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Ana Maria Monteiro

Sei que estou grávida. Soube-o no exacto instante da concepção. Pouco antes do acidente…
… do terrível acidente.
Estávamos tão bem naquela noite, Pedro!
Será que te recordas?
Será que as memórias chegam aí, onde estás?
- Pedro! Pedro! Ouves-me?
Os médicos ignoram a minha presença. As enfermeiras entram, saem, tratam-te, tudo como se eu nem existisse.
Não me importo. Não têm nada para me dizer. Resta esperar e prefiro atravessar este deserto em silêncio, só contigo. Tu nesse teu limbo e eu no meu, aguardando o teu despertar.
- Pedro!
Ainda não fiz o teste de gravidez, é cedo e também não quero fazê-lo sem ti, quero que estejas comigo quando confirmarmos esta certeza que já é minha.
Como ficarás feliz!
O teu olhar iluminar-se-á reproduzindo as cores do arco-íris, como dantes, quando ríamos, quando éramos felizes, quando tudo estava bem.
- Pedro! Acorda, Pedro!
Temos a vida suspensa à nossa espera.
Não sinto fome, não tenho sono.
Deambulo, nem sei por onde, quando não estou à tua cabeceira.
O bebé mexe-se, sei que mexe, minúsculo, microscópico, dentro de mim.
Não consigo reconstituir o que sucedeu.
Foi de repente. Luzes, estilhaços, vidros partidos, sons metálicos, o alcatrão a arranhar, o cheiro a borracha queimada, o mundo a rodopiar, girando em todas as direções. E depois mais luzes, vozes, sirenes, homens atarefados à nossa volta, palavras soltas, sem sentido.
E depois nada.
E depois tu aí, deitado, silencioso, inerte.
- Pedro! Acorda, Pedro! Regressa. Continuo aqui. Não vou a lado nenhum sem ti.
Porque não me falam?
Ai, o vazio!
Ai, a solidão!
Ai, a tua ausência!
- Pedro! O nosso bebé espera-te. Eu espero-te, Pedro.
Quantas noites e dias já passaram? Quantas eternidades?
Um suspiro?!..
Será?
Um ligeiro tremor…
Será?
Tanta gente!
De onde apareceram todos de repente?
- Pedro!
Abres os olhos.
- Estou aqui, Pedro!
Não vejo. Não vejo nada no céu. Na lua. Nada.
- Pedro!
O tempo passa. O médico continua junto de ti.
Fala em voz baixa. Tu também falas, vê-se que fazes perguntas. O teu olhar tem o tamanho do oceano.
Oiço qualquer coisa. Ele diz “-Lamento.”
Correm-te grossas lágrimas pelo rosto.
- Pedro! Pedro! Estou aqui, Pedro. Voltaste!

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