A ‘ciclovia’ da encosta

Ideias

autor

Jorge Cruz

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A sede da União de Freguesias de Nogueiró e Tenões acolheu, no final de Agosto, uma sessão informativa sobre a reformulação da chamada ciclovia da variante da encosta, também popularizada como ciclovia de Lamaçães. Segundo os promotores, a reunião destinava-se a divulgar a moradores e comerciantes, também aos utilizadores das artérias em causa, os planos e detalhes do projecto municipal, elaborado por uma empresa de consultoria.

O ‘timing’ escolhido para a sessão suscita, desde logo, alguma apreensão e até uma certa desconfiança. Isto porque é consabido que Agosto será porventura o mês menos aconselhável para promover uma reunião deste género, um encontro que se desejaria amplamente participado pela população, designadamente aquela a quem o assunto mais interessará. Obviamente que marcar no mês tradicional de férias de uma boa parte das pessoas contraria a tão apregoada transparência com que frequentemente se enche a boca, porque condiciona a desejável participação democrática cidadã num projecto que interessa aos utentes da futura ciclovia, comerciantes e moradores da zona. Aliás, o facto de a assistência não ter chegado às duas dezenas de munícipes patenteia bem a inoportunidade da data escolhida.

Mas os motivos de apreensão não se esgotam na questão da data inapropriada. Em relação ao conteúdo da sessão, notou-se que a informação disponibilizada para conhecimento público, embora abundante, estava incompleta faltando-lhe, nomeadamente, a memória descritiva que é, como se sabe, uma peça fundamental para a cabal compreensão do projecto.

Por outro lado, mais do que auscultação, como convinha, tratou-se de comunicação unidireccional. E haveria (há) tanta coisa para dizer, tantas achegas para dar de modo a satisfazer, tanto quanto possível, os múltiplos interesses em presença e, dessa forma, limitar ao mínimo a conflitualidade. Questões que têm a ver com as velocidades praticadas numa via que não sendo rápida apresenta esse perfil, com as zonas de estacionamento e as de cargas e descargas, com as dimensões e operacionalidade dos passeios para peões, enfim, um conjunto de temas que têm de ser considerados em conjunto com as premissas técnicas de um projecto deste tipo.

Se conjugarmos estes acontecimentos com o facto de não ter existido, nos últimos quatro anos, qualquer inflexão à postura municipal relativamente a esta infraestrutura, é natural que o cepticismo se aposse das pessoas, porquanto será difícil ignorar que a sessão em apreço aconteceu a cerca de um mês das eleições autárquicas. Convenhamos que nestas circunstâncias acreditar em coincidências torna-se um exercício extraordinariamente penoso…

Tanto mais que, e como é natural, nestes períodos mais ou menos agitados vem sempre à memória o longo rol de críticas, absolutamente justas, deve dizer-se em abono da verdade, que o então vereador da oposição Ricardo Rio fazia àquela infraestrutura injustamente denominada de ciclovia. Clamava-se, e com inteira razão, que aquilo era perigoso, que não tinha condições para funcionar, que seria imperioso intervir com a máxima urgência antes que sucedessem acidentes mais graves do que aqueles que até então se tinham registado.

Mas a verdade é que entretanto a situação se foi agravando perigosamente, não apenas pelo abandono a que a “ciclovia” continuou a ser votada, mas ainda pelo facto de terem sido implementados, obviamente com autorização municipal, novos pontos de conflito ao longo do seu percurso. Curiosamente, nunca se ouviu uma palavra, uma simples lamúria que fosse, de qualquer responsável autárquico - do município ou de qualquer uma das duas uniões de freguesias que ela atravessa...

Ignoro, obviamente, se o projecto agora divulgado, que preconiza a construção de duas pistas paralelas, uma para ciclistas e outra para peões - como deveria ser e, de resto, já acontece ao longo do rio Este -, algum dia saltará do papel para o terreno. O que me parece óbvio é que chamar ciclovia, neste momento e com as actuais condições, àquela coisa terceiro-mundista que existe na variante da encosta não configura apenas publicidade enganosa - é uma irresponsabilidade quase criminosa. E é tanto mais grave quanto é certo existir nas proximidades, junto ao rio Este, uma verdadeira via pedonal e ciclável, essa sim, com condições de segurança, aliás como tem sido amplamente propagandeado, a qual poderia de momento ser apontada como alternativa.

Em tempo e, de certa forma, a propósito: colocar lombas redutoras de velocidade em vias que atravessam zonas habitacionais pode ser uma medida interessante. Mas existem regras e, inclusive, a própria Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária produziu uma nota técnica que rege a sua instalação, sinalização e manutenção. Colocar esses obstáculos sem cumprir as regras, como acontece na rua Manuel Ferreira Gomes, curiosamente nas “barbas” da residência do vereador responsável pelo trânsito, é que não deveria acontecer. Obviamente que os autores desta tropelia podem e devem vir a ser responsabilizados por eventuais danos.

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