A Páscoa como ensaio sobre o humano

Ideias

autor

Moisés de Lemos Martins

contactarnum. de artigos 4

Ensaiar o humano é ensaiar a ideia de viagem. Mas de uma viagem com perigos e obstáculos a transpor. É ensaiar a viagem como errância, enigma e labirinto, e também como rugosidade, viscosidade e incerteza. É ensaiar a viagem como dúvida, embora seja, de igual maneira, ensaiá-la como memória de caminhos já andados e de experiências já vividas.
Afinal, ensaiar o humano é declinar a vida, ou mais propriamente, o fluxo de uma vida: as vibrações e intensidades, as ressonâncias e modulações, os ritmos e cadências, as relações, interações e tensões, enfim, as durações e as memórias.

O fluxo é uma metáfora da vida, tendendo ambos, fluxo e vida, a desenvolver-se na tensão entre equilíbrio e desequilíbrio, entre harmonia e desarmonia. Os fluxos fazem corrente e as correntes vivem da duração. Vivências e experiências são fases da corrente que é a duração de uma vida, em que umas vezes somos regato, ou ribeiro, mas também rio e mar, em que tanto podemos ser levada abundante, ou apenas fluxo brando, mero fio de água, extenuado. De certos fluxos da nossa vida podemos dizer que rebentam em fartos borbotões, que misturam águas e são tormenta, quando noutros casos os fluxos abrandam, ou para logo ganharem força, ou para se diluírem, e mesmo se extinguirem.

Fluindo sob o signo do fluxo, por vezes jorramos às golfadas, em movimento e volume caudaloso. Todavia, não podemos dizer que tenhamos tido sempre a cadência certa. Muitas vezes fomos hesitantes, confusos, e mesmo tumultuosos. Quer vivamos em ritmo enérgico ou compassado, em ritmo impulsivo ou regular, a nossa vida é marcada pela descontinuidade. A continuidade de um fluxo não pode garantir-nos nunca a estabilidade. Sempre que conseguimos algum equilíbrio, logo espreita a ameaça de nova instabilidade. De facto, não existe o continuum de um fluxo. Assim como também não acontece o continuum de uma vida.

Ensaiar o humano é, então, viver no infinitivo, naquilo que está a fazer-se. E não no definitivo. É viver no provisório e no fragmentário. E não no que nos é dado como uma identidade estável, feita de uma vez por todas, acabada.
Ensaiar o humano é também figurar a promessa, que todo o humano é - a promessa de quem quer ver-se livre da contingência e ensaia uma transgressão, uma transfiguração.
Ensaiar o humano é declinar a polifonia de vozes que nos habitam, a nossa multiplicidade - não apenas a multiplicidade que somos aos olhos dos outros, mas também a multiplicidade que constituímos para nós mesmos.

Enfim, ensaiar o humano é dar forma à ideia de comunidade, humanizando-nos sob o olhar do outro, ele que é o nosso caminho e o nosso destino.
Em O Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, a última palavra é “Travessias”. Afinal, é o que convém a um sertão, que é um deserto. Travessia é, todavia, a viagem em que consiste a nossa vida.
Marcando o ritmo dos dias, do Oriente para Ocidente, há milhares de anos que judeus e cristãos fazem da Páscoa o acontecimento central da sua vida. A fé na ressurreição faz a vida levar a melhor sobre a morte. E assim culmina o movimento de regresso à origem, ao regaço de quem nos fez à sua imagem, filhos de Deus. É um facto, a Páscoa define-nos. Ao tirar-nos da dúvida e da incerteza, torna-nos definitivos. E é nisso que consiste a nossa salvação: de travessia, a viagem que nos cabe fazer converte-se então numa passagem.

A Páscoa dos Judeus é uma passagem. E também o é a Páscoa dos cristãos. Na Páscoa, a viagem perde o caráter de errância, enigma e labirinto, e também de rugosidade, viscosidade e incerteza. Mas para isso é preciso ter fé.
Quando Jahvé decretou matar os primogénitos das casas dos egípcios, para obrigar o Faraó a deixar partir o povo de Israel, a morte não parou nas suas casas, passou adiante, ceifando apenas os egípcios.

E, depois, perseguidos de perto pelos egípcios, os israelitas viram o Mar Vermelho abrir-se, para que pudessem passar a pé enxuto. Atravessar o Mar não foi, portanto, nenhuma travessia para os judeus; foi-o apenas para os egípcios, que logo se viram engolidos pelas águas em turbilhão.
E a mesma coisa se passa com a ressurreição de Cristo. No dizer de São Paulo, é vã a fé daqueles que não acreditam nela. E é essa a razão pela qual a passagem da morte para a vida vence a travessia. Mas a vida de Jesus não havia sido outra coisa senão uma permanente travessia, uma viagem tumultuada, certamente com momentos gozosos, mas também com um calvário de provações.

Penso que o curso de uma vida não pode esgotar-se na segurança de uma passagem, como se na viagem a única coisa que interessasse fosse o ponto de partida e o ponto de chegada. De modo nenhum é possível alguém furtar-se à travessia - a decisões tomadas na dúvida, por vezes às cegas, arriscando a pele. A viagem nunca se deixa adivinhar, como se mais nada houvesse a esperar. Por essa razão, ninguém está dispensado de a fazer.
Na tradição judaico-cristã, a Páscoa é uma passagem. Mas não menos do que na passagem é na travessia que se joga o destino humano.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia