Ser criança...

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Susana Miranda

Desci as escadas do prédio em êxtase, pois o meu castigo tinha finalmente terminado! Depois de várias insistências da minha mãe, ontem deixei o quarto todo por arrumar, numa autêntica barafunda! Claramente cansada, a minha mãe voltou a ter que arrumar tudo sozinha: brinquedos espalhados pelo chão, livros abertos, marcadores sem tampa, cama desfeita e lençóis no chão, em modo de auto-estrada para o meu conjunto de carrinhos de rali. Ao vê-la fazer tudo aquilo, arrependi-me e pensei que deveria ser menos rebelde e ajudar a minha mãe, que trabalha tantas horas fora e dentro de casa... Contudo, tenho a teimosia e rebeldia próprias da idade...

Findo o castigo, vou andar no baloiço e escorrega do parque do prédio, sob a vigilância atenta da minha mãe da varanda do terceiro andar. Melhor ainda! Vou buscar a minha bicicleta e dar umas voltas no parque. O Zé junta-se a mim, depois de ir espreitar à varanda e ver-me lá em baixo a brincar. Fixe! Assim podemos competir às corridas e ver quem chega primeiro à meta. Tenho a certeza que vou voltar a ganhar. Ele é gorducho e cansa-se depressa e eu, espertinho, antecipo-me a ele e já está, ganhei!
As férias de Verão nunca deveriam acabar... O sol, o calor, as horas que podemos passar no parque sem ninguém nos chatear com estudos, fichas práticas, leituras, trabalhos de casa. A minha mãe ainda consegue levar-me à piscina e passar horas comigo a nadar, até ser hora de voltar para casa e jantar. Amanhã vai levar-me ao cinema, já comprou os bilhetes para a estreia do filme “Idade do Gelo”. Vou mesmo ter que me portar bem para não voltar ao castigo, senão lá vai tudo por água abaixo.

Oiço a mãe chamar por mim e pelo Zé da varanda, é hora do lanche! Subimos as escadas a correr e, mesmo antes de entrarmos em casa, já ouvíamos a recomendação de sempre: “Têm que ir lavar as mãos, antes de se sentarem na mesa”. A cozinha cheirava a bolo acabadinho de fazer e de chocolate, como eu tanto gosto! Eu e o Zé comemos duas fatias de bolo cada um, e bebemos uma caneca de leite. Estávamos de barriga cheia e prontos para a algazarra até ser hora de jantar. Desta vez fomos para o meu quarto montar um puzzle que os meus padrinhos me tinham oferecido no meu aniversário. Era o máximo, porque tinha mais de duzentas peças e diversos animais para descobrir. Como me tinham levado ao jardim zoológico, fizeram questão de marcar a data com esta prenda repleta de imagens de animais. No fim de completarmos o puzzle, começamos uma corrida de carrinhos na minha pista montada no chão do quarto. Já tinha avisado o Zé que, no final, teríamos que arrumar tudo, já que amanhã era dia de ir ao cinema e não podia mesmo ficar de castigo. Até o convidei a ir connosco, ver o filme e comer um “balde” de pipocas!

Com a hora de jantar a aproximar-se, despedi-me do Zé e fiquei a vê-lo descer as escadas até ao segundo andar. Era bom passar a tarde com ele, divertíamos-nos imenso! A minha mãe já tinha a banheira cheia e rapidamente despi a roupa e comecei a lavar-me com a esponja e um champô cheiroso. No verão não me incomodava nada tomar banho, estava calor e eu estava sujo. Mas, no inverno não gostava nada! Vinha cansado da escola e no final do banho tiritava sempre de frio, mesmo com o aquecedor ligado e o pijama polar aquecido. Não importa, hoje estava calor e a água da banheira começou a ficar escura... Eu estava mesmo sujo! Deve ter sido das brincadeiras do parque e da areia dos escorregas e baloiços. Desta vez foi o meu pai que me veio ajudar a secar com a toalha e a vestir o pijama, t-shirt e calções com os desenhos animados do “Rei Leão”. Dei-lhe um beijo na cara em modo de agradecimento pela ajuda e recompensa pelo dia de trabalho que teve, porque parecia-me bastante cansado; saiu de manhã cedo e só voltou agora.
Hum... mais um cheirinho bom a vir da cozinha, a minha mãe era uma excelente cozinheira, só fazia petiscos bons, a maior parte das vezes para me agradar parece-me. A mesa já estava posta e, depois de terminar a sopa, colocou no meu prato um peito de frango estufado com cenouras, ervilhas e puré de batata. As ervilhas e cenouras eram dispensáveis, mas não refilei desta vez. O meu pai quis saber como tinha corrido o meu dia e eu contei-lhe tudinho e o quanto me diverti! Amanhã, mais um dia, mais uma aventura! Ainda iria ser melhor! Terminei a refeição com uma maçã descascada e laminada pelo meu pai; era sempre ele que me preparava a fruta no final das refeições. E enquanto a minha mãe arrumava a cozinha, fui ver um bocado de televisão com o meu pai para a sala. Daqui a uma hora com certeza que me iria chamar para ir dormir. Mesmo em tempo de férias, os horários mantinham-se os mesmos. Fazia-me bem ir para a cama cedo e descansar, diziam eles... “quando fores crescido vais ter outras responsabilidades e menos tempo para dormir”.

Refastelado no sofá, acabei por adormecer e com cuidado o meu pai pegou em mim no colo e deitou-me na minha cama. Foi um dia de brincadeiras e travessuras, estava mesmo cansado... mas, acima de tudo, feliz!

Esta poderia ser a história de qualquer criança no mundo... Fica o desejo...
Este conto é dedicado a todas as crianças vítimas da guerra e violência provocada pelos adultos em todo o mundo.

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