Imigração e saudade

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As palavras saudade e imigração andam juntas, mesmo que se trate de histórias diferentes sempre prevalecem acima de outros adjetivos.
Milhares de pessoas deixam seus entes mais queridos para arriscar uma melhor condição em sítios estranhos, tendo inclusive de assimilar outra cultura. Entretanto nem todas têm a oportunidade de opinar se esse é o seu desejo, são deixadas a aventura não por vontade, mas, satisfazendo uma necessidade de evoluir e produzir para que o futuro não seja incerto e fiquem na soleira onde nasceram aceitando a vida como ela parece ser.
A história de duas jovens que não tiveram escolha entretanto passadas décadas reconheceram ter seus pais a mais legitima boa intenção ao manda-las para outras terras, já que lá encontrariam tios e primos não ficando ao sabor da sorte ou azar.
A partir daí a palavra saudade passa a ser integrante do quotidiano, assim como as orações.
Rever os pais e parentes torna-se quase impossível e será um privilégio para poucos, pois o destino, ninguém pode prever mas devido as dificuldades da longa travessia trás inúmeros encargos financeiros. Alguns após duas ou três décadas conseguem retornar, mas até aos anos setenta torna-se a beira do impossível, acontece com as irmãs Maria e Adelina, em relato abaixo que conseguiram realizar alguns dos seus sonhos constituído famílias com patrícios que lá conheceram.
Maria e Adelina foram levadas a Lisboa de carrinha, veículo com bancos de madeira, assustadas: nunca haviam saído da aldeia. Beselga era o lugar, lá pelos lados do Castelo de Penedono.
Era assim na época que, os governos para manter o domínio na India e Africa deixavam as pessoas na míngua.
Embarcaram no navio com o nome estranho “Niassa”. Corria, normalmente, a travessia do Atlântico: duas horas por dia, os passageiros de 3ª classe eram encaminhados ao convés do navio para pegar sol e evitar doenças, enquanto os tripulantes orientavam na limpeza dos salões, onde três centenas de imigrantes permaneciam durante a penosa travessia.
Durante o banho de sol, a Adelina e João passaram a se namorar com os olhos: os homens ficavam de um lado e as mulheres e crianças em frente. Após, eram encaminhados, novamente, à parte mais baixa da linha d’água, onde permaneciam a cantar, jogar cartas ou vomitar: nada muito diferente dos prisioneiros comuns que cumprem penas por delitos.
Café, almoço, jantar e chá, tudo pago nas longas prestações.
Maria, com 20 anos e Adelina com 18 anos vinham encontrar no porto os parentes, viajando assim, sob a protecção do comandante.
João, que já namorava Adelina com os olhos, vinha com carta de chamada do irmão, que aqui já residia.
No porto, cada um seguia o seu destino: centenas de imigrantes eram esperados por milhares de parentes ou amigos.
Passados alguns dias João já trabalhava no serviço de carris quando avistou a namorada dos olhares a sair de uma adega onde foi buscar um garrafão de vinho para os patrões: foi fácil encontrar aquela que o destino enviou para ser a sua esposa o resto dos dias.
Passados dois anos, casaram num belo dia de São João de 1936. Do casamento nasceu Virgílio em 1937 e Accacio trezentos dias após, em 1938 às 8:30h, numa segunda-feira.
Orgulho do casal foi que os partos de Adelina foram realizados no hospital, raridade na época, pois só as grandes empresas dava esta regalia aos empregados.
Trabalharam arduamente, com o património que trazem os que emigram: saúde e vontade de prosperar. Assim, criaram como outros tantos, identidade com o país que os acolheu e depois de décadas tiveram pouco desfrute desse trabalho que sempre, sem reclamações, foi pouco, mas prazeroso.
João faleceu em 1971 e Adelina em 1988.
Testemunha dessas vidas que proporcionaram as nossas, ficou a tia Maria, viúva também, que teve um filho, o primo João.
A tia Maria, que veio com minha mãe Adelina, está hoje com 100 anos e três meses, sendo que, três semanas atrás foi retirada de sua casa, atingida por destroços da queda de uma avião. Esta surda e aos domingos toma copo de cerveja às refeições! É verdade!

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