O primeiro beijo

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Luís Saragoça

A Anica Cotovia era uma garota espevitada, olhos claros e grandes, cabelos ondulados, vestido comprido e umas socas gastas, sempre nos pés, ritmavam o seu andar gracioso. Da mãe, guardava apenas uma breve lembrança, dos carinhos e dos beijos recebidos nos longos serões invernais.
O pai, João Cotovia, vergado pelos tropeços da vida, de pele tisnada pelo sol e temperada pelas geadas, aparentando mais idade do que na realidade tinha, fazia o que sabia e o melhor que podia para a encarreirar pelo caminho do saber.
As posses e haveres eram poucos, apenas uma horta e dois burros, já velhos, que, à falta de lameiros, tinham de desfechar os dentes nas pastagens e campos baldios. O seu suor e o dos asnos eram o ganha-pão e o sustento da casa.
A Anica, também já dava uma ajuda no orçamento familiar, com os seus braços franzinos, fazendo recados e lavando roupa, nas poças do ribeiro, para os ricaços da terra. Carôlo aqui, talhada acolá, …, e lá ia vivendo e penando.
Porta com porta vivia o Toninho Guedelhas, rapaz da mesma idade e companheiro de aventuras da Anica. Cabelo ruivo, sempre despenteado, olhos grandes e esverdeados e calças de cotim, sempre asseadas, davam-lhe um ar mais abastado. Os seus pais eram remediados: uma cortinha, dois lameiros, algumas leiras, uma boa junta de vacas e uma burra mirandesa, completavam os haveres da família.
Um dia, final de março, um dos asnos do pai da Anica, morto de fome, entulhou-se, pelos viçosos renovos do vizinho na cortinha da Maçaneira. Vai daí, vendo o dono distraído com outros afazeres, saltou a parede e, de olhos e dentes na verdura, tirou a barriga de misérias. Às tantas, azar dos azares, apareceu o Carrasqueira, pai do Toninho, e então é que foram elas…! Esqueceu amizades antigas e vizinhanças recentes e a discussão quase chegou a vias de facto. Palavras e impropérios voaram pelas encostas e vales da Maçaneira, e até a sachola no ar ameaçou a cabeça do Cotovia.
A partir desse dia, viraram as candeias às avessas. Os pais dos garotos, de amigos de peito, passaram a inimigos que não se podiam ver nem pintados.
Os garotos, por outro lado, permaneceram com as candeias às direitas e, se até aí não se separavam, continuaram ainda mais juntos, apesar das reprimendas dos progenitores.
Na escola, a professora, cumprindo ordens superiores, e imbuída de boas intenções, sentava os rapazes num lado e as raparigas no outro, mas mal virava costas já estavam lado a lado.
O Toninho, até bebia os ventos, era fino que nem um rato, para as contas e a tabuada. A Anica era mais dada às letras. Como dizia o progenitor: a minha rapariga não quer nada com a tabuada. Quando ia ao quadro, fazer as contas, era um terror e reguadas na certa. Até já tinha ensimesmado abandonar a escola, mas, …, não queria abandonar o amigo e companheiro.
O único material escolar da Anica era uma lousa, mil vezes escrita, mil vezes apagada, e um lápis de pedra, que preservava com todas as cautelas. O Toninho, mais sobrado, além desse material, também tinha um livro da classe e uma tabuada.
Depois das aulas, às escondidas dos pais, os garotos faziam e refaziam, na pedra, todos os deveres: cópias, redações e problemas de aritmética.
Num fim de tarde, igual a muitos outros, quando estavam a fazer os trabalhos de casa, o Toninho, já com a malandrice a querer despontar, com o seu sorriso matreiro, atreveu-se a dizer à amiga:
- Só te ensino as contas se me deres um beijo!
O seu coração saltitou, mas a Anica fez-se rogada. Eram apenas amigos e um beijo …
- Não e não! - Retrucou, determinada, com um brilho nos olhos que denunciavam o desejo de dizer sim.
O Toninho, embaraçado, limitou-se a lançar um olhar que pousou, distraidamente, nos olhos da amiga. Esta, envergonhada, desviou o seu olhar para o chão.
Passaram os dias gélidos do Natal, as tardes soalheiras do Entrudo e as manhãs ensolaradas da Páscoa.
O ano escolar aproximava-se, a passos largos, do fim. A professora preparava os pupilos para a prova de passagem de ano e os exercícios repetiam-se tarde após tarde, dia após dia. A Anica começou a apanhar o jeito à aritmética. Contas e tabuada começaram a espevitá-la. Até na caligrafia começou a ser a primeira da sala.
A tarde ainda estava para durar e os amigos, no caminho de regresso a casa, escolheram, para fazer os deveres impostos pela professora, as sombras recatadas do alpendre do tio Zé Frade. Sentaram-se, pegarem nas lousas e nos lápis de pedra, e o Toninho virando-se para a amiga, não resistindo ao seu desejo, insistiu:
- Só te ensino a fazer as contas, se me deixares dar-te um beijo!
- Não! Não e não! - Persistiu a Anica, com vontade de dizer sim.
A Anica mudou de cor e o coração palpitava-lhe cada vez mais forte. Sabia que o amigo a ensinava com beijo ou sem beijo e, apesar das negas repetidas, todos os deveres eram concluídos.
O cântaro vai tantas vezes à fonte que …
- Está bem, podes dar-me um beijo, mas só depois de me ensinares as contas.
O Toninho sorriu feliz e corou. A recompensa estava próxima.
A Anica até já sabia fazer as contas, tão bem ou melhor que o companheiro, mas deliciada, deixou-se levar pelas explicações do Toninho, pelo prazer de desfrutar do carinho com que o amigo lhe explicava os cálculos, e pediu-lhe:
- Oh Toninho! - Explica-me outra vez, como fazes a divisão com dois números.
O Toninho, com um olho na lousa e outro na Anica ia, com o lápis de pedra, escrevendo os números na lousa e a amiga repetia as operações aritméticas, até que …
- Já sei fazer! - Exclamou sorrindo para o companheiro.
Concluídas as explicações, o merecido prémio - um beijo na face da amiga.
A Anica, envergonhada, virou levemente a face na direção do Toninho. Este, de mansinho, encostou os húmidos beiços na bochecha rosada da amiga.
O Toninho, vermelho como um tomate, suspirou de alegria.
O seu coração voou e um enorme miudinho invadiu-lhe todo o corpo. A Anica sorriu e também o seu coração saltitou de alegria.
No dia seguinte, a Anica foi ao quadro corrigir os deveres, os seus e os dos colegas. Tudo certo. Até a professora lhe deu um louvor.
A partir de então, os companheiros tornaram-se mais cúmplices e uma amizade verdadeira acompanhou-os por muitos e muitos anos.

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