Liberdade

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Ana Maria Monteiro

O espaço é agradável. Impecavelmente limpo e arrumado, talvez um pouco em excesso. O ambiente, intimista, confortável, aconchegante. Sentada no chão, encostada à parede, observa cada um dos detalhes da divisão tão familiar - e igualmente estranha.
Imagina que já seja tarde. Solta um suspiro. Gosta de estar sozinha, de pensar, recordar, a recordação é doce. Sorri perante a memória das palavras de Mário Quintana, “A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha.” Como gostaria de saber expressar-se como ele, como tantos outros. Mas as palavras nunca foram o seu forte. Então devaneia e permite que seja o devaneio a embalá-la. Começa a arrefecer. Fecha os olhos. Recorda.
Ali está ele, perante si: Alto, jovem, bonito, garboso, seguro da impressão que causa.
Como conseguiu que sequer a olhasse? a ela que nunca foi bonita, elegante, charmosa; apenas insignificante, uma coisinha mais ou menos, sem graça, excepto no nome, claro: Linda.
A mãe dizia-lhe sempre: “- Foi a primeira coisa que vi quando nasceste: Linda, perfeita, maravilhosa. E não te queixes pois o teu pai queria que te chamasses Eulália, como a mãe dele.”
E assim ficara Linda.
Muito mais tarde descobriria o prazer proporcionado por esse nome. Sempre que ele se lhe dirigia, com aquela sua voz ligeiramente rouca, não se sentia chamada mas apelidada.
Oh, sim! Tinha sido bom. Pelo menos de início. Quando só lhe via o lado solar e nem desconfiava da existência de outros, em toda a gente: os cinza, por vezes negros, como o dele. Como o seu? Não, nem por isso. “Uma pessoa faz o que tem de fazer e nem sempre é o mais bonito, é tudo.”, assim justificava a seus olhos o próprio lado obscuro entretanto também descoberto.
Carlos era instável, beligerante, perigoso, até. Meter-se com todas as raparigas que lhe passavam diante do nariz não era suficiente; tinha que humilhá-la, mostrar-lhe como o desprezava. E o prazer que daí retirava!
As alterações de humor eram permanentes. Ora doce, ora áspero, ora terno ora violento. Quantas vezes temera pela vida? Não que ele ameaçasse, nada disso, mas lia-se-lhe nos olhos o desejo de posse total, de domínio absoluto, doentio.
Acabou por compreender que ele era doente mental, mas não havia muito a fazer, amava-o irremediavelmente. Apenas a soma do desespero, infelicidade e medo conseguiram dar-lhe coragem para fazer o que tinha de ser feito. Acabou com ele.
“- Preciso de ser livre.”, dissera-lhe, à laia de explicação.

Ele enlouqueceu. Gritou, berrou, ameaçou, implorou. Mas ela não cedeu, sabia que não havia outro caminho.
Os tempos que se seguiram foram difíceis para Linda. Chorava, sofria, sentia-lhe a falta, não dormia. Vivia em tormenta. Carlos ia de mal a pior, cada dia mais desvairado. Perseguia-a, insultava-a, bebia. Metia-se em brigas e zaragatas, embebedava-se, deixava um lastro de destruição por onde passava. Várias vezes dormiu na esquadra devido a desacatos diversos.
Linda sabia o que queria e que era altura de levar por diante o que se propusera. Começou a andar com outros. Pouco lhe importava. Cerrava os olhos e nos beijos que trocava sentia o molhado dos seus lábios doces; nas carícias que recebia, o toque das suas mãos; as palavras sussurradas, soavam-lhe como se viessem dele; apenas o olfacto era difícil de enganar. A ausência do seu odor suavemente almiscarado era incontornável.
“- Deixa-me em paz”, dizia-lhe quando a interrogava, “- Disse-te que preciso de liberdade. Sufocaste-me por demasiado tempo.”
Ficou por desvendar o mistério do acidente que empurrara José, um dos rapazes com quem andou, para uma cadeira de rodas. Ele próprio apenas se recordava do impacto do automóvel que não vira aproximar-se. Também ninguém se preocupou muito com o desaparecimento de Álvaro, outro dos seus namorados; era conhecido o seu desejo de sair dali e partir à conquista dum mundo que só existia na sua imaginação.
Mas Linda sabia, em segredo, sabia. E sofria por ambos. No entanto, não havia alternativa, não podia ser de outra forma. E prosseguiu sem alterar o seu comportamento ou propósito.
Tem frio. “Deve estar a anoitecer”, pensa, com alguma apreensão.
Mas eis que escuta o ruído da porta da rua que se abre. Momentos depois ele entra. Sorri, a cabeça ligeiramente de lado, olhando-a carinhosamente. “- Desculpa, atrasei-me. Não contava com isso, ou ter-te-ia avisado.”

Aproxima-se. “- Trouxe frango assado para o jantar. Não te cheira?”
Cuidadosamente, liberta-lhe as mãos. As cordas agora lisas e sem nós caem soltas no chão. Linda sente a dor e a dormência nos pulsos por tanto tempo imobilizados.
Ele acaricia-lhe o rosto por onde uma lágrima escorre. Enxuga-lha.
“- Então, minha querida? Não querias tanto a tua liberdade? Pois aqui me tens.”
Linda mantém o silêncio. A perseverança compensou-a. Ele não pode descobrir, não pode desconfiar que as suas lágrimas são de felicidade.

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