsabilidade do poder local ou central, para equipamentos de interesse público, ruas, praças, entre outros. Incidimos no conceito de toponímia (do grego topos, lugar, e onyma, nome, e consiste no estudo linguístico da origem dos nomes dos lugares e localidades.). Perpetuar a memória de um individuo com o seu percurso individual em prol da dimensão coletiva é o valor mais alto e perene.

Exemplos como as Bibliotecas da Póvoa de Varzim, onde foi exaltado o cientista poveiro Rocha Peixoto (1866-1909), arqueólogo e etnólogo; a Bi- blioteca de Amares com o nome do Francisco Sá de Miranda (1481-1558), poeta português, introdutor do soneto e do Dolce Stil Nuovo na nossa língua; a Biblioteca de Vila Verde que homenageou o trabalho do Professor Machado Vilela (1871-1959), juiz, deputado e autor de livros de ação jurídica; Vila Nova de Famalicão, que recebeu o nome do escritor Camilo Castelo Branco (1825-1890), escritor português, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor; a Biblioteca de Esposende designada Manuel Boaventura (1885-1973), escritor que avançou que «O Povo é mestre de ficcionistas!» In «Contos que o povo conta», 1961, citando que «Quem faz o dicionário de uma língua é o Povo. (...) In «Vocabulário Minhoto: Subsídios para o léxico português», 1916.

A Biblioteca de Leitura Pública de Braga, à qual a Universidade do Minho e o Município de Braga atribuíram o nome de Lúcio Craveiro da Silva (1914-2007), Reitor da Universidade do Minho, destacando-se nos estudos da História da Filosofia e da Cultura Portuguesa. Lúcio Craveiro da Silva completaria a 27 de novembro de 2017, 103 anos. A sua vida e obra pode ser consultada em http://www.blcs.pt/portal/lcs/index.html.

É apanágio das bibliotecas, por serem centro do saber e da cultura, homenagearem os seus pares, especialmente aqueles que se dedicaram à cultura, à ciência, e a tantas outras áreas do conhecimento. Homenageiam aqueles que, por terem sido grandes, tornaram grandes aqueles que os rodeavam, engrandecendo igualmente as localidades onde viviam e as instituições que serviam. O berço de nascimento ou simplesmente o local onde viveram a sua vida adulta e desenvolveram a sua actividade mais marcante guarda indelevelmente a sua presença e ajuda a preservar a sua memória.

Assim acontece também com as bibliotecas. Mas esta adopção de um patrono não é algo passivo, algo que serve apenas para que o nome de uma determinada personalidade seja repetido. É dever da instituição homenageada com o nome de um patrono, enaltecer a sua memória, fazê-lo viver de forma dinâmica, divulgando a sua obra, e perpetuando a sua presença na sociedade. Manter vivo o conhecimento destas entidades é uma nobre missão, mas os benefícios são simbióticos.

Ao mesmo tempo que se perpetua a memória e se estende às gerações futuras a vida e obra de determinadas personalidades, também as instituições são apadrinhadas e beneficiam do manto protector da influência de uma figura importante. Há até uma componente afetiva que se desenvolve: no caso da biblioteca que dirijo, é frequente ouvir os jovens tratá-la simplesmente pela “Lúcio”.

É esta familiaridade, esta interiorização íntima de figuras que podiam ser distantes e estarem esquecidas, que faz com que tais personalidades continuam vivas no seio das nossas comunidades. A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva perpetuará para sempre a postura do seu patrono, de homem de braços abertos à cultura, ao conhecimento, promotor de parcerias entre distintos agentes culturais, do ensino, educação e formação. Na cultura todos somos parceiros e agentes do conhecimento. Por isso, viva aos patronos e bem-haja a quem a eles liga para todo o sempre a sua ação e valor.

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