A arte de servir cafés

Voz às Escolas

autor

Manuel Vitorino

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Numa iniciativa recente, a responsável dos recursos humanos de uma empresa transnacional referiu que nas entrevistas de emprego que promovem, a primeira pergunta que fazem aos candidatos é se já alguma vez serviram cafés.

Percebe-se que valorizem as competências relacionais dos jovens, adquiridas em contextos de trabalhos temporários, habitualmente no verão, quando muito usufruem de tempos de lazer e de ócio. Porque aí, ao dolce far niente de uns contrapõe-se a azáfama da esplanada ou da sala de jantar de outros, onde o trabalho de equipa, a paciência, a tolerância e a resiliência são testadas ao minuto, ao mesmo tempo que sobem os níveis de adrenalina que activam o sistema nervoso simpático e as supra-renais libertam cortisol em grande quantidade .

Quem já teve essa experiência, percebe que servir cafés, é mais do quer isso. Neste contexto, seja por motivação, por necessidade ou por simples construção da própria autonomia, um jovem convive com uma variedade de clientes, que obrigam a uma gestão sublimada das emoções. Também por isso, servir cafés é uma arte.

Vem esta pequena introdução a propósito do perfil do aluno para o século XXI e dos desafios que se colocam à escola na educação e formação das crianças e jovens, que invariavelmente nos remetem para uma escola de ambientes educativos inovadores, a “sala de do futuro”.
Porque apesar de estarmos perante novas formas de acesso ao conhecimento, com mais ou menos gadgetização tecnológica, no centro da nossa ação teremos sempre o aluno e a sua realização em plenitude enquanto pessoa.

O Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI - “Educação - Um tesouro a descobrir”, que foi coordenada por Jacques Delors, já identificava há quase duas décadas atrás, quatro pilares da Educação: aprender a conhecer; aprender a fazer, aprender a viver juntos e a aprender a ser. Este último pilar integra todos os outros, pelo que aquilo que nos é pedido é um desafio contínuo imenso.
Recentemente tive oportunidade de acompanhar provas de aptidão profissional dos nossos alunos, antes de entrarem na derradeira etapa de formação em contexto de trabalho, a realizar nas empresas das região.

Fiquei agradavelmente surpreendido. Há muito trabalho dos alunos, muita complexidade, em vários casos, muita qualidade nos produtos finais, e há, no final, um brilhozinho nos olhos - dos alunos e dos professores acompanhantes e diretores de curso.
Porque não há maior recompensa do que perceber, que afinal, conseguiram, foram capazes, superam-se! Esta superação, não é apenas da elevação da auto-estima com os resultados positivos que se conhecem, mas de percebermos que a escola pode fazer a diferença, pelo trabalho empenhado e colaborativo de professores e de alunos, por mostrar que a educação constitui um recurso privilegiado de construção da própria pessoa, preparando-a para os desafio do mundo do trabalho mas também para a dimensão da cidadania que emerge nas relações com outras pessoas, em organizações, grupos e nações diferentes.

As evidências mostram-nos que há esperança no futuro, e que a reserva mental sobre a escola contemporânea e sobre os cursos profissionais, em particular, não faz sentido. Importa que a educação fornal e a educação informal sejam valorizadas e que a escola contribua para que os nossos jovens levem vantagem na arte de servir cafés, quando é preciso.

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