O mundo não ensina a morrer

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Maria Cerqueira
Professora Adjunta da Escola Superior de Saúde do IPVC; Coordenadora do Curso de Mestrado em Cuidados Paliativos

Pensar hoje no fim de vida exige aos profissionais de saúde, um duplo enfoque: o médico e o psicossocial, de forma a construir um processo de morrer humanizado e individualizado preservando assim, o valor da identidade pessoal. Os sentimentos aflorados pela negação da morte na sociedade atual, geram impotência na pessoa que se encontra a viver os últimos momentos e, também, gera uma panóplia de sentimentos nos profissionais de saúde que tem dificuldade em lidar com as questões disputadas entre vida e morte. A problemática do fim de vida implica necessariamente sofrimento, porque inviabiliza o futuro e provoca uma série de mudanças radicais na pessoa doente e família, experienciando deste modo, um esvaziamento do projeto de vida de ambos e exigindo cuidados de excelência. Assim, é fundamental que o enfoque dos profissionais de saúde se direcione para um cuidar personalizado, compreensivo, afetivo e que revalorize o tempo de vida que medeia a passagem para uma nova etapa - a morte.
Apesar do mundo contemporâneo ser dominado pela ciência e avanços tecnológicos, assiste-se ainda, a uma prática clinica desprovida de relacionamento humano. Por outro lado, embora a vida nos remeta para um conceito bipolar, o nascimento e a morte em termos temporais, é certo, que a vida está ligada à conceção de existência do ser na relação combinada com afetos e com dignidade.
Ser “pessoa” ator de todas as ações, pressupõe sempre uma atitude, uma valorização implícita ou explícita, concebida na sua dimensão integral. Sendo olhada apenas pela realidade física, ela torna-se num objecto facilmente manipulável, deformando-se as suas potencialidades. É esta dimensão integral da “pessoa” que permite um enfoque na pessoalidade, cuja relação perfeita é a partilha amorosa com o outro.
Cuidar da pessoa em fim de vida/família exige assim, um processo interativo, enfatizando adoção de dinâmicas de cuidados que respeitem a pessoa como individual, social e portadora de necessidades. Acredita-se que só através de uma filosofia humanista poderemos dar resposta ao sofrimento existente no final de vida, proporcionando um fim de vida com dignidade. Para isso, necessitamos de mobilizar uma série de estratégias terapêuticas sustentadas na legitimação do sofrimento e em competências transversais a todo o processo de cuidados. É ainda, imperioso que os serviços de saúde “abandonem” modelos de racionalidade médica e organizativa e passem para uma filosofia de revalorização das necessidades efetivas da pessoa/família.
Realça-se que o significado atribuído ao sofrimento deriva dos valores em que cada um acredita, da sua história de vida e, sobretudo, da situação vivida no presente e das implicações que a doença tem na sua vida atual. Deste modo, aquilo que sentimos no corpo é influenciado pelo mundo “subjetivo.”
A utilização do toque terapêutico (terapia complementar aplicada sobre o campo da energia da pessoa que visa restaurar a estabilidade e a vitalidade), favorece o estabelecimento da comunicação/interação, proporcionando conforto e maior segurança à pessoa que experiencia o fim de vida. É efetivamente uma alternativa capaz de criar um clima de confiança, de cooperação entre o profissional de saúde e o doente em fim de vida. A qualidade do contacto físico e da interação não depende da quantidade de tempo concedido, mas sim, da intensidade experimentada ao longo desses segundos ou minutos livremente consagrados. Diversos autores, descrevem experiências bem-sucedidas no alivio sintomático.
Outro aspeto, que ressalta com o aumento da esperança média de vida, é o aumento de doenças avançadas e terminais, co morbilidades, alterações da mobilidade, entre outros, reportando-se cada vez mais casos de doentes com feridas crónicas. Estas provocam desconforto, são dolorosas e como tal, necessitam que os profissionais de saúde otimizem os cuidados, no sentido da identificação dos fatores que exacerbam a dor, de forma, a minimizar o desconforto e a dor sentida.
Preservar a dignidade deve ser foco central dos profissionais de saúde. Para isso, exige capacidade de introspeção, conhecimento, compreensão da dinâmica da conduta humana. É um conceito complexo pela ambivalência de interpretações realizadas. Assim, como se processa a defesa da dignidade humana?
Neste sentido, a Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Viana do Castelo no âmbito do Mestrado em Cuidados Paliativos, leva a cabo no mês de maio, um conjunto de seminários que se irão debruçar sobre estas temáticas.

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