Adeus, Rui.

Ideias

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Carlos Pires

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É a primeira vez na minha vida que enfrento a dura realidade de perder um amigo. O Rui partiu, vítima dessa terrível doença que tantos ceifa sem que, de uma vez por todas, alguém lhe descubra a cura. Recordar o Rui, que nos deixou faz hoje precisamente três semanas, é um exercício obrigatório. Doloroso e, de algum modo, egoísta. Sim, egoísta, confesso, porquanto a minha dor pela perda do Rui é uma coisa pessoal. É a dor da perda de um grande amigo com quem convivi em tantos e inesquecíveis momentos.

Tive o privilégio de partilhar com o Rui alguns grandes momentos, nessa amizade que nos uniu durante 11 anos. Os momentos particulares que desfilo na mente são também uma forma de sublimar a dor que esmaga. Uma amizade, pasme-se, que se iniciou a muitos milhares de quilómetros de distância, mais precisamente na República Dominicana, nas Caraíbas, rodeados de sol, mar azul turquesa e palmeiras luxuriantes, auspício de uma amizade radiosa e transparente.
- Eu conheço-te. És de Braga!

Foi assim que o Rui, aquele homem com 1,90 m de altura, me abordou. Abri a boca de espanto. Alguém, ali, a falar a minha língua e a dizer que também era da minha cidade. O mundo é, de facto, muito pequeno, pensei. Rapidamente percorremos a lista de amigos em comum e os locais onde nos cruzáramos no passado. E nunca mais nos separámos até ao final da viagem. O Rui e a mulher, a minha querida amiga Gabi, constituíram a melhor das companhias.
Chegados a Portugal, a nossa amizade foi solidificada. Eu passei a ser presença em todos os momentos chave da vida do Rui: aniversários, o nascimento e batizado do seu primeiro filho, as paródias de Carnaval, e tantos outros.

Ficámos amigos. Era difícil não se ser amigo do Rui. O Rui era um homem calmo, culto, com um sentido de humor acutilante e muito “british”, de risada fácil. E tinha algo que é tão raro encontrar: era muito tolerante. E por isso a nossa amizade resistiu (e ficou mais forte!) mesmo quando mantínhamos opiniões distintas, às vezes antagónicas. Tínhamos personalidades diferentes, mas o Rui sempre respeitou esse facto e nunca, nunca teceu qualquer comentário ou crítica depreciativa. Eu era mais extrovertido. O Rui ria-se, com afeto e amizade no olhar, mesmo quando eu arriscava nas minhas “performances humorísticas”. Recordo aquele olhar já com muita com saudade. No fundo, eu sabia que aquele também era um olhar de proteção, ninguém ousaria reprimir-me com o Rui por perto. O porte físico dele desmotivaria qualquer um que o ousasse fazer.

Além da tolerância não posso deixar de exaltar o grande sentido de família do Rui. Amava a mulher. Foi o melhor pai do mundo. Adorava os pais, a irmã e os sobrinhos. E foi o melhor amigo que alguém poderia ter.
Morreu muito jovem. Não pode ver os dois filhos, lindos, crescer. A vida, por vezes, é muito injusta. O Rui merecia mais.

O Rui perdoava e compreendia o facto de eu ter uma vida pessoal e profissional muito intensas, o que nem sempre permitia que estivéssemos juntos todas as vezes que queríamos. Contudo, quis Deus que eu me tivesse encontrado com ele na tarde de domingo que antecedeu o dia da sua morte. Falamos e rimos durante duas horas como se não houvesse amanhã. Não consigo conter as lágrimas sempre que lembro a enorme dignidade e elevação que revelou, sabendo que estava a escassas horas de ser submetido a uma cirurgia de elevado risco. Mas evitou falar disso e em momento algum senti nele ou na sua voz qualquer receio. Quis uma vez mais proteger-nos. Eis mais uma prova de que o Rui era de facto uma pessoa superior.

- Gabi, temos que ir, já tínhamos que estar no IPO às 17h… A frase, ouvida, de repente, da boca do Rui, imobilizou-me. Foi nesse preciso momento que eu parei para pensar o quão especial tinha sido aquele tempo, atendendo à travessia, certamente penosa que o Rui faria nos tempos seguintes. Isso achava eu, na altura, porque não acreditava que toda aquela normalidade tivesse o desfecho que acabaria por ter.

Levantei-me para ir embora. Tive que me colocar em pontas para lhe dar um forte e demorado abraço. Entreguei-lhe uma pagela de São João Paulo II, que de imediato ele colocou no bolso da camisa, sorriu e disse:
- Por acaso sempre gostei deste Senhor Papa, obrigado.

O Rui morreria 24 horas depois. Indecentemente cedo. Cedo demais para todo o amor que tinha pela família e pelo núcleo duro de amigos. Mas uma coisa é certa: o Rui foi sempre uma pessoa nobre e o seu exemplo enche-nos a todos. Enche o vazio, sobretudo agora, que sabemos não ser mais possível ouvir a sua voz ou o seu rir.
Cabe-me dizer aos meus estimados leitores que esta foi a crónica da saudade pelo amigo que partiu. Um amigo que era dos maiores que a vida me deu. Até um dia, Rui!

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