A carta que nunca te quis escrever

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Renata Cunha

Ao longo da minha vida, ainda jovem, percebi que poucas são coisas que acontecem estando planeadas. A grande maioria não chega a ver a luz do dia e outras acontecem sem convite. Geralmente essas são as coisas más: aquelas que, inevitavelmente, nos tiram o chão e deixam que um vazio cresça no espaço do nosso coração. A notícia da tua partida trouxe-me esse vazio incomensurável que aos poucos deu lugar À saudade e Às lembranças que tenho tuas. É estranha a sensação de quando nos apercebemos de que já não iremos ver mais alguém, é estranho o desconforto, a ausência obrigatória que rapidamente se apodera dos nossos dias, é estranha a forma como somos capazes de sobreviver a tudo o que não foi planeado nem pensado. Também não era para ser, a morte não é algo expectável.

Lembro-me tanto de ti. Ainda hoje te sinto como se cá estivesses. Ainda hoje brinco com tudo o que brinquei contigo. Vejo-me a fugir de ti, depois de ter feito algo que não gostavas, vejo-me a rir contigo e orgulhosa de tudo o que construíste.
Lembro-me das tuas mãos que exaltavam o teu passado, da tua voz forte quando os problemas vinham a caminho e da tua voz doce quando o descanso era tudo o que esperavas.

Não tenho muito mais do que todas estas lembranças mas pelo menos tenho-as. Pensei que ia ser mais fácil, sabes? Pensei que me ias ver crescer por mais algum tempo enquanto resmungarias comigo por ter sido tão traquina em criança. Julguei-te a meu lado quando fosse fazer o que mais me faz feliz. Pensei que hoje poderias estar orgulhoso. E até deves estar. Talvez sempre tenhas estado aí, seguindo os meus passos e suportando as minhas fraquezas. Talvez continues entre nós nos recantos vazios da casa que, um dia, chegaste a preencher, nas nossas conversas que relembram o passado e a tua presença, em todos os lugares pelos quais passaste e nos quais deixaste um pouco de ti, um pouco de nós.

Não censuro a vida por te ter levado cedo demais nem por me ter feito crescer a um ritmo galopante. Os momentos contigo irão sempre pertencer-me e mesmo que aos poucos o teu fim se tenha aproximado, eu sentia-te ali diante de mim. Não me arrependo de todos os dias em que me sentei a teu lado na esperança que melhorasses e que fosses capaz de pronunciar algo. Não me arrependo por ter trocado uma saída com amigos por mais um dia cuidando de ti. Confesso que custou, afinal era a miúda que sempre conheceste agora rezando para que te levantasses e corresses atrás de mim.

Foram longos os meus monólogos, foi longa a espera pelo inevitável. E com o tempo fui acreditando que talvez não houvesse muito mais a fazer. A vida passou por ti na medida certa, independentemente, de todos os acidentes de percurso. A vida passa sempre por nós na medida exata, mesmo de diferentes formas em diferentes pessoas. E a tua foi abençoada!

A vida parou para ti estando tu a fazer o que gostavas - a viajar. Deste e recebeste dela o melhor enquanto foi possível. Foste um homem livre e concretizado.
Hoje imagino-te na cadeira do costume debaixo de uma árvore a dormir ou a falar como se não houvesse amanhã. Talvez, num desses momentos, nunca tenha percebido que realmente não havia mais o amanhã.

Hoje imagino-te, outra vez de pé, a fazer de policia de transito: “Anda, anda...”, “Calma, para...” O quanto eu me ria com estas tuas expressões...
Hoje espero a tua chamada telefónica que chegava sempre quando o sol já se tinha posto, perguntando como estavam as coisas e desejando-nos uma boa noite.
Já não estás na cadeira, já não fazes de polícia nem as tuas chamadas chegam até nós. Pena que já não ligues para saber que direção dar À minha vida. Pena que tenhas partido sem eu ter coragem de me despedir de ti.

Resta-me o que hoje escrevo - muito pouco é verdade - mas leio estas palavras em voz alta como se estivesses presente.
Resta-me o teu silencio e a certeza absoluta de que, se cá estivesses, me pedirias para ler esta carta mais do que uma vez...

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