23 de Maio de 2026

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Vítor Pereira

Uma noite comum de um dia de chuva qualquer, Leonor brincava com os cabelos da mãe, com os seus pequenos dedos, deitada sobre o seu colo, desenhava universos no seu sorriso. Envolviam-se as duas num sono, um transe que era só delas, mãe e filha. Tinham aquele entendimento no silêncio, a cumplicidade dos olhos que eram espelho uma da outra. Cumplicidade esta que, nem Afonso - o irmão de Leonor - nem o próprio pai tinham coragem de desafiar.
Afonso, por outro lado falava com a inocência das notas musicais, com o pequeno corpo que mal havia aprendido a andar, tinha já a audácia e a curiosidade para ir ao estúdio do pai buscar uma das suas guitarras…

- Mamã, mamã, posso abrir a janela da sala? - Questionou Afonso
- Está a chover meu anjo, vais apanhar frio. Respondeu ela com o seu sorriso protetor.
- Só um pouquinho, para tocar uma música para vocês, por favor, por favor - insistiu ele abraçado à guitarra.
O pai, sentado no sofá mais distante da sala, segurando o bloco de notas que sempre o seguia, assistia a tudo em silêncio, quase como um espetador, respirava os ares de um corpo deleitado com as estações da felicidade:
“23 de Maio - Chove lá fora e o tempo pára dentro destas paredes onde erguemos a felicidade de um destino que quase nos fugiu. Quantas vezes deixamos fugir o que sempre nos pertenceu? A felicidade é uma fotografia parada no tempo…”

O pensamento que o pai escrevia no bloco de apontamentos foi interrompido pelas cordas da guitarra que vibravam suavemente sobre os contrabaixos da chuva e percussão do vento a dançar nas árvores lá fora… As meninas, mãe e filha, dormiam no sofá, libertas no abraço uma da outra.
Pegou nas duas, uma de cada vez e colocou-as na mesma cama, enquanto Afonso tinha ficado à janela, balançando as mãos para cima e para baixo, esquerda e direita, como quem controla a sinfonia do tempo. O pai aguardou uns segundos, para que Afonso pudesse terminar o último ao da orquestra. Bateu palmas no fim e o menino, graciosamente, voltou-se e fez uma vénia ao público. E seguiu o Pai para o quarto.

Havia dias que dormiam assim, todos na mesma cama. Afonso deitou-se, Leonor acordou com os movimentos do irmão…
- Papá, papá, podes ler-nos a história da pedrinha? Aquela que fala sobre como conheceste a mamã? Perguntou Leonor
- Já é tarde meninos…
- Vá lá, por favor papá - insistiu Afonso, balançando o corpo agarrado aos pés enquanto Leonor dançava livremente à volta da cama.

A mãe dormia, com aquele sorriso de quem sente e assiste a tudo o que se está a passar, mas sem ousar abrir os olhos para não estragar o sonho.
- Muito bem - disse o pai - deitam-se lá e passem para cá a caixinha das histórias.
“Era uma vez… “ e começou a ler sossegadamente sobre o olhar atento das crianças e os ouvidos alerta da mamã:
Era uma vez uma menina de olhos claros, tinha uma pele branca e um sorriso lindo e envergonhado que usava para se esconder do escuro dos dias tristes - era uma vez uma menina que tinha medo de chorar...

Todos os dias saía para o mundo com o sorriso vestido, dançava à volta das tristezas com o seu jeito maluco e fazia o mundo sorrir.
Quando chegava a casa, despia o sorriso e deitava-se a sonhar com todos os sorrisos que não era capaz de sentir…

Mas todos os dias, antes de adormecer, apagava as luzes, olhava por entre as cortinas da janela e sorria para a paz da noite - a única que a entendia e confortava.
Os dias e as noites passavam assim...
Até que certo dia, tão triste que estava, a menina resolveu ir para a cama antes de ir sorrir à janela, abandonou-se simplesmente no escuro...

Era uma vez um menino.
O menino esperou.
Como todos os dias, esperou. A noite alongou-se, a chuva tapava o luar e cobria os olhos molhados tristes do menino que esperava trémulo do outro lado da rua - escondido entre um punhado de sombra e uma mão de saudade... Esperou...
Algures numa história a menina tinha lido algo sobre o sobre os pinguins - os pinguins machos percorrem a praia à procura da pedra mais bonita, para oferecerem à fêmea com quem pretendem passar o resto da vida - adormeceu entre uma lágrima e este pensamento.
Entre este pensamento e mais umas gotas de chuva, o menino levou a mão ao bolso agarrou na pedra que tinha guardado consigo há anos.

Saiu da sombra e atirou a pedra na direção da janela por onde, todos os dias, via aquela estranha sorrir... e voltou a esperar.
- (Silêncio)
- (Silêncio)
- (Chuva)
- Quem és tu? Perguntou ela enquanto segurava a pedra que encontrou junto ao parapeito da janela.
- Não sou ninguém - disse ele - não passo de um viajante que procura o momento mais bonito de toda a história do mundo...
Olharam-se...
Não se conheciam mas não se estranharam...
- Todos os dias tento fazer as pessoas sorrir - disse ela com os ombros encolhidos para si mesma - mas venho para este quarto triste com o mundo e nem sei bem porquê...
- Talvez porque o mundo pode ser feio para quem olha para ele e lhe sorri com tanto carinho - respondeu o rapaz enquanto observava os dedos da menina a percorrerem aquela pedra estranha...
- Esse momento - disse ela - esse momento perfeito de que falas... Alguma vez o encontraste no mundo?
- Sim - disse ele - todas as noites...
- Todas as noites? Perguntou espantada
- Sim. Sempre que vens à janela e te vejo sorrir.
Amou-a antes de a ter tocado.

Dormiam os três, a mãe e a menina aconchegadas uma na outra, “as mulheres da minha vida” pensou o Pai, e o menino a dormir agarrado à mão do Pai, “Meu pequeno artista…”
Apagou a luz, antes de se deitar, foi lá fora. Tinha parado de chover. Junto à estrada, uma flor havia sobrevivido ao temporal, brilhava agora com todas as cores do céu iluminado, pensou em colhê-la e levá-la para dentro de casa, mas decidiu-se a deixa-la ali, viva, como todas as coisas belas do mundo.
Antes de se deitar, olhou uma última vez para o mundo dentro daquela cama, “Amo-vos, até ao meu último poema…”

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