O Caminheirismo (II)1

Escreve quem sabe

autor

Carlos Alberto Pereira

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Hoje, tal como em 19222, as metáforas que Baden-Powell utilizou para ilustrar os cinco escolhos da sociedade do seu tempo: Cavalos, Vinho, Mulheres, Cucos e impostores e Irreligião, mantêm-se atuais, mostram as contradições da sociedade e vincam a incerteza, gritante, no futuro.
Para combater esta quase falta de esperança, o caminheiro tem, ao seu dispor, um percurso de vida que o ajuda a encontrar os antídotos necessários, a fortalecer a sua vontade e determinação alicerçadas no sentido do Serviço, balizado pelo respeito integral de si próprio e dos outros, pelo Amor e Caridade que coloca nas suas ações e pela forma como a sua fé marca a sua vida na relação com os outros, com a comunidade e com a casa comum que a todos acolhe.

O Caminheiro, no ato de investidura, compromete-se, voluntariamente, com ele próprio e com os outros, a viver este ideal de vida e a ser um cidadão feliz, saudável e útil, guiado pela Lei e Princípios do Escutismo.
Este compromisso de honra só deve ser assumido quando os jovens se sintam preparados para se autodisciplinarem em função de uma vida de cidadania, solidariamente ativa à luz da fé que professam. Para isso, o sistema de progresso, currículo que cada um deles vai construindo em função do seu ritmo pessoal de aprendizagem, das suas aspirações e das suas necessidades, enquadrado nas seis áreas de desenvolvimento: físico, afetivo, caráter, espiritual, intelectual e social, permitir-lhe-á atingir, de forma gradativa, os objetivos educativos do Programa Educativo do Corpo Nacional de Escutas3 e levá-lo-á a conhecer a razão de ser do Caminheirismo, como também as exigências de uma cidadania vivida de forma integral.

Só deste modo, o Caminho será um espaço e uma vida onde a arte de servir o próximo e a prática do bem, em todas as suas dimensões, terão um caráter omnipresente. O seu desejo de buscar o arquétipo de cidadania e de vivência da fé professada, levam o jovem a desenvolver, ainda que, por vezes, de forma inconsciente, o conceito de educação permanente e ao longo da vida. Na certeza que o caminheiro não é um ser perfeito, mas, tão somente, um jovem que caminha à procura da utopia da perfeição, cada vez mais perto, mas sempre inalcançável, guiado pelos nobres valores de cidadania e pela divisa de Servir, sempre e a todos em quaisquer circunstâncias.

Ser caminheiro é, afinal, saber definir a sua própria vida por aquilo que ela tem de ser, um Caminho conducente a uma preparação para o serviço público, para o serviço aos outros e para o gosto de viver, tornando-se um cidadão de “visão larga”, como diz Baden-Powell, procurando a “Grande Felicidade e não para a Grande Gamelada (...) com o desejo humilde de servir a comunidade, de colaborar no espetáculo para o bem da maioria (...). A tua recompensa não consistirá em te veres subir, mas em veres subir os que te cercam para um melhor nível de vida”.4

Finalmente, o Caminheiro é um semeador de Esperança, pois, ao impelir a sua própria canoa, ele cria o seu destino, e, ao presenciarmos estes pequenos factos, recordamos as palavras do fundador, publicadas no número de abril de 1940, da revista The Scouter: “a maior parte dos que temos andado a lançar a semente não estaremos aqui, tendo em conta a natureza das coisas, para assistir à colheita; mas bem nos podemos sentir agradecidos, e em boa vontade rejubilantes, por a nossa seara já se encontrar tão adiantada...”


1Continuação do tema da última crónica.
2Ano em que Baden-Powell publica o livro A Caminho do Triunfo.
3Texto aprovado em 2009 e publicado em 2010, pelo CNE
4B.-P., A Caminho do Triunfo, C.N.E., Lisboa, 2009, 3ª edição, p.149.

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