Uma baleia no meio da sala

Voz às Escolas

autor

José Augusto

contactarnum. de artigos 32

A opressão da cultura da vida saudável, a obrigação geral de busca da eterna juventude, conduziu-nos a extremos em que, às vezes, por simples vergonha ou pudor, somos levados a esconder das gerações mais novas as fatalidades naturais e a decrepitude inexorável que o tempo vai marcando no corpo e na mente de todo o ser humano. Nesse passo, talvez estejamos a empurrar as crianças e os jovens para crenças alternativas de energias eternamente recarregáveis, de sucessões de vidas para gastar e de “avatares” descartáveis facilmente substituíveis.
Importar refletir sobre algumas circunstâncias que facilitam novas formas de alienação. Na educação familiar atualmente dominante, as crianças e os jovens são frequentemente, e às vezes sistematicamente, afastados de algumas realidades naturais da vida, como a doença, a velhice ou a morte. Nos excessos protetores, a pretexto de evitar o choque, o incómodo ou o simples embaraço com os efeitos visíveis da precária e finita existência humana, as crianças e os jovens são privadas do contacto com os familiares próximos que padeçam de doenças graves, com os idosos mais limitados pelas degenerescências inevitáveis da idade ou com os falecidos pela incontornável finitude da vida (vejam quantas crianças ou jovens participam nos rituais fúnebres dos seus familiares). Afastados dessas realidades, tão naturais como o nascimento ou as proezas físicas da pujança da vida, muitas crianças e jovens parecem construir realidades alternativas para esses fenómenos naturais, cada vez mais influenciadas pelas suas vivências digitais de realidades virtuais. Sem que os adultos vislumbrem nisso qualquer problema, ou necessidade de intervenção educativa, as crianças e os jovens convivem, cada vez mais e mais precocemente, com a violência virtual e com a morte dos seus “avatares” ou dos personagens virtuais com que interagem, facilmente substituídos por outros ou por qualquer recarga de “energia” miraculosa. Sem o referencial natural, é mais provável que a conceptualização dos danos físicos ou da morte, do próprio ou de terceiros, se faça com os contornos característicos dos jogos digitais e das realidades dos mundos virtuais. Afinal, manipular uma pessoa concreta através de um computador não é muito diferente de manipular um personagem digital. Outrossim, deixar-se guiar por “mentor” real, num desafio concreto, mediado por um meio digital, pode ser facilmente confundido com um “jogo” em que, para ganhar prestígio e reconhecimento dos pares, importa progredir até ao nível final.
A perplexidade instantânea com fenómenos que vão crescendo paulatinamente sem que ninguém lhes dê importância, a estupefação coletiva amplificada pela imprensa tradicional, a reboque, sempre a reboque, da histeria das redes sociais, segue a par com a superficialidade da discussão e o tédio que, rapidamente, se instala sobre o assunto.
Repentinamente, uma baleia no meio da sala! O caso da “baleia azul” deu brado suficiente para umas quantas medidas paliativas que, provavelmente, acabarão como nota de rodapé de um qualquer relatório, até que alguém faça notícia de mais duas ou três desgraças do género. Os comportamentos manipulados de crianças e jovens, as práticas de automutilação ou os casos de suicídio de jovens fragilizados em grande situação de sofrimento psicológico continuarão a acontecer. Acredito que é necessária uma reflexão mais profunda e uma abordagem preventiva mais efetiva.
No que concerne a este tipo de fenómenos, para crianças e jovens em idade escolar, a escola pode ser o local estratégico para colocar os dispositivos de prevenção e de deteção precoce. Nesta crónica, em diversas ocasiões, referimos a importância de dotar todas as escolas de técnicos especializados, designadamente Psicólogos, capazes de assegurar esse tipo de intervenção primária. Porém, esses recursos humanos especializados ainda são considerados um luxo supérfluo, quando não um capricho, se não nos discursos dos decisores políticos, pelo menos nas práticas de gestão dos recursos financeiros públicos que efetivamente conduzem.
Um dia destes, a propósito da identificação e regularização dos vínculos precários na Administração Pública, talvez perguntem à Escola Secundária de Caldas das Taipas, e a tantas outras, se os Psicólogos que, desde há anos, na melhor das hipóteses, são sucessivamente contratados a termo certo para “necessidades transitórias” e, no final do ano escolar, despedidos, estão, afinal, a ocupar postos de trabalho que correspondem a necessidades permanentes. Não há dúvidas sobre a resposta, porém desconfio que a pergunta não vá ser feita às escolas. Entretanto, a baleia continua lá, no meio da sala…

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Voz às Escolas

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia