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Graça Santos

O Amor, para se expressar, tem diversas formas e feitios, todos sabemos!
Conheço-o doce, colorido, meloso, picante, atrevido, arrebitado, vibrante, ... mas há dias reconheci-o, de forma inesperada, ternurento e sublime, num, homem tosco, tido, como um inválido, um ser na fronteira da sociedade hodierna.
António, zarolho (porque estrábico e míope), ainda mais - manco (porque coxeia, devido à diferença na altura das pernas), partiu da serra, ainda imberbe, para trabalhar na Capital. Até lá, e após a morte da mãe em tenra idade, havia sido acolhido por uma família de conterrâneos, também eles portadores de deficiência: mudos ou surdos-mudos, na sua maioria, sujos e ostracizados pela população local. Mas esse carinho vital, ainda que rude, ficou-lhe para sempre impregnado na alma com a marca profunda da gratidão.
Cada ano que passava, no seu mês de férias, regressava à terra natal para visitar o pai, a sua única família de sangue, e a sua outra família, a de acolhimento espontâneo, não institucional, visto que esta última forma de acolhimento não era conhecida no tempo nem no local de então.
Nas suas estadas de estio, brincava, ria, gracejava, convivia, jogava cartas, futebol... Mesmo depois de morto o pai, António visitava a terra. Vinha e trabalhava para ajudar a família de acolhimento nas lides árduas das colheitas. Nos tempos livres, divertia-se rodando por todas as romarias,... mas nunca se viu pegar uma moça ou que alguma o pegasse a ele. Por isso permaneceu solteiro e, ao que tudo indica, feliz e de bem consigo próprio.
De qualquer modo, o dever de cumprir as suas férias junto dos que o ampararam na infância, manteve-se inviolável para todo o sempre. E agora, ainda mais zarolho e coxo pelos ditames normais do envelhecimento, continua a vir visitar e a cuidar dos “seus”. Restam apenas dois: um pai e um filho mudo. Dois labregos, rudes, sós, sem mulheres, sem afagos, sem cuidados básicos. Depois que partiu a última das mulheres, os dois homens passaram a ter uma refeição diária distribuída pelos serviços de apoio ao domicílio, excepto quando está o António. Nessa altura, são tratados com o esmero possível para as magras condições locais, conforme se verá a seguir.
Quando chegou o novo Verão, com ele veio o António para as costumadas férias. António, o Companheiro, como todos lhe chamam por ser esse o tratamento que ele oferece a todos os que com quem ele se cruzam. E em convívio, no café da aldeia, ao fim do almoço, é convidado a ir a um arraial onde há porco no espeto, vinho e música à discrição.
Contra o costume, António recusa:
Não posso, Companheiro, tenho de cuidar do “tio” e do “primo”!
Ora, como é que eles se arranjam quando tu não estás? Estraga-los com mimos!
Pois é, mas tem de ser. Quando não estou não vejo, nem posso fazer nada; mas quando estou é assim: cuido deles como me cuidaram quando muito precisei - e virando-se para a dona do café pede: “venha de lá o cafezinho e o bagaço para ajudar à digestão!”
A conversa prossegue. Interrogam-no, curiosos, quiçá com laivos de malandrice misturados de chacota:
E então, qual foi o almoço que lhes preparaste para hoje? - continuou o interlocutor, tendo como ouvintes-espetadores os restantes clientes do café.
Hoje, foi um camarãozinho frito, bem descascado, com arroz (feito num tacho grande que já fica para a noite, porque não se pode gastar muito gás). Para sobremesa um leite creme. Quis torrar, mas preferiram com canela.
E o público presente, espantado, primeiro ri a bandeiras despregadas com a descrição da ementa, porque, intimamente, intuía que António estaria a “dar pérolas a porcos”; ele próprio um bruto dado a tanta finura! Depois, pasma ao ver tanta ternura, tanta gratidão, tanta dádiva... e silencia em sinal de respeito.
No ar fica o pensamento: será que esses dois energúmenos terão capacidade para apreciar a abnegação dedicada de António?
Sim, acho eu, porque penso que a linguagem do Amor é perceptível em qualquer língua, cultura ou sociedade... E os três vivem felizes, com toda a certeza, pelo menos, um mês em cada ano: António, o Companheiro, alegra-se porque dá, os outros dois porque recebem a dádiva do seu amor fraternal!

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