Será amor?

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Ana Teresa Cruz

“Será amor? Será admiração? Saudade? Dor? Não, vou apagar. Não gosto. Não fica bem!”. E é nisto que tenho andado sempre que tento escrever uma palavra Tua. Tu és tão Tu que não há palavras que o possam descrever. Talvez este não seja dos textos mais lindos que Te esteja a escrever. A própria palavra “talvez” é duvidosa demais para um escrito Teu, meu, nosso.
Estou aqui nesta cadeira a lembrar-Te e a escrever-Te, sem saber se daqui a segundos vou clicar no “delete” ou se prossigo com este escrito que um dia deixará de ser nosso. É difícil, oh, como é difícil, mas que posso eu fazer? Lamentar-me em frente a uma moldura que um dia o tempo enferrujará? Beijar uma fotografia que comigo morrerá? Não, não e não! Arranjei uma forma bem mais segura de Te guardar eternamente: vou escrever-Te. Vou escrever-Te não porque as memórias um dia se vão comigo, mas porque sei que todas elas merecem ser lembradas e imaginadas por toda a gente.
Não mais esquecerei as Tuas rugas de felicidade e experiência, o Teu sorriso de inocência ou mesmo as Tuas mãos que tanto viveram e tanta vida me fizeram viver. Não esquecerei as palavras gastas de amor que dissemos um ao outro, gastas de amar infinitamente, gastas de ser amadas. Sinto-Te, sabias? Sinto-Te frio, distante. Sinto-Te tão perto e ao mesmo tempo tão longe... Mas sinto-Te, e isso conforta-me tanto!
Hoje sei muita coisa. Sei que os natais não vão ser como eram, com a família toda em redor, porque haverá sempre duas cadeiras vazias. Sei que nunca mais provarei o melhor arroz do Mundo e nunca mais me sentarei nas pernas mais reconfortantes do Universo. Sei tanta, tanta coisa! Mas por mais estranho que pareça sei tão pouca coisa também.
Mas independentemente das coisas que saiba ou não, há coisas que eu sinto, coisas que me levam num túnel para um mar imenso de sentimentos e emoções.
Porque mais do que fotografias, mais do que molduras enferrujadas com o tempo, mais do que cartas ou bens materiais, sobrevive a alma. E que coisa mais rara e importante há no mundo do que ela?
Deixa-me beijar-Te a alma, deixa-me continuar a dizer-Te o quanto Te quero, deixa-me ser Tu. E, sobretudo, deixa-me ser nós neste mundo tão perdido onde a superficialidade reina e o que vai dentro de nós se torna simples cinzas que são despejadas num mar não agora de sentimentos, mas de maldade, de pobreza. Então por favor, despe-me desta crueldade em que vivemos, leva-me para aquele túnel de coisas boas…
“Será amor? Será admiração? Saudade? Dor?”. Desta vez, não irei apagar. Amor? Sim. Admiração? Sim. Saudade? Sim. Dor? Sim.
Mas sabes que duas palavras têm um “sim” como resposta também? “Para” e “Sempre”.
Para sempre, Avó.
Para sempre, Avô.

(Texto dedicado aos meus avós paternos José e Teresa, que liam todos os dias o jornal, na certeza de que o estão a ler. E se não for no jornal, estão a lê-lo com certeza num sítio mais do que tudo, no meu coração. Com muito amor…)

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