O silêncio não é resposta

Ideias Políticas

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Hugo Soares

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As feridas abertas pela tragédia de Pedrógão Grande não serão fáceis de sarar por muitos e muitos anos, e para os familiares e amigos das vítimas jamais se fecharão. No entanto, é preciso levar a vida para a frente mas isso só se consegue fazer se houver respostas. Senão as respostas a todas as perguntas, no mínimo as respostas possíveis. Aquelas que possibilitem lançar alguma luz na escuridão das vidas afetadas, aquelas que avancem alguma explicação plausível, algum esclarecimento na tormenta das muitas incógnitas.

Ora, para haver respostas é imprescindível fazer perguntas. Calar, alimentar dúvidas, gerar confusões e contradições, permitir que a descrença total se instale é o pior que se pode fazer para honrar a memória das vítimas e acalmar a dor dos que ficam. Por isso, as perguntas não podem ser silenciadas em benefício da paz de espírito dos que têm que responder nem em nome do pretenso respeito pelos que sofrem. É precisamente em nome do respeito das famílias atingidas por este horror que há que perguntar, que inquirir, que investigar.

As perguntas são muitas e avolumaram-se desde o início porque a informação que nos foi chegando, através das diversas autoridades competentes e do governo, ou era incompleta ou contraditória ou manifestamente insatisfatória e insuficiente. É claro que, perante uma tragédia da dimensão da vivida em Pedrógão Grande, as respostas - e as conclusões - não são fáceis nem imediatas. Mas precisamente por isso, chocou ainda mais a pressa com que o governo (desde o primeiro-ministro até à ministra da Administração Interna, passando pelo ministro da Agricultura) se tentou desresponsabilizar e apresentar-se ao povo de consciência tranquila.

É humana e politicamente impossível ficar-se de consciência tranquila quando, num incêndio, perdem a vida 64 pessoas, mais de 250 ficam feridas e concelhos inteiros são devorados pelas chamas.
Respeitado o resguardo dos dias imediatos à tragédia, com a preocupação toda centrada nas vítimas e nos seus familiares e no apoio incondicional aos bombeiros que corajosa e abnegadamente arriscaram as suas vidas no combate às chamas, passado esse momento, impõe-se fazer as perguntas todas, por mais incómodas que sejam, doam a quem doer. Pelas vítimas, já o disse, mas também para que, no futuro, se consiga evitar tão trágicas consequências.

A comissão técnica independente que o PSD propôs aos demais partidos para se averiguar a fundo as causas desta enorme tragédia é uma peça fundamental para se apurar a verdade dos factos - livre de pressões de qualquer espécie, de ideologias, de ideias pré-concebidas, de polémicas partidárias. Os nossos concidadãos que estão de luto merecem e exigem que os responsáveis políticos se entendam nestas questões básicas mas essenciais para levar a vida para frente: o que aconteceu, como aconteceu, porque aconteceu, o que falhou?

Porque alguma coisa de muito sério teve de falhar para que 64 pessoas perdessem a vida e tantas outras ficassem feridas. O Estado falhou drasticamente na proteção dessas pessoas. Porquê, então? A estrada nacional 236 foi ou não mandada encerrar (as contradições no seio do governo são gritantes)? O SIRESP, o sistema de comunicações de emergência, falhou totalmente ou teve apenas umas falhas “intermitentes” como afirmou a ministra? A ajuda podia ou não ter chegado mais rápido e a mais pessoas? São tantas as perguntas! E o silêncio, a partir de agora, não pode ser a resposta.

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