Medicina inebriante

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Márcio Góis

Um médico é menos médico quando não tem doentes, mas um doente não é menos doente por não haver médicos. E um doente, por mais bem informado que esteja acerca da sua doença e do modo como tratá-la, não tem como substituir-se a um médico. A não-ser, claro, que frequente ou tenha frequentado o curso de medicina ou seja um autodidata extremamente audacioso e perspicaz.

Valha-nos que neste país não faltam nem médicos nem pacientes. Todavia, não encontrei até agora um médico, seja de medicina geral, seja de cardiologia, seja de psiquiatria, ou seja de outra merda qualquer, que conheça uma forma concludente de pôr um fim a estes súbitos aceleramentos cardíacos. Inócuos e pouco precisos, é a leitura feita pelo Cardiologista aos resultados do raio X ao tórax, do M.A.P.A, do eletrocardiograma, do ecocardiograma, da cintilografia ao miocárdio e do Holter.

Como chega a ser ridículo o Cardiologista. Por um lado, revela-se profundamente aturdido com este novo caso que tem em mãos, mas por outro sente-se pouco entusiasmado com a ideia de que afinal aquilo que aprendeu desde os tempos de faculdade não chega para curar as maleitas de todos os pacientes que tem, e que poderá vir a ter, a seu cargo. Mas pior ainda. Para agravar um cenário que já de si é negro, não é que o Médico de Família é ainda mais doidivanas do que o Cardiologista! Ora, em vez de se preocupar em encontrar uma cura séria, que me livre de uma vez por todas desta doença, tem-me receitado magotes de soníferos e antidepressivos que em vez de me acalmarem, só servem para piorar ainda mais o meu estado clínico, em virtude do efeito que tais medicamentos têm no aumento das batidas cardíacas.

Tudo isto suscita em mim uma vontade enorme e insaciável de rir. Esta paródia médica chega a rossar o limite do que é moralmente ridículo. Não me peçam então para ser compreensivo com este falanstério de incompetentes. Pois aqueles que deviam, dentro da sua ínfima racionalidade, ajudar a solucionar aquilo que parece não ter solução, das duas uma: ou mandam-me dar uma curva ao bilhar grande, ou entopem-me o estômago com fármacos. Seria uma hipocrisia circense da minha parte dizer que tudo isto é normal, quando eu próprio julgo que tudo isto não é eticamente normal. Na verdade, o desconhecimento do Cardiologista, é a idiotice do Médico de Família.
No entanto, se em vez do doente, eu fosse antes o Cardiologista ou o Médico de Família. Será que dimanaria de forma diferente? Honestamente, não sei se faria melhor. Talvez até fizesse pior, pois não sou médico, nem ainda menos tenho por hábito frequentar Centros de Saúde e Hospitais. Além disso, é sempre mais fácil e prático criticar alguém, do que autocriticar-nos. Nunca é fácil olharmos para algo segundo uma perspectiva que não é a nossa. Eu sou eu. Pois só eu falo, da maneira como eu falo. Só eu olho, da maneira como eu olho. Só eu como, da maneira como eu como. E tudo o resto, só eu faço da maneira como eu faço. Por mais semelhanças que possa haver entre o que eu sou, e aquilo que o Cardiologista e o Médico de Família também são, eles serão sempre a terceira pessoa. Mas se ambos são reconhecidos pela comunidade como médicos, então devem ser julgados enquanto médicos. É tão-só, e nada mais que isso.
Tão-pouco o Psiquiatra solucionou a minha doença. Receitou-me, porém, alguns exercícios de relaxamento cardiovascular, que diminuíram em dois terços o número de crises diárias. Desde então que ando um pouco mais solto, embora continue a ter alguém a tempo inteiro a cheirar-me o cu, a ver se eu não dou uma queda mal dada que me leve a partir uns quantos dentes, ou algum osso do corpo.

Nas sessões de terapia concluímos, eu e o Psiquiatra, que o aumento das batidas cardíacas sucedia, no mais das vezes, quando ouvia três palavras: Juntos, Mais, Sempre. São palavras traumáticas, que eu aboliria definitivamente de todos os dialetos, vivos e mortos, se tivesse a competência para fazê-lo.
E em muito isto tem haver com a falta de gosto da Outra. Era a Outra quem dizia que estariamos Juntos para Sempre, fosse onde fosse, até na eternidade mais sombria. Era a Outra quem dizia que queria Mais de mim, quando não se sentia inteiramente realizada. Daí que, outrora, para onde quer que a Outra fosse, por onde quer que a Outra fosse, os fios ópticos filiformes moviam-se no sentido de continuar a persegui-la. E quando os olhos não viam, os ouvidos ouviam, de soslaio, o arrastar pestilento e contristado dos seus passos. Mas quando nem os olhos nem os ouvidos presenciavam-na, as narinas abriam-se na expectativa de conseguirem farejar a mais pequena réstia, daquela que era a sua fragância vaginal.
Mas agora a Outra, não passa disso mesmo, de outra. O coração continua, porém, a agitar-se mediante o pronunciamente de tais palavras, agredindo, sem dó nem piedade, os músculos, os nervos e os órgãos que o ladeiam, não se preocupando minimamente com os efeitos que tal descontrole desencadeiam no meu bem-estar. Também de nada me adianta quando tento corajosamente encarcerá-lo entre os pulmões, pois ele nessas ocasiões faz questão de me cortar rancorasamente a respiração.

Visto que a medicina convencional em pouco ajudou na melhoria da minha doença, procurei há dois dias um perito em medicina alternativa. Não é que o Verista também tem parafusos a menos na cabeça. Resignado, por não saber o que me receitar, disse-me que a única solução possível é a de arrancar, de preferência a sangue frio, o coração, e colocar no sítio que é dele por direito, um pedregulho. Pois um coração inanimado, disse-me o Verista, é um coração que não vê. E um coração que não vê, é um coração que não sofre! E neste momento o corpo sofre, porque apesar do tempo que já passou, o coração continua a sofrer pela Outra. E em vez de se resignar, quer antes eclodir e voltar a viver aquilo já não faz sentido algum, Viver!

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