Uma ideia alternativa ao populismo

Ideias

autor

António Ferraz

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O mundo em que vivemos tem vindo a passar por tempos muito difíceis e fortemente perturbadores: surgimento e persistência de crises financeiras e económicas, disparo da corrupção, desconfiança crescente das populações nos seus governantes, guerras regionais sem fim à vista, vagas e mais vagas de refugiados e terrorismo. Ora, esses são exactamente os factores chave ao aparecimento do populismo, com cariz de extrema-direita, demagógico, nacionalista, xenófobo, sexista, homofóbico e anti-refugiados. Mas atenção, por isso mesmo, estes também são tempos de profunda reflexão sobre modelos alternativos de sociedade ao populismo.
Numa breve resenha histórica apercebemo-nos que a queda do muro de Berlim (1989), determinou o fim dos grandes dois grandes blocos rivais (Ocidente e Soviético) e tornou-se unipolar com o domínio pleno dos Estados Unidos, ou seja, ao capitalismo ocidental deixou de haver o seu contraponto no “socialismo soviético”. Ora, o capitalismo na ordem económica e o neoliberalismo na ordem política trouxeram: desregulação dos mercados de produtos, do trabalho e do sistema financeiro, mais e mais privatizações, um maior poder e benefício das multinacionais, maiores sacrifícios à população, aumento da precaridade laboral e menos protecção do ambiente.
Contudo, ao contrário da tese do “fim da história”, a realidade mostrou que a “mundialização feliz” não tem sido tão feliz assim, ao invés, é cada vez maior o descontentamento das populações submetidas aos ditames da globalização neoliberal com as suas recessões, elevado desemprego, corrupção crescente, níveis de pobreza e injustiça social inaceitáveis, guerras e mais guerras, mais terrorismo e mais crimes ecológicos.

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“A realidade mostrou que a “mundialização feliz” não tem sido tão feliz assim, ao invés, é cada vez maior o descontentamento das populações submetidas aos ditames da globalização neoliberal com as suas recessões...”

Como ideário para um novo modelo social alternativo que se destaca o prémio Nobel da Economia, o norte-americano Joseph Stiglitz (2011) ao resumir bem a ideia de o mundo se tornar cada vez mais instável e desigual: “somente 1% dos mais ricos fazem funcionar a economia e o mundo inteiro em função dos seus interesses, porém, todos esses endinheirados não tem a mínima preocupação com o factor ecológico ou quanto aos limites dos bens e serviços naturais usados na produção, esta dirigida a sociedades altamente consumistas e do desperdício”. Nesta linha de pensamento temos seguindo o chamado modelo da convivialidade surgido nos anos 1970, de que foi pioneiro o austríaco Ivan Illich (1926-2002), teólogo, pensador e professor universitário, em particular, quando coloca em causa as teses então predominantes sobre a medicina e a escola convencional. A teoria da convivialidade e da sobriedade voluntária procura, assim, responder as duas principais crises do sistema capitalista actual: (1) a industrialização tem implicado que o domínio do ser humano sobre os instrumentos se tornasse o domínio do instrumento sobre o ser humano ao visar exclusivamente a produção e o consumismo, o que fez surgir uma sociedade desumanizada, intensamente exploradora do trabalho, centrada no máximo lucro, enfim, uma sociedade sem alma. Para aquele professor o valor técnico da produção material deve caminhar junto com o valor ético da produção social e espiritual; (2) a convivialidade pretende ser uma resposta à crise ecológica resultado da industrialização capitalista ao longo dos séculos, ou seja, a destruição intensa dos bens e dos serviços naturais pode provocar uma incomensurável delapidação do nosso planeta e de todas as organizações económicas e sociais; (3) o mundo tem vindo a caminhar no sentido de um crescimento neoliberal não sustentável, apostando apenas na produção material alargada e no consumismo extremo, sem qualquer preocupação social, espiritual e ecológica, levando o sistema a rupturas económicas, sociais, políticas e ambientais dramáticas. Por fim, dá visibilidade a uma linha de pensamento que promove a crítica ao modelo neoliberal vigente e aponta para a necessidade de se “desfazer o desenvolvimento (neoliberal, consumista e não ecológico) para refazer o mundo”.
Concluindo, deixamos ficar algumas palavras de Leonardo Boff, teólogo, pensador, professor universitário e expoente da Teologia da Libertação no Brasil: “estão se verificando em toda a parte revoluções silenciosas que tentam contrariar a catástrofe iminente e lutam pela transformação do mundo: a convivialidade e a sobriedade voluntária. Essas revoluções silenciosas são grupos de base, cientistas e ecologistas que tem vindo a propor alternativas ao tipo presente de viver no mundo, sob pena de estarmos a estressar de forma impiedosa a Terra, o que poderá levar a que a ela reaja provocando um abalo, capaz de destruir grande parte de nossa civilização. Importa deixar em aberto a possibilidade de um uso convivial dos instrumentos tecnológicos a serviço da preservação da vida, do bem-estar da humanidade e da salvaguarda de nossa civilização. Então, o ser humano terá aprendido a usar os instrumentos tecnológicos como meios, e não como fins; terá aprendido a conviver com todas as coisas sabendo trata-las com reverência e respeito. Isso não seria uma verdadeira transformação do mundo do novo milénio?”

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