Dia da Europa - 09 de Maio de 2012, Escola de Economia e Gestão

Ideias

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Isabel Estrada

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São múltiplos os desafios que hoje a União Europeia, os seus cidadãos e governantes enfrentam. Saber o real impacto da mudança de um eixo franco-alemão para um eixo germano-francês sobre as dinâmicas internas e externas da União; ou saber como irá François Hollande honrar o seu compromisso de contestação no espartilho de uma agenda europeia liderada pela Alemanha; ou saber qual o futuro da Grécia na Zona Euro, qual o futuro do próprio Euro; ou ainda saber como irá a zona euro reagir à crescente debilidade de economias como a belga, a holandesa, e mais perigosamente, a italiana ou mesmo a francesa ainda não a salvo da lógica predadora dos mercados; é certamente sinónimo de indagar sobre desafios importantes e imediatos que nos saltam aos olhos.

Mas importa igualmente não perder de vista aqueles que são os desafios de fundo, desafios a que as instituições políticas e a sociedade civil são hoje chamadas a pensar com a maior urgência e seriedade.

Sublinho desde logo o desafio da memória. É fundamental não esquecer a História, porque a História não justificou apenas a importância do Projecto Europeu aquando da sua emergência há 60 anos, mas justifica hoje porque é ele ainda um projecto válido e necessário. Haverá razões que foram ditadas pelas lógicas políticas e pelas dinâmicas económicas de conjunturas já terminadas, é certo. Mas outras há que pela sua persistência, têm cunhado a identidade da História da Europa e que justificam porque o projecto europeu deve prosseguir.

E o que a História da Europa sempre nos revelou foi um milenar palco de rivalidades etnolinguísticas, de esgrimas entre impérios, de alianças desfeitas, de guerras entre linguagens de Poder, como o nacionalismo e o seu sucedâneo externo, o colonialismo. Só com o projecto europeu, com a união de forças e de vontades a Europa conseguiu nos últimos 60 anos fazer não só a gestão colectiva dos seus medos, mas mais do que isso, elevar as suas populações a patamares nunca alcançados de bem-estar e de dignidade humanas.

O segundo desafio que aqui enuncio é o da identidade. Mais importante do que saber quem somos e o que é a Europa, importa que não percamos de vista o que queremos ser. Na construção da identidade há contudo um erro frequente: a tendência para colocarmos no reino da excepção toda a nossa praxis política, cultural, ou social que nos incomoda, que nos agride ou agrediu, que nos oprime ou oprimiu, que, nos envergonha ou envergonhou. O nacional-socialismo alemão, os fascismos do século XX, os posteriores recrudescimentos das linguagens fascistas, e dos nacionalismos virulentos pela voz de grupos e movimentos de extrema-direita, são frequentemente alvo deste erro ao serem avaliados pelo cidadão e pelos governantes (erro maior!) como uma excepção na construção da nossa identidade.

Da mesma forma, a política fundamentalista que persegue os direitos sociais, e que os requalifica como privilégios sujeitos à discricionariedade de quem avalia o mérito, é apresentada hoje ao cidadão como uma excepção temporária, legitimada pela sua suposta inevitabilidade: como se depois de passada a crise, nos seja então restituída a normalidade dos dias e dos direitos.

A ideia sobre o que nos anula enquanto cidadãos, enquanto europeus, ser apenas uma excepção, um qualquer lapso na nossa razão colectiva, um interregno imposto por uma força maior a que somos obrigados a obedecer, é já por si um enorme erro na construção saudável da identidade, mas que se agrava com o que Zigmunt Baum identificou como sendo o perigo maior: o da banalização da excepção, do lapso, do interregno; ou seja, a aceitação passiva e gradual no nosso quotidiano, de políticas, de discursos, de práticas, em suma, de valores que atentam contra aquela que queremos seja a nossa identidade europeia.

Para resistir a essa tentação de reduzir o que nos agride à simples condição de acto excepcional, e à tentação maior de nos habituarmos a conviver com as excepções que nos bestializam, há que não perder de vista os valores que queremos nos identifiquem sempre: liberdade, solidariedade, democracia. Ora, a tarefa de não perdermos de vista que valores queremos honrar, não se concretiza à revelia do desafio da memória, porque é nele que radica o sentido que explica entre outras coisas, porque se celebrou ontem o Dia da Europa, porque vale a pena fazê-lo, e porque importa assegurar a continuidade do projecto que esse dia simboliza.

(Do discurso proferido ontem na Escola de Economia e Gestão, no âmbito das Celebrações do Dia da Europa).

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