Vidas suspensas

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Manuel C. Correia

Os primeiros raios de sol entram discretos pelos pequenos orifícios dos estores. “Meu amor trouxe-te o pequeno-almoço!” Deitada na cama, um sol desperta. O sorriso de quem desperta com uma surpresa destas, é maior do que mil sois prontos a explodirem, tal é o brilho da felicidade!
Sobre os lençóis de seda dois corpos foram deslisando um para o outro. O mundo era perfeito, tudo era perfeito. Todos os sentidos usados e processados numa troca de fluidos intensos e de cumplicidade. Por fim uma explosão de sentidos, quebrada com uma sonolência relaxante.
A rotina do quotidiano quando nos acomodámos pode ser um veneno na nossa alma, no casamento. Teresa vivia um conto de fadas, o mundo girava na perfeição. Tinha três filhos e um marido que a tratava como uma rainha. Cada dia era uma dádiva dos Deuses, a alegria reinava na sua casa. A família da parte dela era extensa e quando havia uma festa de aniversário, Natal, Pascoa, tudo que era festa era sinonimo de ajuntamento familiar, e o resultado era um fartote de boa disposição. O marido gostava da pesca e fazia questão que ela o acompanhasse, ela não gostava muito mas lá ia com a lata das minhocas percorrendo a margem do rio, e aproveitava para admirar a calma das águas cristalinas, como se apenas a água corresse para o mar, e o tempo não existisse na forma de dimensão absoluta. Ali estava coberta de felicidade iluminada pela luz de um sol distante!
Um sonho emergido das entranhas do subconsciente faz as delícias de Teresa, e quando acorda dá um abraço e um beijo intenso no seu marido, mas ele não partilhava o mesmo sonho, uma forte dor de cabeça perturbava-o intensamente! Teresa como mulher dedicada foi buscar um comprimido de paracetamol e ele tomou-o sem hesitar. Acabou por adormecer. Foi uma dor de cabeça normal como tantas outras, pensou ela em quanto fazia as lidas de casa. Chegou a hora do almoço e Teresa foi chamar o seu amado que, estava sentado na beira da cama com as duas mãos agarrar a cabeça, a dor apenas o deixou por instantes, e, agora voltou com mais intensidade. O almoço acabou por ser uma passagem dos pratos pela mesa, pois ele não tinha apetite a dor era irritante, e ela perdeu o apetite ao ver o seu marido naquele estado, os miúdos comeram normalmente. Acabaram por ir a uma urgência ao hospital! Após uma longa espera, finalmente a consulta! Então o que o trás por cá? Perguntou o médico, que teria 50 anos, e tinha uma voz calma, denotando sabedoria e experiência. Senhor Doutor o meu marido tem uma dor de cabeça que não aguenta, até parece que a cabeça vai explodir! Respondeu Teresa com as lágrimas a caírem pelo rosto, como se fosse um rio de águas salgadas. O médico acalmou-a e examinou o paciente ao pormenor, e de pronto pediu para fazer um taque ao cérebro, para ter a certeza do seu prognóstico. Teresa acompanhou o seu marido até à sala do exame e ficou à espera sentada, envolvida em pensamentos que a transtornava a todo o momento, de tal modo que começou a sentir uma ligeira dor de cabeça.
De volta ao consultório médico, o ultimo teste, fechar os olhos e esticar os braços fazendo chegar o dedo indicador ao nariz. O dedo indicador da mão direita tocou na ponta do nariz na perfeição, o dedo indicador da mão esquerda nos olhos, batia na boca, tal a descoordenação! O médico pediu ao paciente que fosse para a sala de espera descansar um pouco e continuou a consulta com a Teresa. O seu marido é um jovem, como a senhora, vamos ver o que podemos fazer pelo seu marido. Suavemente o médico ia dando conhecimento do verdadeiro problema do marido de Teresa, mas ela estava impaciente e perguntou, E o que é que tem o meu marido Senhor Doutor? Tenha calma vamos ver o que se pode fazer, mas o prognóstico não é o melhor. Fez-se um silêncio aterrador que até se ouvia o coração de Teresa a bater! As palavras saíam a conta-gotas, a boca do médico era o ponto de concentração de Teresa, e por fim gota a gota o silêncio foi invadido pela pior das palavras: temor cerebral! O seu marido tem um temor cerebral, que a princípio pelo taque não é possível operar! O mundo perfeito, belo, tinha acabado de desabar na cabeça daquela mulher que por momentos ficou sem palavras, estática!
Após vários exames com o mesmo resultado, e devido ao tipo de temor e localização, não havia nada a fazer! Apenas tomar fármacos para atrasar a evolução e tirar a dor! Viver com o fardo da doença incurável, perder qualidade de vida dia após dia. Nos primeiros anos tudo parecia normal, as faculdades estavam intactas, com muitos momentos em que marido e mulher abraçados na sua intimidade, chegaram a pensar que tudo não passava de um erro de avaliação, mas quando aquela dor de cabeça voltava, caía a realidade com estrondo no seu mundo!
Quando a madeira é atacada pelo bicho, cada átomo é desagregado e a sua forma original é transfigurada, destruída. O bicho instalado no cérebro do marido de Teresa corroía-lhe lentamente todos os sentidos, devorando-o como se fosse uma presa fácil. Os dias passavam e Teresa sentia que o pior ainda havia de vir. A sua vida já não era uma vida comum, era um descontar de tempo fútil, de tristeza constante. O seu sorriso parecia de uma pessoa feliz, mas era o reflexo do seu passado distante, como o brilho de uma estrela que pode já estar morta.
Lentamente os dias foram passando. O mundo de Teresa já não era o mesmo, no seu pensamento moravam desertos de alegria, estados de revolta persistentes, perguntas que nenhum Deus lhe dava resposta! O seu marido dia após dia era arrastado para um estado vegetativo, e, ela impotente! Vivia uma vida suspensa, longe do prazer a dois, com partes do seu corpo em hibernação.
Na forja do pensamento de Teresa, existe uma bigorna com dois martelos, um para moldar uma nova vida e outro que a destrói todos os dias.

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