Clamores Populares

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Pontes Oliveira

Num antigamente não muito remoto, quando a seca e o calor secavam as fontes e os cursos de água e tudo o que era cultivado nos campos estiolava, colocando em risco a produção de bens essenciais como o milho, o centeio, a batata, o azeite e o vinho, produtos essenciais na alimentação das pessoas, bem como o pasto para o gado nos lameiros para a alimentação dos animais, era habitual o povo das comunidades locais, principalmente das vilas e das aldeias mais recônditas, recorrerem à prática de um velho ritual ligado à religião para rogar o auxílio divino, chamado clamor. O ritual era presidido pelos párocos de cada freguesia pertencentes à Santa Madre Igreja Católica Romana e tinha como finalidade implorar aos detentores de poderes divinos, Deus, Virgem Maria e Santos da preferência dos clamantes, a alteração do normal e natural funcionamento das leis da Natureza. Para isso imploravam que o sol abrasador e a seca que se mantinha nas suas terras fossem substituídos por chuva que atenuasse as temperaturas e trouxesse água às fontes, aos rios, aos ribeiros e aos regatos e regasse a terra ressequida dos campos agrícolas. Tecnicamente falando, o que os clamantes imploravam era a materialização do fenómeno meteorológico que se traduz na precipitação de água das nuvens.
Os clamores eram quase sempre realizados a pedido de devotos de fé límpida e inquebrantável mas também de devotos de fé confusa e insegura. Alguns párocos mais convictos e com sentido de missão aplaudiam a ideia, outros, duvidando intimamente do resultado do evento, criticavam-na em silêncio.

Realizado o clamor nas igrejas, nas capelas ou ao ar livre, se no decurso do mesmo ou alguns dias depois de terminado o milagre acontecia, ficando o belo céu azulado toldado por densas e cinzentas nuvens, e destas caía água sobre a terra ressequida, com abundância mas com regra, os devotos, todos os devotos participantes no evento rejubilavam de alegria e a sua fé crescia como leite ao lume. Mas se pelo contrário as preces dos clamantes não chegavam ao céu e o auxílio solicitado não aparecia, por este ou por aquele motivo e a seca se mantivesse agravando o estado de calamidade devido à falta de água, enquanto os devotos de fé mística inabalável, submissos, se resignavam aceitando humildemente os desígnios da entidade divina, os devotos de fé confusa, insegura e ruidosa, impacientes, queixavam-se intimamente e alguns até ousavam soltar imprecações e apóstrofes contra Deus, contra a Virgem e contra os santos por não terem atendido ao seu pedido numa hora de aflição.
Lembro-me de uma velha história que ouvi em criança sobre um clamor realizado numa aldeia do norte do país.
Dizia a história que se vivia num tempo em que a riqueza das pessoas era medida pelo número de metros ou hectares de terreno agrícola que possuíam, num tempo em que os proprietários das grandes quintas, ali pelos meses de abril e maio, ordenavam aos criados: “abri os portões, prendei os cães!”, e os homens aos portões, subservientes, de boina nas mãos, a pedir trabalho, faziam filas.

Já no final do outono, com as colheitas feitas e recolhidas, as cubas, as arcas e os espigueiros cheios, os donos das quintas ordenavam aos mesmos criados “Fechai os portões, soltai os cães”. Vivia-se num tempo em que o lavrador abastado, por menos de meia rasa de milho comprava a honra de uma mulher desesperada a mendigar alimento para um rebanho de filhos. Vivia-se num tempo em que os sinos das capelas e das igrejas não paravam de tocar a anunciar a morte de gente que morria de fome. Mas se o quadro para os pobres já era negro, para agravar ainda mais a situação e alargar o lote de atingidos, um longo período de seca extrema atingiu o país. A falta de água estiolava tudo nos campos cultivados, a produção agrícola iria cair a pique se não chovesse com urgência. Perante uma ameaça desta natureza, os proprietários de terras e os devotos católicos de uma aldeia decidiram realizar um clamor para implorar a proteção divina.
Iniciado o clamor, quase de imediato começou a chover copiosamente. Choveu, choveu a cântaros, como diz o povo. Tão a cântaros e com tal intensidade que mais parecia o dilúvio narrado na bíblia. E o resultado final não podia ser outro senão desastroso. Desastroso para os donos das quintas, desastroso para os devotos e para os não devotos, e principalmente para os pobres. A tromba de água acompanhada de ventos ciclónicos vindos do sul, de granizo do tamanho de amêndoas da páscoa e de intensos relâmpagos seguidos de medonho ribombar de trovões, assustou toda a gente de tal maneira que alguns levantaram as mãos ao céu a pedir clemência a todos os poderes divinos conhecidos, incluindo Santa Bárbara. Sem exagero, meia hora depois de ter começado a cair destemperada, a chuva e o vento já tinham mandado pelos ares telhados de casas, alagado os caminhos da aldeia, deitados por terra dezenas de muros, muretes e árvores. “Santo Deus, isto parece o fim do mundo”- gritava o velho Rocalva, caseiro de uma quinta e principal mentor da novena, um devoto de fé inabalável que, encharcado até à medula, de enxada nas mãos abria regos oblíquos num dos caminhos da aldeia. “Valha-nos Deus! Não me lembro de um temporal destes no mês de setembro. Bem se diz que os tempos andam trocados”. “Vocês são uns ingratos, compadre Rocalva” - ripostava o Manuel da Cova. “Não pediram a chuva? Pois então, ela aí está! Não entendo porque reclama!” E logo a seguir, ironizando: “Porque não fazem agora outra novena para acabar com a chuva? Façam-na, façam-na e não se esqueçam de pedir também a ajuda a Deus e dos santos para erguer os telhados que foram pelos ares, para levantar os muros que caíram e para reparar a calceta dos caminhos levantada.” “Não brinque, não brinque compadre Manel. O que está a acontecer é um desígnio da Providência, a vontade de Deus” — gritou alto para ser ouvido o velho Rocalva.”. “A vontade de Deus!?” - exclamou o Manuel da Cova. Ora essa, Deus não derruba telhados, nem muros, nem levanta a calceta dos caminhos” - ripostou o Manuel da Cova.
“Você não compreende…ou não quer compreender” — lamentou o velho Rocalva. “Que Deus lhe perdoe”.

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