Absurdos e boicotes

Ideias Políticas

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Hugo Soares

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O senhor presidente da Assembleia da República disse no fim-de-semana, numa entrevista ao DN, que consideraria absurdo a criação de uma nova comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos. E disse mais. Disse que 'seria lamentável se houvesse um boicote ao funcionamento daquela comissão para agora se criar uma paralela para saber dos sms ou dos e-mails ou seja do que for'.

São afirmações muito sérias e muito graves, vindas da segunda figura da Nação. E, apesar de tudo, estas declarações impressionam pela sua extrema ligeireza. Uma ligeireza, de resto, em tudo semelhante à que o primeiro-ministro costuma usar quando se tenta desembaraçar de temas incómodos, num misto de despropósito e leviandade a que vai habituando os portugueses e que, pelos vistos, está a fazer escola.

Ferro Rodrigues diz que criar uma nova comissão será absurdo. Mas absurdo foi o silêncio do senhor presidente da Assembleia da República nestas duas últimas semanas, quando se impunha uma posição clara e inequívoca na defesa dos direitos dos deputados de escrutinarem e fiscalizarem os atos do governo. Ao contrário, Ferro Rodrigues escudou-se num silêncio ensurdecedor de conivência e consentimento para com os partidos de esquerda, a começar pelo seu próprio partido, cuja camisola foi até hoje incapaz de despir nas suas funções de presidente da AR.

Ferro Rodrigues assistiu impávido e sereno ao permanente rolo compressor da maioria de esquerda na comissão de inquérito à CGD, numa tentativa descarada e desesperada de impedir que a verdade venha ao de cima, e nunca veio dizer publicamente que esse comportamento é absurdo em democracia. Nunca lhe ouvimos uma crítica, um reparo, uma observação que fosse à atitude inadmissível destes partidos. Esteve sempre calado. Até agora. E sem qualquer tipo de pudor, colocou-se claramente de um dos lados da barricada, acusando as dores dos socialistas, dos bloquistas e dos comunistas. Para isso, mais valia permanecer calado.

Já o boicote lamentável de que também fala Ferro Rodrigues, esse boicote vem acontecendo desde o primeiro momento em que PSD e CDS decidiram a constituição da comissão parlamentar de inquérito à CGD. Os portugueses já perceberam há muito que os únicos responsáveis por esse boicote são o PS, o Bloco de Esquerda e o PCP. Convém lembrar que estes partidos se opuseram à criação desta comissão e, não o tendo conseguido, obstaculizaram permanentemente o seu funcionamento. Nesse objetivo, tiveram o apoio tácito ou expresso de Ferro Rodrigues.

Todos juntos, impediram o alargamento do objeto da comissão de inquérito, de forma a que tudo o que se passou com o processo nebuloso da contratação de António Domingues, e da evidente responsabilidade do ministro das Finanças neste caso, permanecesse desconhecido dos deputados e dos portugueses.
O PSD lida muito bem com o facto de estar na oposição e de - mesmo sendo o partido mais votado - estar em minoria no Parlamento. Mas definitivamente não aceita que se ponha em causa as regras mais básicas do funcionamento democrático e das instituições. E, por isso, não se detém nem com absurdos nem com boicotes. Nem hoje nem nunca.

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