Estrelas ascendentes

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Ana Maria Monteiro

— A seguir vai o teu pai.
— Tu vê lá…
— Ok! Não falo em ti, mas ele é teu pai. - Ela estava divertidíssima.
— Não metas a minha mãe ao barulho.
— Havia de ser bonito! Nem sei porque lado lhe havia de pegar.
— Então não pegues.
— Pois, mas o teu pai… As boas pessoas têm pouco interesse.
Ele sorriu, conformado. Ela também, maliciosa. Sabia o que ele estava a pensar.
Mas ninguém é assim tão bom. E não se chega aos 45 anos sem esqueletos no armário.
Nem ele imagina…
Então não tem para contar? Se tem!
E o pai também. E muitas.
O pior é mesmo a mãe. Sobre essa é que não sabe o que dizer. A sogra ao pé deles é uma verdadeira “serial killer”. E não é por ser sogra, longe disso. É mesmo por ser quem é.
Embora também não seja má. Em muitos aspectos é até uma excelente pessoa. O pior são os “outros” aspectos, aqueles de que não se fala, aqueles que se escondem, aqueles que é para manter escondidos de tudo e de todos.
Ora vejamos; de que dispunha, então?
O pai dele, que foi por onde começou (o mais fraco de todos, mas foi a fraqueza que lhe deu força para saber ser Grande sendo pequeno); ele próprio, de quem não se pode falar (porque será? Querem que diga? Mas não diz, fica para a próxima…); a mãe dele... ui! A mãe dele. Dele e de mais três.
Avaliamos os pais pelos filhos ou os filhos pelos pais?
Não, não. Não digam que não o fazem. Fazemo-lo sempre. É um preconceito inevitável.
Continuando:
Pois é, os filhos são três. E que belos três. Se fossem filhos dela com certeza não resistia tão heroicamente como a mãe dele que lá arranja maneira de os engolir a todos. Embora, de preferência, um de cada vez que é para mexer melhor o refogado.
Mas se eles fossem filhos dela também não eram assim, é certo. Seriam quem são, mas doutra maneira. Afinal faz um bocadinho de sentido a tal avaliação genética, chamemos-lhe assim.
Mas sobre os outros dois ela não quer mesmo falar, são daquela espécie de maus que só produz histórias sem interesse nem graça nenhuma.
Volta ao pai. Faz-lhe a vontade. O que há para dizer? Nasceu pobre, teve uma infância difícil, casou, continuou pobre, teve quatro filhos, fartou-se de trabalhar, reformou-se com uma reforma de pobre e depois morreu.
Pronto. É melhor assim? Uma ponte entre dois nadas com três novas pontes pelo meio? E essas pontes? Deixarão algo mais que o próprio pai? Ou melhor: Fazem ao menos por isso?
Trilogia: filhos, todos tiveram; árvore plantada, talvez; livros? Dois deles, nem lê-los.
Por aí não vamos lá.
Ele. Está bem, não se fala dele. Dos outros dois também já ficou dito que não.
A mãe. Vejamos, a mãe… Nasceu pobre, teve uma infância difícil, casou, continuou pobre, teve três filhos, fartou-se de trabalhar, teve direito a uma reforma do estado ainda mais parca que a do marido, só que ainda não morreu. Também irá.
Outra ponte entre nada e coisa nenhuma.
E ela? E a que escreve? Nasceu remediada, teve uma infância difícil, casou, complicou tudo na vida que só por isso continuou a ser difícil, teve um filho (pouca produtividade), fartou-se de trabalhar, não se sabe se terá direito a reforma e muito menos se lá chegará.
É melhor que eles? Nem pensar!
Acha que sim? Talvez. Mas eles sentem o mesmo em relação a ela.
Mais uma ponte.
Reduzidos a esta ínfima dimensão que confina as nossas vidas não somos nada, ninguém o é.
Mas cada um de nós tem em si todo o tamanho do universo e todas as possibilidades.
Cada um de nós é gente de uma forma única, fundamental e irrepetível.
Insignificantes, somos grandes.
Grandes, somos pequenos.
Pequenos, somos incógnitos.
Incógnitos, somos importantes.
Importantes, somos mesquinhos.
Mesquinhos, temos sentimentos.
Sentimentais, sofremos.
Sofrendo, somos mortais.
Mortais, fazemos a diferença.
Diferentes, somos arbitrários.
Arbitrários, geramos o caos.
Caóticos, criamos a ordem.
Ordenados, vamos seguindo.
Seguindo, progredimos.
Progredindo, damos lugar ao futuro.
O futuro, esquecer-nos-á.
E nós, irremediavelmente sós porque indivíduos, somos cada um o próprio todo.
A verdadeira história do pai dele, ninguém jamais escreverá e nem o próprio o poderia ter feito.
O nosso autoconhecimento é claramente insuficiente para contar a história.
A visão dos outros pode ser mais lúcida, mas nunca chagará à camada mais profunda que dita o ser.
Terminemos então esta crónica com uma ideia bonita: a nossa história apenas fica escrita nas estrelas e cada um tem a sua. A do pai dele já brilha.

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