Ainda as autárquicas

Ideias

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Jorge Cruz

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Não direi que existe uma névoa, asserção que ninguém corroboraria, mas que se sente um ar pesado, um ambiente carregado de poeira, lá isso afigurar-se-me indesmentível. E na origem mais próxima dessa atmosfera densa, por vezes de cortar à faca, estão os resultados das autárquicas do início deste mês.
Como seria fácil adivinhar, os primeiros sintomas alérgicos foram sentidos em Lisboa, para as bandas da S. Caetano à Lapa mas acabaram por se transmitir, qual virose, à Soeiro Pereira Gomes, a pouca distância.

Não eram precisos grandes estudos de consultores para prever a hecatombe do PSD nas duas principais cidades portuguesas. Também sem grandes dificuldades, apenas com um pouco de atenção ao pulsar dos eleitores, se antecipava um desastre eleitoral no país.
Eu sei que uma coisa são eleições autárquicas e outra são as legislativas. Mas também não ignoro que há situações que, para o bem e para o mal, inquinam os resultados.

Ora, o bom momento que o país atravessa tem resultado em francas melhorias das condições de vida dos portugueses e ninguém ignora que essa situação se deve à rejeição das políticas que a coligação de direita impôs durante o seu mandato. Como também não ignora que o principal artífice dessas políticas penalizadoras, Passos Coelho, continua a ser adepto e a insistir nos mesmos conceitos.

O senhor que se segue no PSD, seja ele Rui Rio (que amanhã anuncia formalmente a sua candidatura), seja Santana Lopes (que garantiu estar a preparar o programa), tem pela frente uma tarefa não direi hercúlea mas bastante difícil. Desde logo, a unificar as “tropas” em torno de um projecto que, a respeitar a matriz fundacional do partido de Sá Carneiro, repudiará e recusará a deriva liberal tão do agrado da equipa dirigente que agora sai pela porta pequena. Veremos se as tais lapas de que falava Santana Lopes se afastarão ou se ficam agarradas ao novo poder…

Para já, constata-se que o calculismo político arrumou com Luís Montenegro e com Paulo Rangel. Ambos sabem que o momento não será o mais adequado, que as condições políticas não são favoráveis, e que ganhar o partido nesta altura também não será tarefa fácil. Optaram, assim, por não ir a jogo mas para o eurodeputado essa decisão poderá comprometer irremediavelmente as suas aspirações porque se arrisca a perder de vez o comboio do poder…

Já a derrota eleitoral sofrida pela CDU pode elevar consideravelmente a temperatura política nos tempos mais próximos o que, aliás, e olhando para o calendário, se afigura mais que provável. As negociações e consequente aprovação do Orçamento de Estado para 2018 serão, indubitavelmente, os primeiros grandes testes pós-eleitorais mas não serão os únicos.

Existem ameaças e confirmações de greves, aproxima-se a negociação de acordos para a governabilidade de algumas autarquias e aguarda-se com particular expectativa um relatório que tarda em aparecer mas que se adivinha será tudo menos pacífico. Embora um tanto ou quanto irrelevante, ainda teremos as ondas de um partido que finalmente matou o pai e, por via disso, começou a levantar a crista julgando que já tem a força eleitoral que está muito longe de possuir.

A grande dúvida, portanto, será a posição do partido de Jerónimo de Sousa, isto é, saber-se se o líder comunista vai continuar a culpar os ataques do PS e, numa escala menor, do BE pelo insucesso da CDU ou se, pelo contrário, vai assumir responsabilidades pelos resultados.
Se o PCP não souber ou não quiser assumir as responsabilidades que lhe cabem nos resultados, quer no plano autárquico quer no nacional, portanto para o mal e para o bem, então os próximos poderão ser tempos de instabilidade. Serão tempos de instabilidade social que, eventualmente, se poderão estender ao plano político. Mas que não haja ilusões: se o caminho for esse, se os comunistas não tiverem aprendido nada com o seu insucesso eleitoral, quem mais perderá será o próprio PCP.

Mudando de agulha, em Braga, curiosamente, ou talvez nem tanto, os resultados foram bem diferentes dos nacionais: uma estrondosa derrota do PS (em linha com o que sucedeu no distrito), mostrando que afinal ainda não tinha batido no fundo há quatro anos, e uma retumbante vitória da coligação de direita, que conseguiu eleger o sétimo vereador e ofereceu ao PSD o seu melhor resultado.

Creio que a notória impreparação do candidato socialista, que denotou enormes dificuldades de comunicação, desde logo porque não conseguiu estruturar a mensagem a passar, não terá sido a causa nuclear dos péssimos resultados. De certa forma e para além da sua inépcia, ele também foi vítima de lutas internas no seu partido.

Sabe-se, efectivamente, que o líder distrital (onde anda Joaquim Barreto, que ainda não veio a público assumir qualquer responsabilidade?) perdeu apoios de peso em Lisboa sendo já considerado uma carta fora do baralho. Por outro lado, a rebeldia da concelhia de Braga, que recusou um candidato sugerido pela capital, também terá tido consequências na campanha, designadamente ao nível dos apoios financeiros (que não houve) e da ausência de grandes figuras nacionais (António Costa esteve em Amares, Vila Verde, Póvoa de Lanhoso e Fafe). Neste cenário, creio que a balcanização da concelhia de Braga, que abrandou consideravelmente mas ainda subsiste, pouco pesou nos resultados.

Como quer que seja, creio que é chegada a hora de começar a trabalhar nos caboucos da estratégia política que vise a recuperação da confiança dos eleitores bracarenses. E essa estratégia terá de passar, necessariamente, pela pacificação interna e pela abertura do partido à sociedade em ordem a recolher contributos que possam enformar um verdadeiro projecto político para a cidade em que todos os bracarenses querem viver. Lamentavelmente, até agora muito pouco se tem discutido sobre a cidade que queremos daqui por 15/20 anos. E, neste particular, manda a verdade que se diga que a culpa não é exclusivamente do Partido Socialista.

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